A Bela e a Fera – a moral dos contos de fada

Tendo arrecadado quase 700 milhões de dólares nos primeiros 10 dias de sua exibição, A Bela e a Fera é um dos contos de fadas mais populares do mundo de acordo com especialista de Harvard, Maria Tatar. Tatar afirma a que muito se perde ao atribuir à Disney a origem de histórias seculares, já que com a adaptação para diversas mídias, a mensagem principal de uma fábula tende a desaparecer.

A utilização de animais em histórias com fundo moral, ou seja, as fábulas, eram transmitidas oralmente desde que o homem começou a se comunicar. Exemplos como a Lebre e a Tartaruga, A Raposa e as uvas, datam de séculos antes de Cristo e nunca deixaram de ser atuais, pois as fábulas tratam, acima de tudo, de nossos conflitos.

No entanto, a pesquisadora de literatura clássica Maria Tatar, destaca que A Bela e a Fera integra uma coleção de histórias sobre relacionamentos entre pessoas e animais que eram bem populares na idade média, antes mesmo dos irmãos Grimm se tornarem a principal referência do gênero. Antes ainda, a lenda de Cupido e Psiquê, teria inspirado esse tipo de narrativa.

O senso comum nos diz que Bela e a Fera é sobre não se ater apenas às aparências, afinal, o que importa é a beleza interior, no entanto, quem estuda literatura clássica, sabe que a moral dos contos medievais nada tem de romântica. Uma busca rápida em sites especializados mostrará que grande parte delas têm origens extremamente sombrias: É sabido que ao longo dos séculos as histórias infantis sempre tiveram a intenção de transmitir valores de cada época e com o passar dos anos, é natural que as histórias se adaptem, no entanto, os valores estão lá. Quem acredita que as histórias de hoje deturpam os bons e tradicionais valores morais, ficaria chocado ao saber que as versões mais antigas das histórias que conhecemos eram na verdade, muito mais sombrias e serviam de pano de fundo para encobrir temas tabus, como estupro, incesto, assassinatos e traziam normas de condutas para que problemas como os citados fossem evitados.

O primeiro registro que se tem de A Bela e a Fera é de 1740, quando Gabrielle- Suzanne Barbot a publicou em uma coletânea ricamente ilustrada chamada The Young American Girl and the Sea Tales (Garotas americanas e os contos do mar). De acordo com o psicanalista, e também especialista em contos de fadas, Bruno Bettelheim, a síndrome de Estocolmo é na verdade um problema sutil frente ao que realmente se objetivava com essa narrativa: acalmar as moças virgens diante da ideia do sexo no casamento, ainda mais quando estas eram obrigadas a se casar com aristocratas muito mais velhos que elas.

A versão mais conhecida do conto foi levada ao conhecimento do público americano e inglês através da versão de Jeanne-Marie Leprince de Beaumont, uma francesa que trabalhava como governanta na Inglaterra.  Ela escrevia as histórias para as meninas inglesas que aprendiam francês, no intuito de ensiná-las sobre a moral de algumas fábulas. Em sua versão, a Fera pedia que Bela se deitasse com ele inúmeras vezes e a menina tinha sonhos eróticos com um príncipe encantado, porém, toda vez que se sentia impelida a fugir e ser livre, percebia que precisava retornar à “sua pobre fera”, afinal, estaria sendo uma pessoa horrível se deixasse alguém que fez tanto por ela, alguém que, apesar de muito feio, era gentil.

Tatar afirma A Bela e a Fera não é simplesmente uma história de cortejo e casamento e sobre o poder transformador do amor, mas também sobre nossa relação com a alteridade e monstruosidade. Uma narrativa sobre animais e feras, natureza e cultura, nós e os outros, crueldade e compaixão.

