A Bela e a Fera

A Bela e a Fera é meu desenho animado preferido da Disney, então, quando anunciaram um filme live action, fiquei com sentimentos mistos. Será que o filme faria jus ao desenho? Será que destruiriam minha infância? Seria mesmo necessário uma releitura tão parecida com o desenho? Mas vejam, amigos, no geral o saldo foi bastante positivo.

O live action é muito próximo do desenho. A história é praticamente a mesma, com algumas mudanças muito pequenas que deixaram o enredo mais coerente, como o fato de parte da maldição da bruxa ser que a família dos funcionários do castelo da Fera se esquecessem deles, isolando-os da aldeia. Assim, o tempo da maldição não é tão longo quanto parece no desenho. O filme é bastante realista e o mundo é mais bem construído levando em consideração o tempo histórico em que se passa. A “biblioteca” de onde Bela pega os seus livros emprestados no vilarejo tem apenas 5 ou 6 volumes, e a protagonista só sabe ler porque nasceu em Paris e seu pai é intelectual. A maioria dos personagens simplesmente não sabem ler e passam o dia fazendo tarefas domésticas cruciais para sua sobrevivência.

Plumette e Garderobe, personagens negras em A Bela e a Fera

Uma diferença grande do live action para o desenho é que vemos mais os bastidores das vidas dos funcionários principais do castelo. Com referências às suas famílias e o que faziam em seu tempo livre, nos importamos mais para o fato de que eles se tornarão objetos inanimados caso o feitiço não seja quebrado. Outra atualização muito bem-vinda é a diversidade dos personagens. Como já ficou sabido, Le Fou, o parceiro de Gaston, foi interpretado como gay. Além de ser um dos personagens mais divertidos do filme, foi uma saída interessante para a devoção exagerada ao seu “amigo”. Além disso, há alguns personagens negros importantes, mesmo que secundários, como Plumette, espanador e namorada de Lumiere, e Garderobe, armário que veste Bela. Nesta versão da história, ela é casada com o maestro-cravo e é soprano da pequena ópera do castelo.

Mas, voltando ao que é realmente importante no quesito Disney, os números musicais, iguais aos do desenho, são magníficos. Emma Watson tem uma voz bonita e interpretou bem a Bela dos desenhos. Todos os atores são fantásticos, principalmente Luke Evans como Gaston. Hoje em dia já passa batido, mas o CG foi muito bem utilizado na humanização dos objetos do castelo, deixando-os muitos realistas sem cair no vale do estranhamento. O destaque fica para Lumiere, uma pessoinha-candelabro perfeita.

Como nem tudo são flores, é importante citar alguns pontos negativos. As músicas originais do desenho foram compostas por Alan Menken, um dos maiores gênios musicais da Disney, responsável pelas canções mais importantes dos filmes dos anos 90 como A Pequena Sereia, Pocahontas e Aladin. O live action, no entanto, tem algumas músicas novas. Como era de se esperar, as músicas novas não são tão boas quanto as antigas e parece que estão no filme só para preencherem buracos narrativos. Além disso, a Bela de Emma Watson e a Fera de Dan Stevens acabam se perdendo no meio de tantos personagens secundários mais carismáticos, como acontece com frequência nos filmes da Disney. Emma Watson, coitada, não consegue se livrar da Hermione, ainda mais sendo a única pessoa do vilarejo que sabe ler. A Fera, por outro lado, é o herói menos interessantes do filme inteiro, diferentemente do desenho, quando realmente nos importamos com a Fera. No fim, acabamos torcendo para que o casal fique junto mais para poder libertar os servo-objetos do castelo.

Entretanto, esses pequenos deslizes não são o suficiente para destruir o resto da magia do filme, que é realmente muito bem feito e nostálgico. Foi bom até para mim, que sou uma velha crítica de cinema ranzinza. Tenho certeza que as novas gerações, que são mais exigentes com questões sociais e representatividade, também vão gostar da repaginação de um antigo clássico.


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Deborah Happ

Formada em Midialogia, pela Unicamp, com mestrado em Estética e História da Arte, pela USP. Faz umas artes quando dá, escreve por necessidade.