As quadrinistas pioneiras dos EUA

A internet possibilitou maior acesso à informação e com isso, certas descobertas foram possíveis no campo das histórias em quadrinhos também. Graças ao empenho de pesquisadoras nacionais e internacionais, sabemos hoje que as mulheres sempre estiveram envolvidas na produção de HQ e esse texto é reflexo dessas pesquisas.

Embora não possamos dizer que a Golden Age das HQs tenha sido tão dourada para as artistas femininas, foi entre os anos 30 e 50 que algumas mulheres conseguiram se destacar em um universo extremamente masculino e que, se não fosse pela pesquisa intensa de Trina Robbins para os seus livros The Great Women Cartoonists e Pretty In Ink: North American Women Cartoonists 1896-2011, muito provavelmente não teríamos conhecimento de sua existência.


Mesmo em cursos e livros voltados para a História das HQs nos Estados Unidos, pouco ou nada se fala a respeito dessas mulheres, porém, se não fosse por elas, não haveria protagonista feminina cujos objetivos e desejos não girassem apenas em torno das fantasias adolescentes.

A incidência de mulheres no mercado editorial dos estados Unidos está diretamente ligada ao contexto histórico do país: entre os anos 20 e 30, movimentos feministas inspirados em sufragistas, como Lucy Stone e Elizabeth Blackwell, ganhavam repercussão mundial. Mulheres se organizavam para lutar por direitos de igualdade profissional, direito ao voto e de acesso ao ensino. Em consequência das guerras e da “Grande Depressão”, as mulheres se viram obrigadas a procurar empregos até então desenvolvidos por homens, pois precisavam prover para seus lares. Mulheres dirigindo caminhões, escrevendo, pilotando aviões e, consequentemente, abraçando o universo das ilustrações e cartuns não eram mais consideradas como algo fora do comum.


Ainda antes disso, Rose O’Neil desenhou a primeira tira feita por uma mulher, praticamente na mesma época que o mundo conhecia o personagem tido por muitos pesquisadores de HQs como o precursor do estilo, Yellow Kid de Outcault. Em 1896, Rose, com 22 anos, publicou uma tira na revista Truth, apenas alguns meses depois da aparição do “garoto amarelo” no jornal. Ela passou a ser a primeira mulher a integrar a equipe da revista de humor Puck.

De acordo com  Trina Robbins, todo mundo lia jornais e revistas. As mulheres que desenhavam cartuns eram famosas superestrelas nacionais. As pessoas recortavam e guardavam as tiras. É possível encontrar scrapbooks com as ilustrações destas mulheres coladas neles, algumas vezes coloridas por alguma menina. Ninguém achava que era incomum para uma mulher fazer quadrinhos porque não era incomum para as meninas e mulheres lerem quadrinhos.

Nos anos 20, com a aquisição do direito ao voto e a influência das melindrosas, que ia muito além da moda, cartuns referenciando essas mulheres se tornaram comuns. Tiveram em Ethel Hays, com Flapper Fannie, uma de suas maiores representantes. No entanto, com a Grande Depressão causada pela quebra da bolsa de Nova York em 1929, as personagens passaram a ser um pouco menos glamorosas e retratavam mulheres pobres, órfãos e trabalhadoras que davam duro para ganhar a vida.

Um exemplo dessa tendência nas tiras foi o surgimento da personagem pobre, mas otimista de Jackie Ormes, Torchy Brown in Dixie to Harlem. Ormes foi a primeira cartunista afro-americana a ser publicada nos Estados Unidos. Suas tiras eram publicadas em jornais voltados à população negra em vários estados.

Com a ameaça do nazismo e a popularidade crescente de Hitler, muitos jovens se alistaram para lutar na segunda Guerra Mundial. Diante do medo e da falta de esperança que despontavam no horizonte, quem seria capaz de defender os indefesos? Foi nesse contexto que, em junho de 1938, a Action Comics foi lançada pela Detective Comics, se tornando a primeira coletânea de histórias publicadas em forma de Quadrinhos como conhecemos hoje, em vez de manter as tiras apenas nas publicações de jornais. Ela inaugurou a chamada “Era de Ouro” dos Quadrinhos e trazia Superman em sua capa.

Muito embora houvesse resistência para que mulheres publicassem histórias de aventura (até então elas se limitavam a publicar personagens femininas delicadas ou animais “fofos”), em 1939 Tarpé Mills desenhou algumas histórias de mistério, zumbis e outros personagens para revistas em quadrinhos.

Na mesma época, ainda que com muita relutância, os jornalistas sindicalizados de Chicago e Nova York aceitaram a publicação de uma das tiras com maior longevidade das Histórias em Quadrinhos produzida por uma mulher: Brenda Starr, a repórter, de Dalia Messick (publicada como Dale Messick para esconder sua identidade feminina no início). Essas tiras foram publicadas até 2011, sempre desenhadas por mulheres a pedido da artista.