Na versão de Perrault do conto da Chapeuzinho Vermelho, o lobo mau engole a vovó e em seguida o conto é encerrado com o lobo devorando a Chapeuzinho, sem caçador, sem final feliz e com uma rima de moral onde fica implícito que o lobo da história é uma metáfora para qualquer jovem sedutor que se encontra à espreita, à espera de moças ingênuas que se arriscam sozinhas pelas ruas.

“É comum que os livros escritos com o intuito de serem comprados para crianças estejam repleto de “morais”, como se a função da literatura fosse essencialmente pedagógica. O fato é que necessariamente não é a ‘moral da história’ o aspecto do texto que irá chamar a atenção do jovem leitor, já que outros aspectos (algo divertido ou assustador, por exemplo) da narrativa poderão se sobrepor a esse.” (Reflexões sobre Literatura e infância em Desventuras em Série – Leonardo Silva)

Valores morais podem ser apresentados em contos de fadas e estes podem ter como propósito a boa formação de nossos jovens, só que uma personalidade depende de muitos outros fatores para se formar. Contos de fadas também podem servir de críticas às instituições e à sociedade, mesmo assim, uma rebelião é formada por muitos outros componentes além de palavras em um livro, ou seja, se os livros citados são realmente contos de fadas ou simples artifícios de rebelião contra às instituições, o fato é que sua contribuição para a formação da personalidade de jovens é indiscutível, ainda mais se considerarmos um país como o Brasil, onde a maior formadora de opinião ainda é a novela.

Portanto, independentemente do que se propõe uma narrativa, não faltam estudos indicando que histórias ficcionais, sejam elas fábulas, distopias, romances, impactam nosso sistema cognitivo de forma mais significativa que livros teóricos, pois é por meio da ficção que realizamos conexões que nos ajudam a lidar com problemas e conflitos reais. Fábulas tratam, acima de tudo sobre nós e nossa relação com o mundo, por isso, consumir uma ampla variedade delas só nos favorece enquanto indivíduos.

Assim, ainda que muitas dessas histórias tenham em seu cerne uma mensagem moral que não se adeque mais aos valores culturais e sociais vigentes, é possível que por meio de sua análise e crítica possamos refletir justamente sobre o tipo de ser humano que não queremos nos tornar. Histórias podem sim influenciar pessoas, seja de forma positiva ou negativa, mas essa decisão não cabe a um filme ou a um livro não é mesmo? O que fazemos com as informações que recebemos é de nossa responsabilidade, por isso, construir um repertório diversificado é tão importante para que possamos refletir de forma crítica sobre o que nos é apresentado.

Moral de Perault em Chapeuzinho Vermelho:

Little girls, this seems to say,               Garotinhas, prestem atenção

Never stop upon your way.                  Nunca parem quando estiverem em uma direção

Never trust a stranger-friend;              Não confiem em um suposto amigo

No one knows how it will end.            Pois ninguém desconfia do perigo

As you’re pretty, so be wise;                Sejam tão espertas quanto são belas em sua essência

Wolves may lurk in every guise.         Lobos sabem disfarçar sua aparência

Handsome they may be, and kind,    Lindos, gentis

Gay, or charming never mind!             e charmosos eles são, estejam avisadas

Now, as then, ‘tis simple truth—          Que a verdade é simples:

Sweetest tongue has sharpest tooth! Linguas doces são as que têm as presas mais afiadas.

 

Para saber mais (Referências) :

A Psicanálise dos Contos de Fadas, Bruno Bettelheim, ed. Paz e Terra,  1978

http://pictorial.jezebel.com/beauty-and-the-beast-comes-from-a-long-line-of-stories-1793675825

https://www.psychologytoday.com/blog/the-athletes-way/201401/reading-fiction-improves-brain-connectivity-and-function

http://www.maltatoday.com.mt/comment/letters/73491/the_importance_of_reading_fiction#.WNvGWTvyvIU

http://brasilescola.uol.com.br/mitologia/cupido-psique.htm

http://wstale.com/tv-movies/beauty-beast-undefeated-power-rangers-box-office/


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.