A Vingança é um prato que se come frio!

Somos ensinadas desde muito novas sobre a lei de Talião – “olho por olho, dente, por dente”, como um exemplo a não ser seguido. Buscar vingança é visto em nossa sociedade como uma atitude de pessoas inferiores, mesquinhas. “Dê a outra face”, “supere”, “o mundo dá voltas”, “a lei do retorno é implacável”, “a lei dos homens pode falhar, mas a lei de Deus nunca falha”… São tantos exemplos contados por meio de parábolas e fábulas, para que nunca nos esqueçamos que a vingança, assim como o crime, nunca compensa.

Porém, se na vida não podemos nos servir da justiça quando nos encontramos em situações de abusos ou violência, a ficção pode nos ajudar a lidar com alguns conflitos ou mesmo, por meio da representação e da projeção, satisfazer o nosso desejo por vingança.

Os números da violência contra a mulher no mundo todo indicam que muitas vezes nossos algozes são pessoas em quem confiamos e talvez, pessoas com quem teremos que conviver obrigatoriamente, por questões familiares ou profissionais. Isso nos remete ao que aconteceu recentemente na casa mais vigiada do país (BBB), onde um dos integrantes foi obrigado a sair para responder um inquérito de agressão contra uma das participantes. Esse mesmo integrante, médico, por sinal, já sofria um processo anterior por divulgar fotos de uma colega de trabalho sem sua autorização. Até que tomássemos conhecimento do caso, é provável que esta moça tenha tido que conviver com esse abusador em seu ambiente de trabalho, sem poder fazer nada, então, é possível inferir que ela tenha se sentido vingada quando o mesmo perdeu a chance de ser premiado no show de TV.

Embora nossa criação tenha muita influência do pensamento cristão, os mitos gregos são repletos de histórias de vingança. Os deuses gregos são extremamente vingativos em todas as narrativas, de forma que praticamente todo mito tenha alguma relação com o tema. Shakespeare também tem tragédias como Otello e Hamlet que giram em torno do da busca por algum tipo de retratação.

“Não despreze o ódio. Ele pode manter uma pessoa continuando por muito tempo. E as pessoas que foram feridas tem o direito de ter uma certa quantidade dele. É um beco sem saída, é uma armadilha, mas entenda que é parte da sobrevivência, é uma ponte, é uma ponte para o futuro. Odiar uma pessoa que te feriu é importante. Às vezes é raiva. Mulheres não gostam de ter raiva, mulheres temem a raiva, e nós vamos nos ferir antes de ter raiva daqueles que estão nos ferindo, mas às vezes, é a raiva que mantém uma mulher viva.”

— Andrea Dworkin

Então, se você tem esse sentimento dentro de você, que tal se sentir realizada na pele de mulheres incríveis que não pouparam esforços para se vingar de todos aqueles que tentaram destruir suas vidas? Vambora? – Atenção, a partir daqui, há spoilers!

Vamos começar com Revenge. Uma das séries mais populares do mundo enquanto foi exibida (estreou em 2011), conta a história de Amanda Clarke, uma menina que viu sua vida ruir quando seu pai foi preso em decorrência de intrigas envolvendo grandes nomes da alta sociedade americana. Quando cresce, já com a identidade de Emily Thorne, usa sua herança para por em prática um intrincado plano de vingança que acabaria com todos que de alguma forma foram responsáveis pela prisão de seu pai. Com muito suspense, intrigas e reviravoltas, é impossível não torcer para que Amanda de cabo de seu plano até o fim. Estrelada por Madeleine Stowe e Emily VanCamp, a série foi indicada a vários prêmios e se sua sede de vingança é muito grande, vale a pena maratonar as quatro temporadas!

