FoMO – Internet, ansiedade e o medo de não fazer parte de algo

 

A cena: conversando com uma professora em sua sala, ela entra no site de um espaço cultural para me passar o endereço correto. Ao abrir a página, se dá conta que perdeu o prazo para se inscrever no curso sobre Nietzsche e o Budismo. Chateada, ela não se conforma de ter deixado passar uma oportunidade única de estudar um tema não explorado, ainda que sua agenda seja extremamente atribulada. Ou seja, mesmo que se inscrevesse, possivelmente não teria tempo de participar do curso.

Eu tento consolá-la lembrando que é humanamente impossível darmos conta de todas as informações e eventos que aparecem em nossas telas. Explico sobre um transtorno típico dos nossos tempos: F.O.M.O – Fear of missing out, que em português significaria algo como “medo de perder algo”.

Constando no dicionário de Oxford desde 2013, essa sensação é descrita como um desconforto ou sentimento que nos consome intensamente de que estamos perdendo algo importante, um evento que nossos amigos estão participando e nós não ou de que eles possuem coisas melhores. De acordo com a entrada no dicionário, cerca de três quartos dos jovens adultos já passaram por isso.

A ansiedade generalizada que experimentamos ao usar a internet pode ser explicada por um estudo realizado pela Academia Nacional de Ciências dos EUA sobre o contágio de emoções via redes sociais. Nesse estudo, os pesquisadores constataram que não só nossas emoções são influenciadas pelos nossos feeds das redes sociais, como também nossa tomada de decisões.

Lorar – Quadrinhos do Mundo

Em matéria publicada na revista Time, em 2016, o autor explica que o FoMO é um sintoma associado à infelicidade. O vício de checar várias vezes por dia as redes sociais indica que não estamos satisfeitos com nossas vidas em algum nível. Não só isso, de acordo com os estudos citados pela revista, o engajamento nas redes estaria diretamente ligado a esse medo de não se sentir parte de algo, de estar perdendo alguma coisa:

Na verdade, as pessoas que sofrem com FoMO apresentam um comportamento semelhante ao de vários tipos de vício e são as que costumam checar suas redes sociais imediatamente após acordarem, durante as refeições e antes de dormir – parece familiar? Ou seja, se você se sente para baixo, resolve olhar as redes para se sentir melhor, mas o problema é: isso não acontece.

Ainda de acordo com os estudos citados pela Time, por mais que saibamos que o Facebook é uma ilusão do que seria a vida das pessoas, é inevitável que comparemos nossas vidas com a dos outros e essa atitude pode ser relacionada a um aumento de alguns tipos de depressão.

Por isso, o professor Barry Schwartz, em seu livro O paradoxo da escolha: porque mais é menos, afirma que precisamos parar de nos importar com o que está acontecendo com as pessoas à nossa volta, por mais que este seja um conselho difícil de ser seguido, afinal, somos criados em uma cultura que nos diz que apenas os melhores têm acesso a certos privilégios. Ainda assim, ele lembra que a comparação por meio das redes sociais é extremamente nociva para o nosso bem-estar e que é importante que façamos isso menos.

Mesmo que experimentemos sentimento de satisfação ao usar as redes sociais, esse sentimento é cíclico. Nossas emoções passam por altos e baixos quando estamos conectados, criando um ciclo infinito de infelicidade, pois quando nos sentimos bem e postamos nas redes sociais, estamos lembrando aos outros que eles estão piores que nós. “Bom para o Facebook e para as vendas de sorvete (seu consumo é associado à depressão nos EUA), péssimo para a felicidade” (Barry Schwartz).

Carolina Ito – Salsicha em Conserva

Mas então, como quebrar esse ciclo?

A palavra-chave é atenção! Por mais clichê que a expressão “A felicidade está dentro de você” possa parecer, o professor de economia Paul Dolan explica que a felicidade depende de onde você foca a sua atenção, se referindo ao fato de compararmos nossas vidas ao que é na verdade uma ilusão, em vez de focarmos em nossos aspectos positivos. Basicamente, ele diz que se você se sente infeliz, é preciso prestar atenção no que você quer conseguir e como fazer isso, ou seja, mudar mesmo o foco de sua atenção do que é negativo para o positivo.

Bom, e como fazemos isso?

Mais uma vez, por mais clichê que isso soe, a resposta é gratidão. Pois é, eu sei… Mas a matéria da Time sugere um experimento simples. Por que não tentar?

– Pense nas coisas que você pode não estar dando o devido valor, como família e amigos;

– Imagine por alguns segundos que o que você tem pode ser tirado de você. Como se sente? Afinal, coisas ruins acontecem sem motivo aparente, certo? Então, em algum nível você é uma pessoa de sorte em ter o que tem.

Esse exercício aparentemente simples já havia sugerido em uma série no programa Fantástico e, de acordo com os estudos, funciona, pois o sentimento de gratidão está diretamente ligado à felicidade. Pessoas mais inclinadas a se sentirem gratas são as que demonstram maior nível de integração social, capacidade de assimilação de conteúdos, além de estarem menos propensas à depressão, uma vez que os efeitos da gratidão no cérebro são comprovadamente os mesmos da serotonina.

Mas a internet em si não é má, sim o uso que fazemos dela. Assim, é preciso entender que o Facebook é apenas uma ferramenta que deveria nos aproximar de pessoas presencialmente, não nos afastar delas. Nesse sentido, alguns neurocientistas sugerem que além do exercício da gratidão, é importante definir o que estamos sentindo para que seja mais fácil tomar medidas para lidar com os problemas. Também afirmam que é preciso diminuir nosso nível de cobrança pessoal, pois geralmente, o “até que está bom” está “bom o suficiente”. E, finalmente, toque mais as pessoas, abrace mais! Os níveis de oxitocina e cortisol produzidos pelas conversas online é o mesmo que produzimos quando nos sentimos sozinhos e estressados, então, atitudes simples podem mesmo surtir efeitos significativos.

Que tal tentar?

Para saber mais:

http://brasileiros.com.br/2013/08/a-era-dos-ansiosos/

http://time.com/4358140/overcome-fomo/

http://www.pnas.org/content/111/24/8788.full

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial – ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.