Ao se aposentar, na década de 1980, Dalia exigiu que a personagem continuasse a ser produzida, mas apenas por mulheres. Na época, Linda Sutter (roteirista) e Ramona Fradon (ilustradora) assumiram a função de manter a personagem viva. Em uma indústria onde o autor não era dono de sua obra, Dalia não apenas controlou a produção dos quadrinhos de Brenda Starr até sua aposentadoria como ainda impôs condições para sua continuidade. E isso foi fundamental para manter a identidade de sua personagem. Seis anos após a morte de sua criadora, em 2011, a personagem Brenda Starr encerrou sua carreira nos quadrinhos. “(NOGUEIRA, 2015, p.29)

Em Abril de 1941, Tarpé Mills criou a primeira grande heroína feminina, Miss Fury. Com estilo noir e vestiário impecável, a personagem Marla Drake lutava contra os nazistas em aventuras pelo mundo, incluindo o Brasil.

Seguindo o caminho trilhado por Tarpé Mills e Dale Messick, Lilly Renée, Gladys Parker e Fran Hopper também brilharam nos anos dourados das HQs, porém, com o fim da guerra em 1945, os homens voltaram aos seus postos e muitas mulheres que haviam sido admitidas para desenhar histórias de ação, perderam seus postos e simplesmente não foram mais recolocadas.

Embora algumas artistas tenham conseguido continuar desenhando quadrinhos, grande parte delas ficou limitada a produzir histórias românticas. Essas histórias, de acordo com Trina Robbins, tinham um objetivo maior que simplesmente entreter mulheres: elas eram veículos de propaganda da mentalidade difundida nos Estados Unidos durante as décadas de 50 e 60 e que contrariava tudo pelo qual o feminismo havia lutado até então.

De repente, aquelas mulheres fortes que pilotavam até aviões passaram a ser vistas como masculinizadas. As mulheres estavam sendo chamadas de volta ao lar para que pudessem exercer a verdadeira e única vocação feminina: a maternidade. Ao invés de sonhar com aventuras ao redor do mundo, a única ideia de realização possível vinha em forma de um casamento, uma casa e vários filhos correndo pelo quintal.

“Especialistas ensinavam-lhe a agarrar seu homem e a conservá-lo, a amamentar os filhos e orientá-los no controle de suas necessidades fisiológicas, a resolver problemas de rivalidade e rebeldia adolescente; a comprar uma máquina de lavar pratos, fazer pão, preparar receitas requintadas e construir uma piscina com as próprias mãos; a vestir-se, parecer e agir de modo mais feminino e a tornar seu casamento uma aventura emocionante; a impedir o marido de morrer jovem e aos filhos de se transformarem em delinquentes. Aprendiam a lamentar as infelizes neuróticas que desejavam ser poetisas, médicas ou presidentes. Ficavam sabendo que a mulher verdadeiramente feminina não deseja seguir carreira, obter educação mais aprofundada, lutar por direitos políticos e pela independência e oportunidades que as antigas feministas pleiteavam.” (FRIEDAN, 1971, p.17)

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Esse ideal feminino, que era imposto não só pelo governo e pela publicidade, era totalmente abraçado pela sociedade. Ao menos era o que acreditavam os especialistas em comportamento, sociólogos e psicólogos até que a escritora Betty Friedan provou que aquela imagem vendida pela TV e propagandas de utensílios domésticos era tão frágil quanto uma bolha de sabão.

Como se não bastasse o retrocesso gerado pelo pensamento vigente na década de 50, outros dois fatores contribuíram para que o mercado de HQs sofresse drásticas mudanças: o lançamento do livro do psiquiatra Fredric Werthman, Sedução do Inocente, que além de atestar que as HQs eram responsáveis pela delinquência juvenil, dizia também que a independência de personagens como a Mulher-Maravilha levaria as meninas a se tornarem lésbicas, e o Código dos Quadrinhos que impunha censura a todas as produções de quadrinhos.

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Contudo, com a popularidade do movimento hippie, que negava os valores que teriam levado os Estados Unidos à Guerra do Vietnan, os jovens passaram a se identificar com a contracultura do Rock n’ Roll, das drogas psicodélicas e do amor livre, levando artistas como Robert Crumb, Gilbert Sheldon e Kim Deitch a liderar o movimento de quadrinhos “underground” e que ficou conhecido como Comix. As HQs produzidas através do movimento “underground” faziam apologia às drogas e ao sexo explícito, em uma tentativa clara de contrariar o autoritarismo do Código dos Quadrinhos.

Essas produções podiam ser encontradas em locais como as “Head Shops”, lojas especializadas em produtos relacionados à maconha ou tabaco e comercialização de produtos relacionados à contracultura, porém, no início dos anos 80, com o fim do movimento hippie, as “Head Shops” começaram a dar lugar às lojas especializadas de HQs e, como mencionado anteriormente, ainda que algumas mulheres tenham conseguido se manter como quadrinistas e muitas delas também no cenário “underground”, nos anos 80 a dificuldade para distribuir HQs produzidas por mulheres fez com que se tornasse quase impossível encontrar alguma obra produzida por elas.

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FRIEDAN, Betty. A Mística Feminina. Petrópolis: Vozes. 1971.

NOGUEIRA, Natania  A.S..As representações femininas nas Histórias em Quadrinhos norte-americanas: June Tarpé Mills e sua Miss Fury (1941-1952) / Antônio Paulo dos Santos Filho. Niterói, 2015.154p. : il Bibliografia: p. 148-154. Disponível aqui.

 


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Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.