10 HQS Cyberpunk pra você conhecer

“High Tec Low Life”  são as quatro palavras mais usadas para definir o cyberpunk, um subgênero da literatura especulativa que tem como pedra fundamental as obras dos escritores William Gibson (Neuromancer, 1984),  Bruce Sterling (Piratas de dados, 1988) e  Rudolph Rucker (Quadrilogia Ware, 1982). embora muitos aspectos desse gênero, ou subcultura, possam ser encontrados nas obras de autores das décadas de 1950 a 1970 como Alfred Bester, John Bruner e Philip K. Dick.

A essência do cyberpunk está na dicotomia entre a alta tecnologia e a baixa qualidade de vida normalmente representada por uma sociedade distópica, socialmente desigual e controlada por megacorporações, com pouca, ou nenhuma participação de um governo democrático. A simbiose humano-máquina também está quase sempre presente em obras desse tipo e questões filosóficas envolvendo os limites do corpo e da mente em meio à constante desumanização da sociedade constantemente bombardeada pelo consumismo é um dos fatores essenciais para uma obra do gênero

Uma das obras de maior destaque nas HQs que abraçam o Cyberpunk como pano de fundo é Ghost in the Shell (1989) de Masamune Shirow que acaba de ganhar uma adaptação para o cinema, você pode ler mais sobre o mangá aqui e ler nossa opinião sobre o filme aqui.
Mas Ghost in the Shell não foi a primeira e não é a única HQ com essa temática,  separamos uma lista de 10 HQs que exploram a estética e os principais conceitos do cyberpunk para você conhecer mais sobre esse subgênero que aos poucos está deixando de ser ficção, afinal hackers ameaçando grandes empresas, influenciando eleições e tirando o sono de muita gente com histórias da dark web já são notícias velhas no nosso mundo.

Infelizmente nem todos os títulos apresentados aqui foram publicados no Brasil, mas as edições importadas são facilmente encontrados em grandes livrarias e lojas especializadas.

 

Vamos à lista.

 

Ronin – Frank Miller. DC Comics. EUA

 


Originalmente publicando em 6 números entre os anos de 1983 e 1984, essa série conta a história de Billy, um deficiente físico que se vê ligado a um samurai do Japão Feudal que morre em uma luta contra o demônio Agat, que também matou seu mestre (o que faz dele o Ronin do título). Fundido com a mente de Billy, o Ronin se vê em uma Nova York futurista onde ele novamente terá que enfrentar Agat e vingar a morte de seu mestre. Podemos dizer que Ronin foi  a HQ certa para o momento certo, sendo publicada quando os quadrinhos passavam por um momento de transformação como mídia (pouco tempo depois a Vertigo seria criada) e não seria exagero dizer que a série abriu caminho para outros grandes clássicos dos quadrinhos, como Watchmen, por exemplo. Aqui, Frank Miller  mostra muitas das técnicas que posteriormente o tornaram um ícone da narrativa em quadrinhos com Cavaleiro das Trevas e o seu  run nas revistas do Demolidor. A história apresenta  todos os pontos importantes para uma história cyberpunk, como um grande conglomerado que ocupou o espaço do governo e possui leis próprias, gangues violentas que cobram sua hegemonia nas ruas e a ameaça da tecnologia que sai do controle da humanidade.


Tokyo Ghost de Rick Remender e Sean Murphy, Editora Image – EUA

 

