Conheça o mangá que originou o filme Ghost in the Shell

The Ghost in the Shell é uma das franquias de maior sucesso entre os mangás e animes dos últimos trinta anos, sendo também de enorme influência na cultura pop em geral. É normalmente citado como uma das maiores influências para o filme Matrix, das irmãs Watchowski, e pode ser considerado, junto com Neon Genesis: Evangelion e Akira, um dos pilares da popularização dos mangás e animes  no ocidente no começo dos anos 1990.

A obra máxima de Masamune Shirow já foi adaptada em alguns filmes animados, uma série para a TV e jogo para Playstation, mas em 2017 volta a ter destaque devido à versão live action para o cinema americano com Scarlett Johansson e Takeshi Kitano no elenco.

A Obra


The Ghost in the Shell conta uma série de histórias sobre os agentes da Seção 9, um grupo anti-terrorista que não responde diretamente a nenhum òrgão governamental e cuja função é identificar e eliminar ameaças que envolvem terrorismo cibernético.
Os membros que compõem o esquadrão liderado pelo chefe Aramaki são os ciborgues Motoko Kusanagi e Batou, o ex-policial Togusa que não possui nenhuma modificação corporal, o sniper Saito, o especialista em infiltrações da rede Ichikawa, além de dois outros personagens de menor destaque Paz e Borma.



Apesar de todas as obras serem adaptações do mangá, os produtos da franquia podem ser vistos como obras separadas e individuais, pois embora compartilhem de diversos aspectos, cada um deles possui particularidades que permitem ao público conhecer uma sem necessariamente ter conhecimento dos outros.

As histórias tanto do mangá quanto da série animada para a TV possuem foco nos personagens da Seção 9, que bem no estilo de seriado policial, são deslocados a cada episódio/capítulo para investigar e neutralizar ameaças terroristas cibernéticas.  Entretanto, podemos dizer que o plot das histórias e o desenvolvimento dos personagens nunca foram o foco de Shirow tanto quanto desenvolver conceitos e apresentar a construção do seu universo que é o grande destaque da obra.

O conceito de High-Tech/Low-Life ganhou espaço na ficção científica do final dos anos 1980 e atravessou a década de 1990 com várias obras que especularam o impacto dessa alta tecnologia nas vidas humanas, assim como o que significa ser humano em meio a tantos recursos tecnológicos de aprimoramento físico, o que originou o subgênero Cyberpunk, do qual podemos destacar o livro Neuromancer, de William Gibson.

The Ghost in the Shell surge nesse momento e Masamune Shirow provou ser um verdadeiro mestre do worldbuilding nos apresentando uma das melhores versões desse futuro ultra tecnológico onde a humanidade fica sempre em segundo plano. Enquanto muitas obras de ficção científica fazem concessões e sacrifícios de termos e conceitos científicos e tecnológicos em favor do desenvolvimento da história, Shirow prefere passar páginas preenchendo muitos rodapés com notas onde explica detalhadamente o funcionamento de alguma tecnologia, ou faz comentários políticos e sociais sobre as ideias apresentadas no mangá e muitas vezes corrigindo a si mesmo, explicando como tal situação seria absurda no mundo real. Podemos notar que o interesse de Shirow em procedimentos dos corpos policiais, psicologia e estratégia militar ultrapassa os níveis do amadorismo e justamente por causa desse detalhamento na construção do universo, The Ghost in the Shell continua sendo uma leitura relevante, mesmo três décadas depois do seu lançamento. Isso não significa que as histórias sejam desprovidas de conteúdo ou de profundidade, pois Shirow consegue apresentar ideias complexas em diálogos simples e histórias rápidas que posteriormente foram extrapoladas e aprofundadas no anime e no longa metragem de 1995.


Bem no começo, o foco do mangá é explicar o processo que transforma um humano em um ciborgue, explicando as funções do cérebro cibernético que permite, além da comunicação quase sem limites entre humanos e máquinas e posteriormente apresenta conceitos psicológicos e filosóficos sobre como nossos pensamentos e memória poderiam ser afetados por esse nível de simbiose humano-tecnologia. Posteriormente o foco muda para a  interação desses seres cibernéticos com a rede de computadores.

A arte do mangá possui grande impacto,  não necessariamente pelo traço do autor, mas sim pela caracterização de seus personagens e a interação com os planos de fundo detalhados do Japão cyberpunk de 2029, que criaram uma estética única para The Ghost in the Shell. Além das páginas coloridas que enfeitam cada um dos capítulos, podemos acompanhar a evolução da técnica de storytelling do autor durante o desenvolvimento do mangá, principalmente no que diz respeito à estruturação dos painéis e composição das páginas.

