O Combate ao Antissemitismo de A Negação

Em tempos de pós-verdade e os fatos alternativos de Trump, é bom ver um filme que reafirma verdades históricas. A Negação (Denial), lançado em 2016 e dirigido por Mick Jackson, é um filme sobre fascismo, liberdade de expressão e direitos de minorias.

Baseado em fatos reais0000, o enredo acompanha a historiadora judia Deborah Lipstadt (Rachel Welsh) em uma batalha judicial contra David Irving (Tom Wilkinson), um pesquisador independente e negador do holocausto. Irving processa Lipstadt por difamação e calúnia e ela precisa provar, na corte, que o holocausto realmente ocorreu e, portanto, ele está de fato mentindo. Ela conta com o apoio de um grupo de advogados e pesquisadores competentes, apesar de frequentemente bater de frente com seus métodos, como boa judia cabeça dura.

O filme não é maravilhosamente executado, a técnica é passável e a trilha sonora é previsível, não há nada cinematograficamente extraordinário. Mas o roteiro é bom. Deborah é a ativista típica – mulher, judia, com nome de líder – e Irving é o fascista típico – asqueroso e fascinante, impossível de ignorar, como Bolsonaro, Trump e o próprio Hitler. O filme aponta os diferentes interesses em jogo: os judeus britânicos, que acham Irving uma piada que deve ser ignorada; os sobreviventes do Holocausto, que querem usar a disputa jurídica para falar de suas próprias vivências, e os neo-nazistas, que apoiam Irving e prometem continuar seu legado. Assim, A Negação mostra todos os personagens de qualquer luta social.

O tema central do filme é muito caro para mim, pessoalmente. Me identifiquei muito com a Deborah, já que também sou uma mulher judia e temos até o mesmo nome. Devorah, ela explica no início do filme, quer dizer líder de seu povo. Ela não para por nada, ela precisa lutar, mesmo que isso signifique se calar e confiar nas pessoas que prometeram ajudá-la, o que é um imenso sacrifício para ela.

A Negação se passa entre 1995 e 2000. De 15 anos para cá algumas coisas mudaram. Há cada vez mais intolerância e os preconceitos voltaram a dar as caras. Faz tempo que eu não consigo ter uma conversa sem ouvir piadas ou comentários antissemitas, mesmo de gente legal, engajada em lutas sociais pelas liberdades pessoais. Já ouvi de amigos próximos que o Holocausto não foi apenas contra os judeus e que deveríamos parar de nos vitimizar. Embora seja verdade que o nazismo também eliminou negros, homossexuais, ciganos e comunistas, isso não apaga que o antissemitismo não começou nem terminou na Segunda Guerra.

Apesar de estar restrito a salas de cinema alternativos, espero que esse filme saia do circuito judaico de cinema e atinja um público maior. Apesar de o “vilão” ser bastante extremo e caricato, é legal entender que sua liberdade de expressão termina quando atinge o outro. É um filme realmente muito importante.


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Deborah Happ

Formada em Midialogia, pela Unicamp, com mestrado em Estética e História da Arte, pela USP. Faz umas artes quando dá, escreve por necessidade.