Crítica – Ghost in The Shell – A Vigilante do Amanhã

Estreia hoje, em circuito nacional, a adaptação live action para cinema do mundialmente famoso mangá/anime Ghost in The Shell  (entitulado em português como A Vigilante do Amanhã), dirigido por Rupert Sanders, (Branca de Neve e o Caçador)

O plot segue fielmente o do mangá, (se você não conhece, pode ler sobre, aqui) – obra máxima de Masamune Shirow ,que já foi infinitamente adaptada: já virou  dois filmes animados, uma série para a TV e jogo para Playstation, e que agora ganha novamente  destaque por conta da adaptação  inédita para o cinema  americano contando com Scarlett Johansson como protagonista e o astro japonês,Takeshi Kitano (Hana Bi, Johnny Mnemonic)  em um dos papéis principais.

Em um futuro distópico não muito distante, a oficial Major Motoko Kusanagi (Johansson)  é a líder e policial mais habilidosa do Setor 9, um esquadrão antiterrorista  que foi treinado para identificar e combater casos de terrorismo-cibernético, cyber-crimes, entre outras complicações causadas por humanos modificados (ciborgues) e robôs. Eles são chefiados pelo policial veterano Aramaki (Kitano) e junto da Major estão os soldados Batou (Pilou Asbaek) Togusa (Chin Han), que se orgulha de ser um humano sem nenhum tipo de modificação, o sniper Saito (Yutaka Yuzumihara) além de Ladrya (Danusia Samal) e Borma (Tawanda Manyo).

O Setor 9 identifica um hacker poderosíssimo que parece ter como missão pessoal destruir a principal empresa fornecedora de ciborgues, implantes e modificações para humanos, e quanto mais a Major se dedica a encontrá-lo,mais acaba descobrindo sobre si mesma.

Ghost in The Shell é considerado uma das obras fundamentais da cultura cyberpunk. O cyberpunk se caracteriza como um subgênero da ficção científica que explora o uso da alta tecnologia em detrimento à qualidade de vida, acompanhadas de certo grau de desintegração ou mudança radical na ordem social. As irmãs Warshowsky beberam diretamente de obras cyberpunk como Neuromancer, Ghost in The Shell, Eu, Robô, entre outras, para construir a teia de referências de Matrix, a obra máxima do cyberpunk que está mais fresca na cabeça desta.geração (nunca será maior que Blade Runner, no entanto).

E cyberpunk é isso: aborda e questiona o futuro da humanidade, frente ao avanço e domínio da tecnologia em nossas vidas. O futuro cyperpunk é  distópico, lúgubre, desesperançoso, é um lugar onde máquinas e homens lutam pelo mesmo espaço, pela própria existência. Está tudo ali, todas as características cyberpunk estão na adaptação cinematográfica de GitS: os cenários degradantes, tudo muito escuro, muita sujeira, muita gente, e os questionamentos incessantes: Quem sou eu? Homem ou máquina? Quem é melhor? Homem ou máquina? Quem vai sobreviver e dominar no final? Homem ou máquina?

O filme todo pode ser definido como um grande híbrido entre o modo oriental e ocidental de se contar uma história. É lento, poético e reflexivo, como as obras orientais, em certos pontos, e é explosivo, cheio de ação e incrivelmente dinâmico, como um bom blockbuster ocidental, em outras. E mais do que isso, essa dinâmica é certeira. Os  cenários são incríveis, as cores ,efeitos e CGIs são magníficos e, eu que não sou muito fã do recurso, digo: esse é um filme onde o 3D se faz imprescindível, assim como foi em Doutor Estranho, por exemplo.

Se você quiser ter uma experiência sensorial completa, assista GitS em 3D. No mais, fora algumas adaptações bem pequenas que em nada afetam o storytelling (apesar de terem cortado FRIAMENTE a cena e que Major procura uma garota de programa humana, um aspecto riquíssimo e interessante da história e que levanta questionamentos sobre sexo versus violência, por que um é permitido e outro, não)  é praticamente o mangá transposto para a tela. Em todos os sentidos, inclusive com algumas cenas e enquadramentos idênticos aos quadrinhos, puro fanservice.

Todos os atores foram muito bem escalados e há uma bela diversidade étnica no elenco, mostrando que, no futuro, uma vez que a luta do homem passa a ser contra a máquina, preconceito e racismo estão completamente fora de cogitação. A similaridades dos atores com os personagens do mangá original foram mantidas e são incríveis: Batou e Aramaki são os melhores exemplos disso. Mas precisamos falar sobre a escolha de Scarlett Johansson para viver a protagonista, Major.

Desde que o filme foi anunciado e juntamente com ele, o elenco, o mundo praticamente se dividiu entre os que gostaram da escolha de Scarlett para viver o papel de Major e os que achavam que a protagonista precisava ser ASIÁTICA. Isso, não tanto por conta do roteiro do mangá, já que nele, sua etnia pouco importa, mas em respeito à origem do autor da história, do local onde a narrativa se desenvolveu  e de toda herança cultural que ele depositou nela.

No entanto, é muito difícil assistir ao filme e negar que Johansson teve uma ótima performance e encarnou o papel com maestria. Scarlet é uma boa atriz e apaixonada por tecnologia e cultura pop. Está ótima como uma Major que oscila entre a indiferença e o arrebatamento constantes, ela tem o tipo físico da personagem, as cenas de luta estão impecáveis e seu olhar, pele, gestos e trejeitos robóticos não passam despercebidos.

O diretor Rupert Sanders foi muito sutil e inteligente na tentativa de justificar a escolha de uma atriz ocidental para interpretar a grande heroína, durante a história, mas mesmo assim, ainda tenho comigo que se a etnia pouco importava na construção do personagem, então poderiam sim, ter escalado uma asiática. Apesar de todo talento de Scarlett, sabemos que ela tem um GRANDE apelo com o público em geral e isso garantiria uma ótima bilheteria, principalmente para o público ocidental, não familiarizado com a obra original.

No final das contas, o live action de Ghost in The Shell é uma obra-prima nipônica explicada de um modo que um ocidental possa entender. Não vejo isso necessariamente como um ponto negativo, mas sou ocidental. Fico  pensando no quanto de orgulho pela cultura japonesa que aquela obra carrega, se foi, enquanto subiam os créditos. No mais, é um bom filme.


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Gabriela Franco

Jornalista especializada em cultura pop, produtora, cineasta e mãe da Sophia e da Valentina

Criadora do MinasNerds.