Trainspotting2- Envelhecer é melancólico

Estreou em circuito nacional nesta quinta-feira Trainspotting2, (Trainspotting 2- UK – 2017) do diretor Danny Boyle, o mesmo que em 1996 dirigiu Trainspotting, baseado no livro homônimo do britânico Irvine Welsh, que também lançou em 2002 Porno, um romance que serviria como sequência, mas no qual Boyle não investiu. Essa agora, do cinema, atinge como um estilhaço de bomba no coração, a geração que também se identificou com o primeiro.

Me lembro de quando assisti Trainspotting. Eu tinha 20 anos na época, provavelmente a mesma faixa etária de Renton,- (Ewan McGregor) Sick Boy, (Johnny Lee Miller)  Spud, (Ewen Bremner) Tommy, (Kevin McKidd)  Begbie (Robert Carlyle)  e Diane, (Kelly McDonald) a trupe ensandecida, presa em uma velha capital da Europa (Edimburgo) que fazia de tudo para escapar de seu modo de vida provinciano e sufocante. Não era tão diferente de se viver na maior cidade da América Latina, sem dinheiro (era o auge do Plano Real e estava tudo ainda bem confuso) , perspectiva de futuro e confinada em seu modo de vida provinciano e sufocante. Todos fugíamos. Não sabíamos do quê, nem para onde. Apenas corríamos. Como Renton, ao som de Lust for Life, de Iggy Pop.

Eu me vi naqueles garotos. Me vi querendo fugir, escapar, me vi querendo sorver a vida até a última gota, me vi naqueles amores eternos que duravam alguns instantes e naquelas amizades instantâneas que duravam para sempre. Me vi nas cores e imagens hiperbólicas de Danny Boyle, na edição videoclíptica e frenética de Masahiro Hirakubo , no beat tribal de Lust For Life e na anestesia de Born Sleepy, do Underworld. Eram os anos de ouro do House, da Música Eletrônica, Techno e do MDMA, mais conhecido como Ecstasy. Serotonina, dopamina e noradrenalina no cérebro e o groove dos graves dos auto-falantes retumbando no peito.

Trainspotting virou um clássico. Cult. O retrato dos anos 90, assim como Easy Rider  foi o retrato dos 70 e Juventude Transviada dos 50… e agora eu estava ali, com 40 anos, assistindo a Trainspotting2. Seria ele o retrato dos 2020?

“Você é apenas um turista no seu próprio passado” –

Bem, como era de se esperar, essa continuação muda completamente o foco das drogas e loucura do primeiro filme  para trabalhar o envelhecimento da turminha do barulho: o que cada um fez de sua vida, ou com o que restou dela. Quem se lembra da história, sabe que no primeiro filme Renton (McGregor), fugiu da Escócia com 16 mil libras roubadas de seus melhores amigos.

Duas décadas mais tarde, podemos dizer que ESQUECER e PERDOAR são palavras muito fortes para definir o que Spud (Bremner), Simon (Miller) e Begbie (Carlyle) pensam, quando se lembram de Mark. Ainda mais quando descobrem que ele está de volta a Edimburgo.  Portanto, o retorno do amigo traidor é o ponto de partida para que uma sequência de cenas Dani-Boylescas envolvendo: pequenos golpes, vingança, sexo, (drogas, claro), o show mais divertido e maluco de karaokê que você vai ver na vida, violência e a procura de um sentido na vida, defina o filme.  

Mas, diferente do primeiro, Trainspotting2 é mais dolorido e até meio amargo. É pungente porque se trata de um bando de quarentões correndo atrás dos dias gloriosos da juventude e tentando, a todo e qualquer custo, reviver a sensação de se ter uma vida inteira pela frente, quando na verdade boa parte dela já ficou para trás. Olhar adiante e ver que você já não tem mais a gama de opções que tinha há 20 anos é um dos grandes tapas na cara de se envelhecer. É bem difícil. Para mim e para a turma de Trainspotting2.

A uma certa altura, Sick Boy (Lee-Miller) pergunta a Renton  a razão de ele ter voltado e solta uma frase que pode resumir bem o filme: – “Você é um turista em seu próprio passado” – É isso.  Ao mesmo tempo, tive uma epifania sobre o título. No primeiro filme, Trainspotting se refere aos “surfistas de trem” uma prática perigosa que era moda nos 90: a galera subia no teto dos trens urbanos em movimento e viajava, sob o risco constante de um acidente fatal, algo tão inconsequente e eletrizante quanto a própria  juventude. Neste filme, os trens  ganham uma outra conotação, simbolizam uma vida que passa, à revelia, independente de seus esforços, indicando que não temos sobre ela o mínimo controle. Somos apenas meros passageiros. Depende de nós, de nossas escolhas e relações, fazer dessa viagem minimamente agradável ou uma total perda de tempo.
A propósito: as atuações continuam Incríveis e MAGISTRAIS: McGregor, Bremnan, Johnny Lee-Miller e Robert Carlyle são o quarteto que leva o filme nas costas do começo ao fim, com direito a altas gargalhadas e momentos enternecedores. A fotografia mostra uma Edimburgo revitalizada, em contraponto ao abandono dos anos 90. A movimentação de câmera visceral e cores ácidas são as usuais características de Danny Boyle e isso é muito reconfortante, em todos os sentidos. E a trilha sonora continua maravilhosa. E tem Iggy Pop. E Underworld <3


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Gabriela Franco

Jornalista especializada em cultura pop, produtora, cineasta e mãe da Sophia e da Valentina Criadora do MinasNerds.