Aracy de Almeida: não tem tradução

A maioria das pessoas de minha geração se lembra de Aracy de Almeida sendo jurada do finado e engraçadíssimo Programa de Calouros do SBT (na época, Canal 4) que ia ao ar aos domingos, um pouco antes do Fantástico, como alternativa de diversão para o restinho do final de semana da sofrida família brasileira.

Aracy era mal-humorada, sarcástica, engraçada e quando questionada pelo apresentador sobre quanto valia o show do calouro que havia acabado de se apresentar, soltava a indefectível frase que acabou virando sua marca registrada: -” VOU PAGÁR DÉIX PAU”

O que grande parte do público não sabe é que Araci Telles de Almeida (mais tarde, adotou Aracy porque, com Y, “fica mais descolado”) fez parte da história da música brasileira e deixou um legado incrível que a colocam entre as damas da MPB.

Foi Aracy que, nos anos 40 e 50 foi a principal intérprete de Noel Rosa na Rádio Tupi, levando a herança do sambista para o grande público. por exemplo.

Mas como todas nós, Aracy não era uma só: era uma mulher multi-facetada e cheia de talentos e é isso que o livro Aracy de Almeida: Não tem tradução (o título faz menção a uma de suas canções mais famosas), do jornalista Eduardo Logullo e publicado pela editora Veneta, revela, entre outras coisas.

O livro é extremamente leve e gostoso de ler, não se trata de uma biografia minuciosa, tampouco de uma análise acadêmica de sua obra, ele constrói, através de aforismos, frases, piadas, causos e letras de músicas, a figura da sambista e seu impacto para sua época,

“Como resumir a cantora libertária do ditongo entupido, do nasal magnífico que até Mario de Andrade citou em palestra?”

“Aracy de Almeida sublimou/elevou a partícula ‘ão’ e as emissões vocálicas. E continuou afinada-fanhosa-assumida-desafiadora pelo resto da vida. O elo perdido da elegância da periferia. O norte da zona soul carioca. Ela poderia ter dito: eu ‘soul’ o samba.”- descreve o jornalista, na introdução do livro.

Natural do subúrbio carioca, mais precisamente do bairro do Encantado, era filha de uma dona de casa e de um chefe de trens da Central do Brasil. O que posteriormente vêm a explicar as alcunhas de Dama da Central e Dama do Encantado que ela carregou durante a carreira.

As frases selecionadas pelo autor nos revelam uma mulher à frente de seu tempo, moderna, independente, lutadora e orgulhosa de suas raízes.

Aracy era plural, se interessava por tudo e por todos, sua casa efervescia de cultura e fruição estética tanto que logo foi alçada à refúgio da brasilidade e da MPB nos tempos da ditadura, por conta de sua decoração: Nas paredes, quadros de Aldemir Martins e Di Cavalcanti que, aliás, feza capa de um de seus LPs. e ainda: Antonio Bandeira, Heitor dos Prazeres, Clovis Graciliano, Djanira e Luiz Canabrava.

Amava bichos , principalmente os cães, os criava livres, adorava ópera (“adoro aquela gritaria”). E tal qual aquela sua vizinha sábia que te receita chás para o estômago e te dá rezas e passes quando as coisas vão mal, citava trechos bíblicos e versos simbolistas.

Gostava de beber, falar palavrão, era autêntica, guardiã de pérolas do cancioneiro nacional, transitava tanto entre a alta sociedade da televisão e dos programas de rádio e festivais quanto pelas quebradas do Encantado.

Traballhou em vários programas de TV: Programa do Bolinha; na TV Tupi, com Mário Montalvão; na TV Globo, com a Buzina do Chacrinha; no Programa Silvio Santos; programas na TVE; Programa da Pepita Rodrigues, na TV Manchete; Programa do Perlingeiro, na TV Excelsior; no Almoço com as Estrelas, com Aérton Perlingeiro, entre outros.

Segundo levantamento feito por jornalistas, Aracy deixou uma discografia que conta com 390 registros em 78 rpm, 45 rpm e 33 rpm, entre composições inéditas e regravações.

Faleceu no dia 20 de junho, aos 73 anos, vítima de edema pulmonar, depois de dois meses em coma. Aracy bebia e fumava muito, e nunca se negou a esses pequenos prazeres.

Vale muito a pena conhecer a vida dessa grande mulher que, com certeza, vale MUITO MAIS do que apenas DEZ PAUS.

Aracy de Almeida: Não tem Tradução.

Autor: Eduardo Logullo
Editora: Veneta (216 págs., R$ 34,90)

 


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Gabriela Franco

Jornalista especializada em cultura pop, produtora, cineasta e mãe da Sophia e da Valentina

Criadora do MinasNerds.