A Menina que organizava e uma perspectiva poética sobre TOC

Lançado pela editora Peirópolis em 2016, A Menina que Organizava, de Eve Ferretti e Fabiola Werlang, conta a história de uma menina cuja obsessão por limpeza e organização a privou de levar uma vida socialmente produtiva e feliz.

Por meio de rimas e lindas ilustrações, acompanhamos a menina crescer até se tornar adulta, mas que devido ao seu Transtorno Obsessivo Compulsivo, mal comia, não se relacionava com ninguém, pois ninguém era asseado o suficiente.

Uma forma poética de promover uma discussão com crianças que convivem com pessoas com TOC ou mesmo que demonstrem algum sinal do transtorno, pois tratar um tema como esses é sempre delicado, porém, as autoras fazem isso de forma magistral.

Na psicologia, o TOC é diagnosticado quando a mania compromete a vida social do paciente, por isso, a poesia pode ser uma excelente maneira de acessar crianças e adolescentes que precisem lidar com o problema. De acordo com as autoras, em uma entrevista ao site da Peirópolis, a ideia surgiu a partir da convivência de uma delas com uma pessoa com o transtorno.

“Algumas passagens do livro dão sinais do preconceito que ela sofria: o padre fugia dela; a mãe achava esquisito;, o pai se divertia com as manias da filha enquanto ela era criança… Mas não conto no livro se isso mudou com o passar dos anos, deixo em aberto. A velhice solitária dela ao lado de ratos e rachaduras mostra o quanto ela ficou isolada. Mas é verdade que a personagem nunca sofreu realmente; vivia no universo dela, plena e feliz. A obsessão era tão forte que tristemente não sentiu a dor da partida da mãe ou do pai, continuou limpando e limpando… Organizando e organizando… Aos olhos dos outros tornou-se fria pela mania, mas era feliz no seu exercício diário de arrumação, e assim o fez até não poder mais. Por anos a fio limpou, organizou e descartou o que pudesse juntar sujeira, e acabou estendendo esse comportamento à vida, às pessoas ao redor…”  (Eve Ferretti)

Na opinião da minha filha, de 7 anos, o livro é triste, porém, ela entendeu que se trata de algo fora do comum que alguém deixe de se divertir ou de sair para ficar limpando a casa sem parar.  Apesar de não conviver com alguém com TOC, ela se identificou de alguma forma com a personagem quando se deu conta que deveria arrumar mais o seu quarto, mas não todos os dias.

Ou seja, além de ser uma obra visualmente linda, com rimas e imagens facilmente assimiladas pelo público infantil, é também um trabalho com um forte apelo pedagógico e didático para quem trabalha com crianças ou adolescentes com TOC.  Mesmo para quem não conhece ninguém com o problema, não deixa de ser um lindo livro.

Ficha Técnica:

Título: A menina que organizava

Preço: R$ 39,00

Autoras: Eve Ferretti e Fabiola Werlang

Editora: Peirópolis

Formato: 19,5 x 29 cm

Páginas: 40

Cores: 4

Disponível em papel e digital

ISBN 978-85-7596-371-5 (impresso)

ISBN 978-85-7596-453-8 (epub)

ISBN 978-85-7506-454-4 (KF8)


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.