 

Menina má.com – Com atuação impecável de Ellen Page, o filme de 2006 mostra uma menina literalmente dominando um homem bem mais velho, Patrick Wilson, que faz papel de Jeff, um fotógrafo de 30 anos  e que supostamente teria sido responsável pelo desaparecimento de sua amiga. No decorrer do filme acompanhamos Page infligindo diversos tipos de tortura à Jeff no intuito de conseguir arrancar uma confissão de assassinato. Se você é sensível, talvez não seja uma boa ideia assistir ao filme, já que as práticas aplicadas pela personagem de Page são bem realistas e o roteiro é composto de doses de suspense para manter uma grande tensão até o fim da película.

Garota Exemplar – estrelado por Bem Affleck e Rosamund Pike, o thriller lançado em 2014 traz recursos narrativos que fazem com que o espectador se divida ao longo da narrativa entre Nick Dunne (Bem Affleck) e sua esposa desaparecida, Amy (Rosamund). Isso porque temos acesso às perspectivas dos dois e conforme vamos conhecendo um pouco mais sobre cada um, fica difícil decidir de que lado ficar. Amy é apresentada como uma esposa perfeita, daquelas que são o sonho de todo homem. Já Nick, bom, até um certo momento ele também parece um cara legal… Mas sabemos que tipos assim são muito, muito raros, não é mesmo? Então, na medida que vamos descobrindo mais sobre os dois, vamos percebendo que nem tudo é o que parece e que talvez, Nick mereça uma lição… A questão é: será que Amy colocaria a própria vida em jogo para dar essa lição a Nick?

Kill Bill I e II –  Filmes daqueles que o sangue escorre pela tela, os dois volumes de Kill Bill foram lançados em 2003 e 2004, com roteiro de Quentin Tarantino em uma produção que mistura western, kung fu e trash. Já no início do primeiro volume, quando conhecemos Beatrix Kiddo, interpretada por Uma Thurman, o tom de é dado pela frase que diz que “vingança é um prato que se come frio”. Por isso, Beatrix não tem pressa em se vingar de todos os responsáveis por deixá-la em coma e quase morrer, um a um. Dividido em 10 capítulos, a história nos leva até o Japão, onde Beatrix vai buscar uma espada samurai confeccionada especialmente para ela: uma Hatori Hanzo. É com essa espada, muita determinação e sangue nos olhos que a protagonista vai eliminando seus inimigos até que um dia possa encontrar Bill, o grande vilão da história. Com sequências de lutas de espadas e um humor ácido, Beatrix vai ganhando aura de heroína, de forma que é quase impossível que uma mulher não se identifique com a sua luta. Apesar do surrealismo das cenas mais violentas, são elas que dão um ar mais visceral ao filme. Ainda que se trate de uma ficção, acompanhar a superação de Beatrix e vê-la literalmente eliminando seus inimigos é extremamente inspirador!

 

Qualquer gato vira-lata – Inspirado no livro Qualquer gato vira-lata tem uma vida sexual mais sadia que a nossa, o filme de 2011, com Cléo Pires e Malvino Salvador, a vingança aqui serve de pano de fundo para tratar de relacionamentos, mas é uma comédia que vale muito a pena depois que você tiver assistido às produções anteriores. Uma história bem despretensiosa que garante boas risadas com cenas como a da boate, onde Cléo Pires explica como teria conhecido o ex-mamorado de quem levou um fora.  Deseludida com o fim da relação com um “boy magia” que de mágico só tem mesmo o corpo, Tati (Cléo) vai parar em uma aula sobre relacionamentos amorosos dos animais de um professor de biologia, que curiosamente, acaba chamando a atenção da moça porque sua abordagem evolucionista faz muito sentido quando ela compara com a própria relação que tinha com o ex. Servindo como uma espécie de objeto de estudo do professor meio careta, Tati vai entendendo aos poucos os motivos de sua relação com o boy não ter dado certo ( lembra que eu falei que de mágico ele não tinha nada?) e acaba amadurecendo também, de forma que suas prioridades sobre relacionamentos mudam e o ex acaba perdendo o encanto pra ela.

 

 

 

 

 

 


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Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial – ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.