Passando de um clássico para uma série mais recente temos Tokyo Ghost, publicada nos anos de  2015 e 2016 pela Image Comics. Cheia de alegorias sobre a sociedade e com uma arte deslumbrante a história se passa num futuro distópico quando a sociedade decaiu em um profundo vício pela tecnologia controlado por criminosos. A protagonista Debbie Decay, que se apresenta como a última pessoa “limpa” na Los Angeles de 2089, sofre com o vício de seu namorado, Led, que vive plugado no mundo virtual, dependente de tudo o que essa tecnologia tem pra oferecer. Para tentar curar Led desse vício e cumprir um último trabalho para seu chefe, Debbie parte em busca de um terrorista capaz de se infiltrar na mente das pessoas através da rede neural, o que acaba nos levando a Tóquio desse futuro. Qualquer pessoa que tenha tenha contato com cyberpunk vai imaginar uma megalópole tomada por arranha-céus e neon, mas Remender fez questão de desvirtuar essa imagem do Japão futurista ao transformar Tóquio no último oasis contra a tecnologia que tomou a humanidade das pessoas. A série pode ter uma mensagem muito austera de que toda tecnologia é ruim e que devemos todos jogar nossos smartphones na privada e procurar uma árvore para abraçar, mas mesmo que a narrativa se torne didática e amarga em alguns pontos, isso é compensado em outras partes da história e principalmente pela arte de Sean Murphy que soube trazer toda a estética do Cyberpunk de forma magnífica. Também é muito legal prestar atenção nas referências escondidas nos painéis.



AKIRA de Katsuhiro Otomo. Editora Kodansha, Japão.

O cyberpunk japonês é um pouco diferente daquele que vimos em obras como Neuromancer e Matrix. Mesmo que o Japão tenha sido uma das principais fontes de inspiração para a criação da estética cyberpunk  e de conceitos como o do “sararimen”, aquela personagem que vive no mundo protegido de sua “empresa natal” e de repente se vê solto num mundo muito mais hostil (Só lembrar do Neo no começo de Matrix),o cyberpunk japonês acaba possuindo uma estética única. Por ser o único país a ter vivido os horrores das bombas nucleares, lançadas em Hiroshima e Nagasaki no fim da Segunda Guerra Mundial, a temática da guerra nuclear é muito presente no imaginário popular japonês. O medo das mutações genéticas causadas por alguma forma de tecnologia descontrolada é um dos temas mais recorrentes no cyberpunk japonês e em Akira ele é novamente explorado.Um dos mangás mais renomados no ocidente, Akira foi um dos responsáveis pela popularização dos mangás e animes em países de língua inglesa e posteriormente para o resto do mundo. A história foi publicada em seis volumes entre os anos de 1982 e 1990 e nela acompanhamos a história de Kaneda e Tetsuo, membros de uma gangue de motoqueiros que vagam pelas ruas de Neo-Tóquio, uma cidade reconstruída após ter sido destruída por uma entidade conhecida como Akira.

Enquanto explora as ruínas da antiga Tóquio, Tetsuo acaba se envolvendo em um acidente com uma misteriosa criança fugitiva de um centro de pesquisa (Alô, Stranger Things!). O acidente acaba despertando capacidades super-humanas em Tetsuo que acaba se tornando um novo Akira e o antagonista da história.


Embora se utilize de uma temática bem comum nos mangás, a dos dois amigos que de repente se encontram em lados opostos de uma guerra, o autor também explora temas mais “reais” como violência de gangues, opressão social, religiosidade cega e o uso de drogas, mas nada extremamente aprofundado. Mesmo que esteja um pouco datado é um mangá essencial para os fãs dos quadrinhos japoneses e do cyberpunk.

Transmetropolitan de Warren Ellis e  Darick Robertson. Editora Vertigo, EUA


Uma série difícil de ler e difícil de resenhar. Para resumir: Se você gosta de quadrinhos adultos, leia Transmetropolitan. Se você tem interesse no jornalismo gonzo hardcore, leia Transmetropolitan. Se você se interessou pelo cyberpunk e gosta  de Weird Sci-Fi com densas camadas de análise social, leia Transmetropolitan e, principalmente, se você não tem alta sensibilidade a palavrões, nudez e violência, pare tudo o que você está fazendo, leia Transmetropolitan e só então volte a viver. A série possui 60 volumes e foi publicada no Brasil em 10 encadernados pela Panini.

 

Elephantmen de Richard Starkings. Editora Image, EUA.


