Conheça Trina Robbins

No mês das mulheres eu não poderia deixar de escrever sobre uma das artistas mais inspiradoras que já conheci e uma referência nos estudos sobre mulheres nos quadrinhos: Trina Robbins, que já apareceu em vários de nossos textos. Tive contato com seu trabalho por meio de uma de suas criações, a Misty, HQ dos anos 80 que retratava as aventuras de uma adolescente sonhadora e independente.

Como fã, nunca havia entendido a razão de Misty ter tido uma vida tão curta até que começei a pesquisar para escrever este artigo. Independentemente de gosto ou opinião, é no mínimo curioso que uma personagem, cuja inspiração se baseava em outra HQ de muito sucesso (Millie, the model), tenha tido apenas seis edições nos Estados Unidos e nove no Brasil, sendo publicada por pouco mais de um ano, entre 1985 e 1986.

A verdade é que a década de 80, nas palavras da própria Trina Robbins, foi uma década de “seca” para as mulheres nos quadrinhos. O motivo dessa seca está ligado ao fato de que, naquela época, lojas especializadas em HQs começaram a surgir e, em sua maioria, eram gerenciadas por homens fãs de HQs que não compravam revistas voltadas para o público feminino. Quando o faziam, simplesmente encomendavam um número muito pequeno, ficavam felizes quando elas se esgotavam e não compravam mais. Segundo Trina:

“Nos anos 80 o único lugar para comprar HQS nos EUA era nas lojas de quadrinhos, que pertenciam ou eram gerenciadas por homens que atendiam meninos e jovens oferecendo prioritariamente quadrinhos mainstream de super-heróis. A cultura predominante era que meninas não liam quadrinhos, mas, obviamente, se uma loja está lotada de meninos de 12 anos que fedem a meias velhas e cujos quadrinhos a venda mostram grandes caras musculosos se batendo, a maioria das garotas nem entraria em uma loja de HQs. O resultado é que as lojas ou não pediam nada para meninas ou pediam muito pouco e quando as HQs acabavam elas não solicitavam mais. Então, se você não encontrava Misty nas lojas, você obviamente não podia comprá-la, por isso, depois de seis episódios, ela foi cancelada. Misty não foi a única HQ que teve este problema: A DC distribuía Angel Love da Barbara Slate e que também não deslanchou devido à falta de distribuição.”

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Nos anos 60 Trina Robbins morava em Los Angeles e posteriormente mudou-se para Nova York. Influenciada pelas tendências das HQs da Marvel, cujos personagens passaram a ter maior aprofundamento psicológico, tentou desenhar algumas histórias de super-heróis, mas percebeu que não era seu estilo. Naquela época, Trina desenhava roupas para roqueiros e suas namoradas. Porém, seu interesse pelas HQs não parava de crescer, principalmente depois do jornal independente The East Village Other começar a publicar tiras de diversos artistas que incorporavam vários ideais hippies.

Quando se mudou para Nova York, ainda nos anos 60, ela abriu uma loja de roupas chamada Broccoli e conseguiu um espaço no The East Village Other para publicar uma história em quadrinhos que era basicamente uma propaganda de seu negócio. Porém, por ser extremamente abstrata, as pessoas achavam que se tratava simplesmente de uma HQ.

Com o crescimento dos quadrinhos “underground”, principalmente em São Francisco, Trina resolveu se mudar novamente para Califórnia. Em 1970 ela descobriu que a cidade era o centro do universo de HQs “underground” para os homens, não para as mulheres. Trina havia recentemente se tornado feminista e, além dela, poucas mulheres desenhavam em São Francisco até então.

No entanto, apesar de os desenhistas não incluírem seu trabalho em suas produções, Trina acabou conhecendo as editoras do primeiro jornal feminista, It Ain’t me, Babe, e em pouco tempo ela estaria desenhando ilustrações para as capas, contracapas e páginas internas. Com a coprodução de Willy Mendes, conseguiu então lançar a primeira antologia de quadrinhos exclusivamente feminina.

Em 1971, Trina publicou sua primeira HQ sozinha, a Girl Fight, além de se juntar com outras duas artistas para produzir o livro All-Girl Thrills pela Print Mint. Em decorrência do sucesso da coletânea de It Ain’t me, Babe, a Last Gasp publicou mais duas edições com 10.000 cópias cada.

A visibilidade alcançada com a antologia fez com que uma de suas editoras, Pat Moodian, chamasse artistas que pudessem contribuir em outro projeto e em 1972, juntamente com Trina Robbins e outras nove mulheres, ela deu início à primeira série de publicações exclusivamente produzida por mulheres, a Wimmen’s Comix que circulou até 1992.

Na primeira edição de Wimmen’s Comix, Trina contribuiu com uma história chamada Sandy Comes Out (Sandy sai do armário), que se baseava na vida de uma amiga lésbica. No entanto, a artista também lésbica e ativista feminista Mary Wings se sentiu ofendida, acreditando que uma mulher heterossexual produzir uma história gay seria ultrajante. Por isso, em 1973, Mary produziu a primeira HQ sobre lesbianismo, a Come Out Comix. Trina conta que posteriormente elas acabaram se tornando amigas e rindo do episódio. De qualquer forma, por seu ativismo a favor do movimento LGBT, Trina foi convidada recentemente para a conferência Queer & Comics em Nova York, cujo objetivo é ampliar a visibilidade e discutir as obras produzidas por e para a comunidade LGBT.

No final dos anos 70, ser ativista dos direitos da comunidade gay e feminista começou a ser tornar mais complicado, pois o único lugar onde era possível encontrar quadrinhos “underground” era nas Head Shops, porém, com o enfraquecimento da cultura hippie, essas lojas foram se tornando mais escassas.

Na mesma época, as bancas de jornal dedicavam cada vez menos espaço para os quadrinhos, que passaram a ser vendidos quase que exclusivamente nas lojas especializadas, cujos donos eram homens sem nenhum interesse na produção feminina. Sem ter onde comprar quadrinhos, as mulheres também passaram a comprar menos e, consequentemente, a opção que restou para as artistas foi recorrer aos jornais alternativos que ainda publicavam suas tiras.

Foi nessa época que Trina sugeriu ao editor da Marvel, Jim Shooter, que publicasse Misty, sobrinha de Millie, The Model, como mencionado anteriormente, em uma tentativa de fazer com que o mercado voltasse a publicar quadrinhos para mulheres.

Alguns dos livros teóricos organizados por Trina Robbins

Trina chegou a desenhar a Mulher Maravilha e a roupa da Vampirella, mas não produz mais quadrinhos há cerca de 30 anos, tendo se dedicado em tempo integral às pesquisas de HQs que já lhe renderam mais de 10 livros sobre o assunto, sendo o mais recente deles o Pretty in Ink que narra a histórias das grandes mulheres cartunistas entre os anos de 1896 e 2013. Em 1994, Trina se juntou a outras desenhistas para incentivar mulheres a se envolverem no universo das HQs, tanto como leitoras quanto artistas e a organização sem fins lucrativos que ficou conhecida como Friends of Lulu, que existiu até 2011.

 


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Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.