Um livro é uma arma carregada

Na sociedade retratada por Ray Bradbury em Fahrenheit 451, ter opiniões próprias e exercitar o pensamento crítico é crime. Como simbolismo máximo dessa política repressiva, os livros — que são basicamente veículos de opiniões e ferramentas para o pensamento crítico — são queimados em fogueiras e seus donos, caçados como terroristas ou malucos subversivos. Em um determinado momento da história, o chefe do corpo de “bombeiros” (os incendiários de livros) diz ao protagonista que “um livro é uma arma carregada”.

A verdade é que a comunicação, de maneira geral, é uma arma tão poderosa quanto uma metralhadora. Talvez mais, pois enquanto uma metralhadora pode eliminar não mais que um punhado de pessoas dentro do seu alcance, a comunicação tem a capacidade ilimitada de espalhar, expandir e multiplicar uma ideia. Tipo uma arma de criação em massa de detentores de uma mesma ideia.

Ainda parece exagero? Basta pensar que alguém como Trump só chegou ao poder de uma das maiores potências do mundo porque sabe se comunicar.

Comunicar-se bem a ponto de influenciar as decisões das pessoas não é uma coisa simples ou fácil. Os seres humanos são animais hierárquicos, como muitos outros mamíferos, mas — tal qual outras espécies animais — costumam ser bem pouco inclinados a obedecer às ordens (ou mesmo sugestões) se não enxergam o interlocutor como alguém superior ou suficientemente respeitável. Então, o tal interlocutor tem duas maneiras de fazer sua opinião ter algum valor: conquistar o respeito ou a liderança… e/ou mudar o modo do outro pensar através de mensagens subliminares.

O canal Nerdwriter publicou um ótimo vídeo sobre as estratégias de comunicação do tal presidente de pele alaranjada. Infelizmente o vídeo não tem legendas em português, mas, em suma, ele mostra como Trump constrói seus discursos e tweets com linguagem popular, usando palavras e expressões que servem como gatilhos emocionais para os expectadores médios: palavras negativas para notícias sobre seus adversários e suas gestões, palavras positivas para falar de seus próprios atos e decisões. Ou seja, opera através da criação de um subtexto, uma mensagem que fica nas entrelinhas.

Assim como qualquer arma, o subtexto pode ser usado como subterfúgio para ataques destrutivos e desleais ou como proteção, resistência. É, afinal de contas, uma das mais antigas ferramentas que a humanidade criou para tornar a vida melhor para todo mundo. Em uma das aulas do curso online “How Writers Write Fiction 2016: Storied Women”, também sem legenda em português, a escritora sul-africana Priya Dala comenta como a tradição de contação de histórias é usada nas culturas africanas e indiana como uma ferramenta para resolução de problemas das comunidades. Através de exemplos e metáforas, toda a comunidade entende quais comportamentos podem afetar ou contribuir com o bem-estar geral.

De fato, até hoje, a literatura usa do subtexto para passar mensagens e veicular ideias. A ficção especulativa, em especial, é conhecida por produzir obras que questionam o status quo da sociedade e propõem mudanças através de algum tipo de reflexão. O subtexto pode surgir de modo espontâneo ou natural, mas quase sempre está lá.

Obviamente, subtexto não significa manipulação e nenhum subtexto é infalível: as pessoas torcem para a Aliança Rebelde de Star Wars hoje e saem às ruas com camiseta da seleção para tirar selfie com os storm troopers PMs — e elas têm todo o direito de fazer isso.

Enfim, nenhum texto — ficcional ou não — é isento de opiniões. E não, ele não tem que ser. Consciente ou inconscientemente, registramos nossas convicções e valores ao criar personagens e enredos.

Como escritora, entendo que minhas ideias alcançam mais do que meu círculo próximo de amizades, o que é um misto de privilégio e responsabilidade.

Privilégio porque desejo um mundo mais diverso, inclusivo, igualitário e tolerante, e acho ótimo que, através das minhas obras, mais pessoas possam passar a pensar assim. Ler é um exercício de empatia, um convite a torcer por pessoas (ou alienígenas, ou hobbits, ou peixinhos com problemas de memória) que são, de alguma maneira, diferentes de você.

Então, por que não tentar colocar meus leitores na pele de menino de rua que, mesmo antes de virar um lobisomem, já tinha que conviver com a terrível maldição de se ver fazendo coisas contra sua própria vontade, movido por forças e sistemas muito maiores e mais poderosos do que ele?

Rowling poderia ter contado a história de um menino bruxo sem jamais tocar em assuntos mais profundos, mas usou seu poder de alcançar milhões de crianças ao redor do mundo para reforçar que não importa se o bruxo é puro-sangue, mestiço ou se foi expulso de Hogwarts e tem que usar um guarda-chuva cor-de-rosa para fazer magia — todos podem ser poderosos, amáveis e essenciais na batalha final contra o verdadeiro inimigo, o bruxo tirano e imoral.

E esse poder de espalhar nossa palavra é também uma responsabilidade porque o pensamento humano não é uma constante universal: uma ideia pode ser óbvia para mim e confusa ou ofensiva para o outro. Nem sempre o que colocamos no papel expressa nossa verdadeira intenção. Nossa sociedade passou muito tempo ignorando o incômodo “do outro”, mas felizmente hoje estamos aprendendo questões complexas como lugar de fala, protagonismo, reforço de estereótipos. Além disso, toda ideia — ou texto que a representa — é maleável, editável.

Infelizmente, qualquer conjunto de palavras, nas mãos erradas, pode ser usado para o mal. Sabem aquele lance (lenda ou mito, talvez) de que Santos Dumont tirou a própria vida quando constatou que o avião, sua bela e libertária criação, estava sendo usado para fins bélicos? Então.

Um livro, como uma ideia, é uma arma carregada. E nossa função como escritores é justamente saber para onde apontar as armas que nos cabem.

Janayna P. Bianchi é escritora, engenheira de processos industriais, colaboradora do Clube de Autores de Fantasia e do Pacotão Literário, criadora do universo da Galeria Creta, autora da novela Lobo de Rua e humana de estimação da Pipoca e da Paçoca. Já foi entrevistada pelas MinasNerds aqui.


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