Passamos agora para uma série que continua sendo publicada até hoje. Criada em 2006, Elephantmen é um spin-off da série Hip Flask (sobre um híbrido de humano e hipopótamo que trabalha como agente em um órgão governamental de inteligência e informação). A série se passa 200 no futuro e acompanha os Elephantmen, o nome dado a esses híbridos que originalmente foram criados como armas de guerra por uma empresa privada de armamentos e usados como armas em diversos conflitos sem saber que existia um mundo além da violência e do sofrimento. Após serem resgatados dessa vida, os Elephantmen estão tentando se integrar na sociedade humana e a série explora essa dificuldade de adaptação e aceitação de ambas as partes. Com muita influência de filmes noir e literatura pulp, a série é bem sombria e violenta, mas possui momentos de chocante ternura. Além de explorar temas como preconceito e marginalização social, a série também faz duras crítica à privatização do sistema militar e suas consequências.


Channel Zero de Brian Wood, Editora Image, EUA



Quando falamos da Image dos anos 1990 é difícil não pensar em Youngblood e na “arte” de Rob Liefeld, mas ainda nessa época, a editora também foi responsável pela publicação de Channel Zero, quadrinho de estreia  de Brian Wood (DMZ) como autor e ilustrador. Seguindo os passos revolucionários de Transmetropolitan, a série é sobre a hacker Jennie que usa seus conhecimentos em tecnologia para realizar transmissões piratas, ao invadir o sinal de transmissão de canais de TV para fomentar atos de revolta contra o controle da mídia por grupos de extrema direita conservadora do governo.
A série critica fortemente o terrorismo estatal, violência policial e o abuso aos direitos de liberdade de expressão e ao acesso à informação, o que a torna uma série extremamente relevante até os dias de hoje.


Gunm: Battle Angel Alita de Yukito Kishiro. Editora Shueisha, Japão

Publicado em 18 volumes, Gunm: Battle Angel Alita (ou apenas Battle Angel Alita) conta a história de Gally, uma ciborgue que vive em um mundo pós-apocalíptico onde a substituição de partes do corpo por peças mecânicas é algo normal. Encontrada em um dos depósitos de lixo da Cidade da Sucata, território que recebe todo o lixo dos privilegiados que moram na cidade flutuante de Zalem, Gally foi adotada pelo Dr. Ito que a reconstruiu e adotou como filha. Sem memória do seu passado, mas com uma habilidade instintiva para o combate Gally acaba se tornando uma caçadora de criminosos e a partir daí acompanhamos a jornada de amadurecimento da personagem. A história também explora, de forma mais superficial, a dicotomia entre as duas cidades e a discrepância social entre seus habitantes. A série foi interrompida devido a problemas pessoais do autor que posteriormente lançou spin-offs da série com os títulos de Haisha e Gunm: Another Stories, posteriormente retomando a série com Gunm: Last Order . O arco de conclusão, Gunm: Martian Chronicles, ainda está em andamento. A série principal foi editada e publicada no Brasil pela JBC no começo dos anos 2000. O mangá vai ganhar uma versão Live Action prevista para o ano que vem. 



Juiz Dredd de  John Wagner e Carlos Ezquerra. Editora 2000AD/IDW, Reino Unido/EUA


Dredd é uma criação conjunta do roteirista John Wagner, do editor Pat Mills e do ilustrador Carlos Ezquerra e fez sua primeira aparição em uma antologia da editora britânica 2000 A.D em 1977.
Com o passar do tempo e com sua crescente popularização, o personagem  até virou tema central da música I am the law  da banda Anthrax, Dredd se tornou um ícone das HQs ocidentais.  Em 2066, Joe Dredd é um dos juízes responsáveis pela ordem e o progresso de Mega-City One, uma megalópole futurista que possui todos os problemas que a ficção científica pode atribuir a uma monstruosidade urbana localizada em um continente contaminado com altos níveis de radioatividade que um dia já foi a América do Norte. A função dos juízes nesse mundo é julgar qualquer ato da população, inclusive os de caráter mais íntimo, para preservar a ordem e fazer valer a rigorosa legislação do lugar. Além de juízes, essa força policial também é algoz, podendo condenar uma pessoa a morte e executá-la em poucos segundos no meio da rua, sem qualquer direito a apelação, ou defesa.


