Homens imprudentemente poéticos, de Valter Hugo Mãe

Homens imprudentemente poéticos, sétimo romance de Valter Hugo Mãe, é considerado uma imersão na cultura japonesa. O autor, nascido em Angola, mas radicado em Portugal desde a infância, foi definido por José Saramago como um “tsunami linguístico”. Assim como Saramago, Mãe tem um estilo próprio e muito original de escrita. Chegou a publicar quatro livros sem nenhuma letra maiúscula, a “tetralogia das minúsculas”, lançados entre 2004 e 2010. Na obra em questão ele utiliza apenas vírgula e ponto-final, abrindo mão de outros recursos da língua, como a interrogação e a exclamação. Entretanto, eles quase parecem estar ali, devido à grande capacidade do autor de transmitir profundidade através da simplicidade.

A história se passa numa aldeia ao sopé do Monte Fuji, próxima à região conhecida como Floresta dos Suicidas. Esta floresta realmente existe e foi visitada pelo autor durante a preparação do livro. A alta densidade de árvores e a quase ausência de animais confere ao local uma atmosfera diferenciada, inspirando lendas, histórias e filmes de terror. Segundo estatísticas, a Floresta figura na segunda posição mundial em número de suicídios por ano, ficando atrás apenas da Golden Gate, nos Estados Unidos.

Entretanto, Homens imprudentemente poéticos não pode ser considerado uma obra de suspense ou terror. Isso acontece porque Valter Hugo Mãe aborda a morte e o suicídio numa visão que se aproxima daquela empregada pelos japoneses. Segundo o autor, no Japão, “um suicida não é visto como um fraco ou desistente, é visto como alguém que entendeu sua existência e se sente preparado para se entregar à natureza”.

Assim como o suicídio, outras questões importantes são retratadas sob perspectivas bem diferentes daquelas a que estamos acostumados. O homem moderno busca rapidez, eficiência, qualidade, avanço, reconhecimento. Os personagens retratados, pelo contrário, buscam se integrar à natureza, se conectar com o tempo do mundo, com os desígnios do destino. Mesmo aqueles que desejam ir contra a natureza o fazem de maneira gentil, até mesmo (por que não?) poética.

A sensação que eu tive ao adentrar esse romance foi justamente esta: como se eu precisasse me desacelerar. Como se, aos poucos, eu conseguisse me despir das ansiedades, das preocupações, das vontades de mudar o que não pode ser mudado.

Não estou querendo dizer, com isso, que as pessoas retratadas ali são perfeitas ou que aceitam tudo o que lhes ocorre de maneira apática. Os principais personagens, por exemplo, nutrem uma forte antipatia um pelo outro. São eles o artesão Ícaro e o oleiro Saburo. Infelizmente, são vizinhos numa pequena aldeia. Precisarão conviver, inevitavelmente. E como o fazem? De maneira extremamente respeitosa, não apenas com a figura um do outro, mas de suas famílias, seus ofícios, suas escolhas. O outro é uma alteridade irredutível, mas isso não me autoriza a invadi-lo ou invalidá-lo.

Este é apenas um exemplo de reflexão, das muitas que podem ser extraídas dessa leitura. Com certeza se trata de uma obra muito rica, que tem muito a nos ensinar. Suas dedicatórias são para Yasujiro Ozu, diretor de cinema e roteirista japonês, e para Hayao Miyazaki, um dos mais famosos e respeitados criadores do cinema de animação japonesa. O prefácio é de Laurentino Gomes e deixa claro que “Homens imprudentemente poéticos é óbvio candidato a melhor romance em língua portuguesa de 2016”.

 

Ficha técnica

Livro: Homens imprudentemente poéticos

Autor: Valter Hugo Mãe

Editora: Biblioteca Azul (Globo Livros)

Ano: 2016

Páginas: 192

 

Este livro foi cedido pela editora para resenha.


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Bianca Ferreira

Psicóloga, mestranda em psicanálise e dona da Bianqueria.