Guanabara Real: A Alcova da Morte

Guanabara Real: A Alcova da Morte é um livro escrito por A.Z. Cordenonsi, Enéias Tavares e Nikelen Witter, publicado pela editora AVEC, que tive o privilégio de ler antes do lançamento. Vem sendo anunciado como a experiência folhetinesca do ano por se tratar de uma aventura ágil com um pouco de tudo: assassinato, mistério, ação, traição e até alguma dose de romance e erotismo. É também uma obra steampunk ambientada num Brasil pós-Proclamação da República, em que a fumaça e os vapores do progresso tecnológico sopram pelas ruas de uma civilização ainda carregada de elitismo, preconceito racial e marginalização.

O livro começa com um clássico das obras de mistério: o cadáver no primeiro capítulo. No Rio de Janeiro de 1892, na noite da inauguração de certo monumento no Corcovado, descobre-se um corpo numa câmara enigmática cujas paredes são pintadas com sangue, escavada dentro do morro. Logo a Agência de Detetives Guanabara Real se envolve no caso. O Barão do Desterro, responsável pelo monumento e por vários empreendimentos na cidade, parece totalmente disposto a ajudar nas investigações – talvez disposto demais?

Além da câmara sangrenta, o desaparecimento de vários jovens de origem humilde intriga os três membros da Guanabara Real. Eles se dividem em abordagens investigativas díspares. Os personagens não poderiam ser mais diferentes uns dos outros, e isso enriquece a trama com distintas experiências e pontos de vista, também um reflexo da escrita a seis mãos.

O engenheiro positivista Firmino Boaventura é o personagem de A. Z. Cordenonsi, um homem avesso ao misticismo e ao sentimentalismo. Negro, sofre os olhares contrariados de uma sociedade que não espera vê-lo senão no papel de subalterno, nunca como um homem da ciência e do progresso (lembrando que a Abolição da Escravatura só aconteceu em 1888). É o inventor e motorista do carro-caldeira, um veículo movido a vapor que causa espanto pelas ruas do Rio de Janeiro. Sua mão mecânica acaba também atraindo atenções indesejadas. Talvez por isso seja um homem fechado e às vezes carrancudo. Tenta descobrir cientificamente qual é o propósito daquela câmara e aonde ela pode levá-los. Vive para o trabalho, é o cérebro lógico da agência.

Remy Rudá, o personagem de Enéias Tavares, é descrito como um dândi místico. Índio retirado à força de sua tribo, veio à cidade grande, onde viveu mil aventuras, foi exposto a toda sorte de abusos, travou contato com as religiões de matriz africana na capital do império e aprendeu a se esbaldar nos prazeres da vida moderna. Parece gastar tudo o que ganha com livros, sexo, drogas, decoração e o que mais seu hedonismo pedir. Esse ocultista, sempre bem vestido, de cabelos longos e olhos pintados, parece considerar o choque da sociedade conservadora mais divertido que incômodo. Acredita que por trás dos crimes há uma seita macabra e uma entidade sobrenatural perigosíssima. Igualmente à vontade entre religiosos, prostitutos, estudiosos e marginais, é o coração intuitivo da agência.

Maria Tereza Floresta é a única no grupo que de fato se define como detetive particular. A personagem de Nikelen Witter é sobretudo uma mulher prática, que calcula rapidamente as consequências de suas atitudes e, como dizem, não dá ponto sem nó. Sua presença impõe respeito, pois não se deixa abalar por autoridades ou figurões da elite, já que está sempre um passo à frente deles nos rumos das conversas. Não há no livro informação sobre sua etnia, origem e cor de pele, mas sabe-se que ela tem um passado sofrido, incluindo uma temporada de vida na rua. Para alcançar seus objetivos, cria alianças úteis em toda parte, mesmo que conflitantes, como seus parceiros na Guanabara Real. Firmino e Remy, os opostos que não se atraem, estão sempre a um passo de uma briga, mas Maria Tereza faz com que as atenções se concentrem no que importa. Ela está disposta a explorar todas as possibilidades na investigação. Não por acaso, é a chefe do trio. Agradável sem perder a firmeza, é a mente equilibrada da agência.