O interessante do personagem é que, ao contrário do cliché de filmes distópicos como Equilibrium, onde um oficial de um governo opressor se vê obrigado a seguir as duras regras sociais para poder viver, Dredd realmente ama o que faz, nunca saindo do papel de juíz. Ele não é um herói, pois apesar de ser capaz de  atos de heroísmo ele também é capaz de matar uma pessoa por pisar fora da linha determinada em uma fila. Ele não tira seu capacete nem mesmo para dormir e não é uma pessoa com quem você gostaria de ter uma conversa sobre sociologia, ou direitos humanos.


Apesar da série quase não ter continuidade, ela conta uma história única que é a da Mega-City One e Dredd é um personagem de quadrinhos que realmente envelhece em tempo real ( hoje ele já é um senhorzinho de mais de setenta anos)
Alguns dos melhores arcos de Juíz Dredd exploram o tema de abuso do poder, a violência das gangues e a corrupção das empresas que dominam Mega-City One. O conflito do personagem para lidar com essas aberrações burocráticas sem negar o seu papel de cumpridor absoluto da lei é um dos temas principais de arcos como Democracia e O dia em que a lei morreu.


EDEN de Hiroki Endo. Editora Kodansha, Japão


Conheça a história de Elijiah Ballard, um sobrevivente em um mundo pós apocalíptico destruído por um vírus que matou ¼ da população mundial e deixou muitos outros deformados. Elijah se junta ao Nomad, um grupo composto por pessoas que lutam contra a Federação Propater, uma corporação maligna que sequestrou a irmã de Elijah. Para salvá-la ele busca a ajuda de seu pai, um controverso traficante de drogas, o que gera mais problemas do que soluções. Quando o vírus sofre uma mutação e ameaça exterminar o que sobrou da humanidade, Elijah e os outros precisam encontrar uma forma de impedir que a doença se espalhe. 
O mangá possui uma variedade de personagens de várias etnias, o que dá a dimensão global do problema com o vírus e os cenários são muitas vezes desolados e bucólicos, que ajudam a expressar a solidão do personagem principal em sua busca. O tema de armamentos biológicos e químicos, e o descontrole sobre a tecnologia, também estão presentes. O mangá foi publicado em sua totalidade no Brasil pela editora JBC.


Hard Boiled: À queima roupa de Frank Miller e Geoff Darrow. Editora Dark Horse, EUA.


Minissérie em três volumes vencedora do Eisner de Melhor Equipe Criativa em 1991, Hard Boiled é uma história com fortes influências da estética neo-noir  em um mundo de excessos e desumanizado pelo domínio de grandes corporações. Uma delas é a Willeford Home Appliances que não produz apenas utensílios domésticos, mas também robôs dotados de inteligência artificial que agem e pensam como humanos normais, mas na verdade são assassinos disfarçados prontos para agir contra qualquer um que vá contra a filosofia corporativista desse cenário. É aí que conhecemos Carl Seltz, um cobrador de impostos aparentemente comum, mas que na verdade, para sua própria surpresa,  é um desses robôs psicopatas chamado Nixon e que por causa de uma falha em sua programação, pode ser uma peça chave na revolução que visa libertar os robôs.


Hard Boiled é uma sátira extremamente violenta e amoral (Afinal estamos falando do Frank Miller) e muitos fãs de Miller acreditam que seja a melhor obra do quadrinista, já outros insistem que o roteiro é apenas uma desculpa para a arte deslumbrante de Geoff Darrow que transforma até as mais grotescas cenas de  desmembramento e morte em um quadro para ser analisado cuidadosamente pelo leitor. 

 

 

 

 

 


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.