Cecilia Payne-Gaposchkin e o constante apagamento feminino nas ciências

Você já tinha ouvido falar de Cecília? Muito provavelmente, assim como eu, também desconhecia a história da astrônoma que descorbiu a composição do sol e das estrelas da Via Láctea. Como o que é demonstrado no filme Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures, 2016), o apagamento constante das mulheres em diversas áreas tem vindo à tona na medida que outras mulheres se interessam em pesquisar e disponibilizar suas descobertas na internet, do contrário, dificilmente saberíamos de sua existência.

Eu fiquei sabendo de Cecília em um evento acadêmico em que o palestrante apontou para o fato de que, embora as mulheres sejam maioria na área de comunicação e produzam mais que os colegas de sexo masculino, suas produções não são citadas em NENHUM trabalho acadêmico da área. Isso mesmo, zero citações em trabalhos acadêmicos. Por quê? A escolha da bibliografia de um trabalho de mestrado ou doutorado precisa da chancela da academia e dos orientadores. Essas mulheres, além de não fazerem parte das referências utilizadas nas disciplinas, não são aprovadas nos trabalhos apresentados. Diante dessa constatação, uma pesquisadora presente lembrou a todos sobre o caso de Cecília, ilustrando o machismo enfrentado por suas colegas nas mais diversas áreas.

Cecilia Payne-Gaposchkin foi uma das poucas mulheres que conseguiram se destacar na comunidade científica dominada pelos homens. Tendo sido uma das astrônomas mais bem-sucedidas do mundo, sua carreira na astronomia ajudou muitas outras mulheres a almejar uma carreira científica. Mas devido ao machismo enfrentado por ela, quando escreveu sua biografia, já perto do fim de sua vida, o fez sob um pseudônimo, “The Dyer’s Hand” (a mão do tintureiro). Também publicou vários livros acadêmicos, incluindo As Estrelas de alta luminosidade, Estrelas Variáveis, Estrelas Variáveis ​​e Estrutura Galáctica, Introdução à Astronomia e Novae Galáctica, mas sua maior conquista foi ter descoberto do que o sol e as estrelas são feitos, porém, o crédito de sua descoberta foi “roubado”.

Nascida em 1900, em Wendover, Inglaterra, Cecilia se matriculou na Universidade de Cambridge para estudar ciências, porém, não tinha certeza de qual aspecto e campo da ciência escolher e acabou optando por astronomia, depois de ouvir uma palestra do famoso astrônomo Arthur Eddington. Sua palestra foi uma observação da Teoria da Relatividade Geral por Einstein, em uma evento aberto para o público. Cecilia fez tantas perguntas de qualidade, que o pessoal da universidade a apelidou de “A Professora”. Com a aproximação do professor Eddinton, acabou sendo convidada para usar o observatório na universidade, um acontecimento que abriu muitas portas para Payne. No entanto, mesmo em idade precoce, ela sabia que ela não tinha futuro na Inglaterra, já que o país era muito rigoroso para as mulheres na ciência, então, mudou-se para os Estados Unidos, onde conheceu Harlow Shapley, diretor do observatório da faculdade em Harvard. Foi em Harvard que alcançou seu maior sucesso e floresceu como astrônoma.

http://www.geekadelphia.com/2015/09/03/jill-trent-science-sleuth-2-by-d-m-higgins-featuring-artwork-from-geek-award-winning-kelly-phillips/

A teoria do Sol e das Estrelas, tese de doutorado de Payne é considerada por muitos astrónomos como uma das melhores e mais influentes no campo da astronomia. Em seu doutorado, Cecilia conseguiu explicar o que as estrelas são feitas, incluindo o Sol. Entretanto, nunca foi dado o crédito apropriado para a descoberta, porque o astrónomo Henry Norris Russell persuadiu-a não apresentar sua conclusão. Mais tarde, ele publicou a descoberta em seu próprio nome, mencionando Cecilia, mas foi Russell que teve todo o crédito para a descoberta.

Em seu doutorado, Cecilia conseguiu relacionar com precisão as classes espectrais de estrelas com suas temperaturas reais, aplicando a teoria da ionização. Cecília argumentou que a variação das linhas de absorção estelar era mais devido a diferentes quantidades de ionização, por isso, a principal descoberta foi que o Sol era feito de silício, carbono e outros metais, muitos dos quais também podem ser encontrados no espectro da Terra. O mais relevante de sua pesquisa foi que Payne descobriu que hélio e hidrogênio estavam muito mais presentes no Sol e nas estrelas em geral, o que fundamentou seu argumento de que o hidrogênio é realmente o elemento mais abundante no Universo.

Depois de seu doutorado, Cecilia Payne continuou a estudar estrelas de alta luminosidade, tentando entender a estrutura da Via Láctea. Em sua carreira, Payne examinou todas as estrelas que são mais brilhantes do que a décima magnitude e fez mais de 1.250.000 observações. Em 1956, tornou-se a primeira mulher a ser promovida a professora em tempo integral na Faculdade de Artes e Ciências de Harvard e foi nomeada mais tarde para a cadeira do departamento da astronomia, tornando-se a primeira mulher com um departamento em Harvard. Alguns de seus estudantes mais proeminentes incluíram Frank Drake, Helen Hogg, Paul W. Hodge e Joseph Ashbrook. Todos eles fizeram contribuições significativas para o campo da astronomia. Payne aposentou-se de ensinar em 1966, mas continuou sua pesquisa como um membro do Smithsonian Astrophysical Observatory.

O documentário do youtube está em inglês, mas conta um pouco sobre sua trajetória e suas descobertas.
https://www.youtube.com/watch?v=I_qF-jTY2zY

 


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Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.