  

Embora o mangá fosse bastante popular no Japão desde o seu lançamento, foi apenas em 1995 que The Ghost in the Shell ganhou o resto do mundo com a adaptação para o filme feita por Momoru Oshii e se tornou um verdadeiro fenômeno. Sendo uma adaptação de algumas das histórias apresentadas no mangá e reformuladas para caber no tempo de duração do filme, podemos sentir a enorme diferença de tom entre as duas obras sendo a principal delas a mudança na personalidade dos personagens. No mangá temos uma visão da Major Motoko como uma mulher de temperamento forte, mas que gosta de se divertir com os companheiros de equipe e com suas namoradas. Os membros da Seção 9 estão sempre discutindo entre si e agindo de forma preguiçosa e irresponsável, o que não se repete no filme, onde vemos uma Motoko muito mais séria e centrada em seu trabalho, além do tom reflexivo e da estética realista  que substituiu o traço mais caricato do mangá. Outra grande diferença está na mudança de foco do jargão tecnológico para os conceitos existenciais e psicológicos da relação humano-máquina já mencionados.

Ghost in the Shell: Stand Alone Complex

Após o fim do mangá em 1997, os fãs da franquia precisaram esperar até 2002 para matar a saudade quando  a série animada foi lançada.

Ghost in the Shell: Stand Alone Complex possui originalmente 26 episódios divididos em duas temporadas e apresenta tanto histórias originais quanto adaptações do mangá. A série consegue apresentar um agradável meio termo entre o mangá e o filme já que podemos ver os membros da Seção 9 como profissionais mais sérios e competentes, mas ao mesmo tempo somos presenteados com momentos leves de interação entre os personagens que mostram mais de sua humanidade do que é permitido no filme, com destaque para os momentos de interação com os blindados Tachikomas que são tanques com inteligência artificial extremamente adoráveis e que servem como gancho para alguns dos momentos mais reflexivos sobre o conceito da alma (ghost) dos seres cibernéticos.

A série foi escrita e dirigida por Kenji Kamiyama e é um ótimo ponto de entrada para quem quer conhecer a franquia, pois não possui a quantidade absurda de informações do mangá, mas também não é tão densa e violenta quanto o filme, embora possa exigir certa sensibilidade filosófica de seus telespectadores. O tema central dessa série, como o título pode sugerir, é  a interação de eventos menores e aparentemente sem relação que acabam se afetando em uma corrente que vai se transformando em algo maior.
Ainda temos a série Tachikoma Days, que apresentam esquetes de comédia com duração de 1 minuto cada estrelando os Tachikomas fazendo o que fazem de melhor que é ser fofos.

Infelizmente a produção de uma terceira temporada do Stand Alone Complex foi vetada devido ao alto custo para o seu desenvolvimento. Mesmo sendo um enorme sucesso no mundo todo, a série foi um dos animes mais caros já produzidos custando cerca de trezentos mil dólares por episódio.


O Stand Alone Complex ainda conta com outros dois filmes:  Ghost in the ShellSolid State Society lançado em 2006 também traz uma mistura de diversas histórias do mangá e uma nova visão do Mestre dos Fantoches. Cronologicamente se passa após a segunda temporada da série animada.

Por fim,  Ghost in the Shell 2: Innocence. Assim como o Solid State Society também combina algumas histórias do mangá, mas as conduz com o mesmo tom pesado do filme original. A técnica de animação utilizada nesse filme é um destaque a parte, já que se utiliza tanto da animação 2D quanto 3D para suas sequências de ação. Entretanto, boa parte do filme é devotada a conceitos filosóficos, o que exige do espectador um conhecimento mais aprofundado da franquia.

 

 

Live Action e Polêmica



Em 2015 foi anunciada a produção de um filme americano baseado em The Ghost in the Shell dirigido por Rupert Sanders e foi envolvido em uma polêmica quando anunciaram que Scarlett Johansson interpretaria a Major Motoko Kusanagi. O filme recebeu uma série de críticas devido ao whitewashing envolvido na produção. Como já foi explicado nesse artigo aqui no site, o termo é usado para definir a alteração da etnia de personagens originalmente não-brancos para que um ator ou atriz caucasiano possa interpretá-lo em uma obra de maior destaque, resultando em baixa representatividade de outras etnias nas produções hollywoodianas.

O filme, que recebeu o nome de A Vigilante do Amanhã no Brasil,  chega às salas de cinema no dia 29 de Março de 2017.

 


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