Inteligência Cultural – Já ouviu falar?

Criado no início do século pelo psicólogo Lewis Terman, da universidade de Stanford, EUA, o teste de QI (Quociente de inteligência) era aplicado até recentemente como a única forma de se avaliar a inteligência de alguém. Resultante de uma série de interações que envolvem questões de lógica, matemática, vocabulário e de percepção espacial, o teste media o nível de inteligência de um ser humano e que, acreditava-se, seria imutável a partir dos 7 anos de idade.

Muitas empresas consideravam sua aplicação determinante na contratação de funcionários, porém, sabemos hoje que não existe apenas uma inteligência, mas várias inteligências que desenvolvemos ao longo da vida. Por isso, não demorou muito que consultorias em recrutamento e seleção surgissem oferecendo a aplicação de testes psicológicos para avaliar o potencial dos candidatos a uma vaga de emprego.

Entre os testes e dinâmicas mais conhecidos, o Wartegg está (esteve?) entre os mais populares. Criado em 1953 pelo alemão Ehrig Wartegg, esse teste se baseia na confecção de desenhos orientados de acordo com uma série de instruções e a partir dos quais um psicólogo conseguiria determinar a estrutura da personalidade de um candidato. Porém, com o advento da internet, as respostas consideradas “adequadas” a estes testes são facilmente encontradas, o que poderia comprometer a sua aplicabilidade. Se você costuma participar de seleções, provavelmente já se viu diante daquele monte de quadradinhos onde você tinha que desenhar a partir de um risco ou alguma indicação contida na folha, né?

Wartegg

Ou talvez, tenha sido orientada a desenhar uma árvore. Sim, há formas e formas de se desenhar uma árvore e isso nada tem a ver com sua habilidade artística, mas com os aspectos e características que você confere ao seu desenho, como raízes, se elas existem ou não, tipos de folhas, tamanho do caule…

Tendo passado por algumas seleções, hoje lembro delas com certa ressalva. Embora não seja psicóloga e nem tenha especialização em gestão de pessoas, a experiência em trabalhos corporativos e coordenação de equipes me leva a duvidar de alguns desses testes, a começar com o teste de QI, que considera a inteligência como sendo algo concreto e imutável, quando hoje sabemos que questões ligadas a afetividade e fisiologia, como alteração hormonal, pode comprometer a apreensão de conteúdos em determinadas épocas, o que alteraria não só a capacidade cognitiva, mas também os resultados desses testes.

 

 

Por isso, testes de personalidade acabaram se tornando mais populares que os de inteligência, principalmente após a publicação do livro Inteligência Emocional (1986) de Daniel Goleman. Com mais de 5 milhões de cópias vendidas no mundo todo, em seu livro o psicólogo classifica a inteligência emocional a partir de 5 habilidades: Autoconhecimento, controle emocional, automotivação, reconhecimento das emoções de outras pessoas e relacionamentos interpessoais. Tais habilidades passaram a ser mensuradas em testes mais complexos, como o P.I. – Predictive Index, que se baseia em suas respostas sobre como você se vê e como os outros o enxergam para classificar seu comportamento social e testes de aptidão, que misturam questões de lógica e matemática.

Isso porque as empresas entenderam que o conhecimento técnico pode ser adquirido, porém, habilidades e aptidões sociais estão relacionadas à nossa vivência e à forma como nos relacionamos com os outros. Nesse sentido, nossas capacidades interpessoais são mais determinantes no meio corporativo que nossa “inteligência” lógica, pois elas indicariam se somos capazes de trabalhar em equipe, respeitar hierarquias, superar situações de stress, agindo de forma criativa e proativa.

Outras dinâmicas como imaginar que animal você seria e explicar o motivo de sua escolha ou interações que visem avaliar a capacidade de entrosamento dos candidatos indicam que a preocupação quanto à forma que nos relacionamos com nossos colegas é extremamente importante para que o ambiente de trabalho seja um espaço harmonioso.

Pensando nisso, teóricos de relações públicas e comunicação, como o professor Shiv Ganesh¹, ampliaram o conceito de inteligência emocional para o de inteligência cultural. De acordo com ele, a inteligência cultural é uma extensão da emocional, concebida a partir da observação de que a globalização afetou significantemente as relações de trabalho no mundo todo, principalmente nas empresas internacionais com sedes e franquias em países diferentes.

Ganesh sugere uma tabela de comportamentos que podem ser observados no sentido de avaliar se um indivíduo é capaz de funcionar e gerir de forma eficaz ambientes culturais diferentes. O autor também aponta para a necessidade de inteligibilidade como algo mais profundo que a inteligência, uma vez que indicaria nossa capacidade de encontrar sentido no mundo e de estabelecer nosso lugar dentro dele. Como assim? Basicamente, foi a partir do conceito de inteligência cultural que cursos voltados a diplomatas americanos, que são enviados para viver em outros países, passaram a incluir em suas aulas noções de culturas e comportamentos específicos de determinadas regiões, no intuito que esses não só não cometessem gafes (como mostrar a sola do pé em países árabes), mas para que pudessem se adaptar melhor aos novos locais.

Esse tipo de conhecimento faz sentido em um mundo cada vez menor em decorrência da globalização. Por exemplo, uma pessoa com alta inteligência emocional é capaz de se adaptar mais facilmente em um ambiente completamente diferente do que foi acostumada e é mais propensa a resolver conflitos de forma diplomática, atendendo as expectativas de interlocutores variados. Um gerente americano que visa aplicar determinado procedimento no Brasil, por exemplo, não conseguirá convencer seus funcionários a abrir mão da pausa para o almoço, como é comum nos Estados Unidos, para que processos sejam otimizados. Da mesma forma que um holandês terá dificuldade de entender porque fazemos de nosso ambiente de trabalho a nossa segunda casa, criando laços afetivos com colegas que mal conhecemos.

Tabela de inteligência cultural de Ganesh

Portanto, se você está se preparando para algum processo seletivo, conhecer o perfil da empresa para a qual está se candidatando é sempre uma boa ideia, pois isso ajudará a refletir sobre que tipos de aptidões e habilidades serão esperados de você, mas independentemente disso, inteligência emocional e inteligência cultural são qualidades necessárias em todos os âmbitos de nossas, vidas, ou seja, saber mais a respeito certamente não é conhecimento desperdiçado!

SAIBA MAIS:
1 – GANESH, S. Capítulo 1 – Da Inteligência à inteligibilidade cultural: tecnologia digital, ação coletiva e Comunicação nos nossos dias. IN MOURA, Claudia P. e FERRARI, Maria Aparecida (orgs.) Comunicação, Interculturalidade e Organizações: faces e dimensões da contemporaneidade. Porto Alegre, EdiPUCRS. Livro da ABRAPCORP, 2015. E-book

Faça o teste P.I

https://hbr.org/2004/10/cultural-intelligence

http://www.rh.com.br/Portal/Recrutamento_Selecao/Materia/1729/wartegg–desenhos-reveladores.html

http://www.gpportal.com.br/2011/10/o-significado-do-teste-da-arvore.html

 


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Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial – ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.