A narrativa é ágil, sem sobras nem momentos arrastados, e a aventura não deixa de lado a crítica social. Esta aparece não só no modo preconceituoso como os personagens secundários às vezes encaram os protagonistas, mas também na forma de recortes de jornal com posturas opostas que refletem as desigualdades sociais. Enquanto a Tribuna Popular se ocupa em denunciar abusos e criticar as autoridades, A República trata de elogiar o status quo.

A linguagem é trabalhada para refletir a época em que se passa a história, sem que isso a torne inacessível ao leitor contemporâneo médio. Os capítulos se alternam entre os pontos de vista dos três personagens centrais, e, como estes, ficamos divididos entre as linhas investigativas. Estamos diante de uma conspiração para abafar escândalos e obter ganho material? Trata-se de uma seita que faz sacrifícios a uma divindade maléfica? Ou nada disso? A conclusão da história deixa um gancho para continuações.

Da esquerda para a direita: Cordenonsi, Witter e Tavares vestidos a caráter.

Guanabara Real faz referências a obras clássicas de mistério, ficção científica e terror, resvalando em Mary Shelley e H. P. Lovecraft. O sobrenome de Maria Teresa parece ser uma homenagem a Nísia Floresta, escritora pioneira do feminismo no Brasil, autora de Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens, inspirado em Vindications of the Rights of Woman, da filósofa Mary Wollstonecraft, mãe de Mary Shelley.

Visualmente, o livro é muito bonito, com as cartas e recortes de jornal diagramados de acordo com a origem, além da belíssima ilustração de capa de Poliane Gicele, jovem ilustradora de Pernambuco que promete surpreender. Para uma segunda edição, eu recomendaria ilustrações de miolo e uma nova revisão de provas.

Também recomendo atenção à carreira dos três autores que assinam o livro e trabalham quase sempre com o steampunk. Todos são professores e pesquisadores acadêmicos gaúchos. Andre Zanki Cordenonsi é roteirista e associado ao grupo EPIC, autor do romance Le Chevalier e a Exposição Universal, além de vários contos e uma HQ no mesmo universo. Enéias Tavares, também associado ao EPIC, é autor do romance A Lição de Anatomia do Temível Doutor Louison, da série Brasiliana Steampunk, já resenhado aqui no MinasNerds, e de contos do mesmo universo. Nikelen Witter foi coorganizadora da Odisseia de Literatura Fantástica, é autora do romance Territórios Invisíveis, diversos contos e um excelente romance inédito que tive a oportunidade de ler em versão preliminar.

Fique de olho nesse grupo e na Editora AVEC, cujo editor, Artur Vecchi, vem apostando em autoras e autores nacionais do nicho, além de quadrinhos alternativos, brasileiros e estrangeiros.

E aproveite: o livro está em pré-venda até dia 31 com um pôster especial, aqui. E aqui você pode ler de graça o primeiro capítulo.

Esta semana começa a turnê de divulgação do livro. Confira abaixo as datas em que ela passará pela cidade mais perto de você. É mais uma chance de comprar o livro e conhecer os autores.

 

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Dados técnicos

Título: Guanabara Real, A Alcova da Morte

Autores:  A.Z. Cordenonsi, Enéias Tavares e Nikelen Witter

Editora: AVEC

Número de páginas: 238

Este livro foi cedido pela editora para resenha.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Camila Fernandes

Escritora, tradutora, preparadora e revisora de textos. Feminista, vegetariana, ateia. Autora do livro “Reino das Névoas, contos de fadas para adultos”. Tentando escrever dois romances. Quando há tempo, desenho. Quando há dinheiro, viajo.