13 Reasons Why – Uma análise

Por Priscilla Sartorelli – psicóloga e Gabriela Franco

“13 Reasons Why” é uma série da Netflix que retrata os motivos pelo qual Hannah se suicidou, através de 13 fitas cassetes deixados pela protagonista.

A cada capítulo descobrimos junto com o menino Clay, as inúmeras agressões que Hannah sofreu e observamos ele se sentir atormentado (e com razão) ao escutar a verdade de Hannah. A visão dos dois se contrapõem na série, ao mesmo tempo em que conhecemos a história dos agressores, formando uma visão global do que aconteceu naquele espaço de tempo na vida da vitima.

A cada capítulo a série nos mostra que todos possuem seus conflitos. Porém é importante nunca esquecermos que muitos dos agressores ultrapassaram certos limites ali e cometeram crimes, outros foram cruéis e essas ações não devem ser minimizadas em momento ALGUM.

Muitas das agressões que Hannah sofreu são resultados de uma sociedade machista, que acredita ser normal enquadrar as mulheres em listas de acordo com seus “dotes físicos”, seguindo um padrão social excludente. Essa objetificação da mulher, se intensifica nas cenas de abuso e estupro.

É possível perceber que ninguém é capaz de auxiliar nos conflitos que vão acontecendo na escola, nem mesmo o Sr. Porter, orientador escolar, que oficialmente exerce essa função na história, mas que claramente não possui uma escuta qualificada, julgando e minimizando o sofrimento dos alunos.

 Quando Hannah procura o orientador, acreditava que ele seria capaz de compreendê-la, mas ao invés disso ele a culpabiliza. O que a faz então acreditar que ninguém mais poderia ajudá-la e comete o suicídio.

A cena do suicídio explícito é a o fator mais complicado da série, pois pode causar gatilhos e encorajar as pessoas que já possuem ideações suicidas a então, cometerem o ato.

É importante falarmos de suicídio, mas igualmente importante é tomar cuidados para que ele não encoraje as pessoas a tal ato. Seria interessante, por exemplo, se a Netflix colocasse o aviso sobre o conteúdo em todos os episódios e não apenas naqueles que possuem as cenas de estupro, seria um ótimo começo. Existem avisos sobre pirataria, existem avisos sobre conteúdo explícito de sexo e violência, por que seria diferente quando o assunto é depressão e suicídio?

Por mais que após o início da série o número de chamadas para o CVV (Centro de Valorização da Vida) tenha aumentado * (segundo dados da fonte) e também a série tenha criado importantes discussões que podem contribuir para a diminuição de preconceitos e de tabus em cima do tema, ainda assim alguns cuidados poderiam ter sido tomados, portanto, analisando como psicóloga, foram irresponsáveis.

Outro ponto problemático é que a obra retrata o suicídio como uma vingança. Hannah culpa as pessoas pelo seu suicídio e ao obrigá-las a escutar suas fitas, se vinga das agressões que sofreu.

A maioria dos suicidas não se vinga das pessoas (não de forma consciente) e culpa a si mesma pelas coisas que lhe aconteceram. Muitas pessoas até organizam seus bens materiais para familiares de maneira que eles não tenham trabalho com a sua morte. Em sua maioria não culpam o outro, apenas querem aliviar seu sofrimento.

A visão de que os outros são culpados, vem dos próprios sobreviventes, que ao não compreenderem os motivos pelos quais o suicídio aconteceu, se culpam. Acreditam que não viram os sinais (que nem sempre existiram), que não deveriam ter brigado ou falado de “X” maneira para a pessoa.

Reforçar na série que os culpados são aqueles que ficam, é dificultar o processo de luto para aqueles que sobrevivem.

Ninguém tem culpa pelo suicídio: nem a pessoa e nem quem fica.

Uma dica para quem quer entender e ter empatia com quem tem pensamentos depressivos e suicidas é a HQ “Adeus, dor estranha número 28‘, do quadrinista Felipe Portugal, A inspiração para a HQ partiu das ocorrências de suicídio registradas entre estudantes universitários de Teresina, PI, juntamente com uma experiência do próprio autor, que se viu diante de uma amiga que se machucava “pra aliviar as grandes dores com uma menor”.

Entre os heróis das grandes editoras, o título de Batman (Renascimento) escrito por Tom King lança luz em pontos nunca antes explorados da intensa e fascinante história do Homem-Morcego, explorando muito mais a fundo sua relação com a bat-familia e com o próprio Coringa (ou melhor, “Coringas”) também trata do tema suicídio, apresentando o herói de uma forma tremendamente humana.  Em Batman #12, escrito por Tom King e ilustrado por Mike Janin, que foi lançado recentemente nos EUA, Bruce Wayne, em uma carta tocante à Selina Kyle (Muher-Gato) revela que tentou suicídio aos 10 anos de idade, quando perdeu os pais no arco . Um passo e tanto para tamanho ícone intocado da DC e o que com certeza,  o traz mais próximo a nós.

Existe a clássica história onde Adrian Chase, O Vigilante criado por Marv Wolfman e George Pérez em New Teen Titans Annual #2, de 1983. Não aguentando a pressão da vida dupla de civil e heróis  e a culpando-se por causar problemas à pessoas próximas,  entra em depressão e comete suicídio no último número do arco.

Frank Castle, o Justiceiro também deu cabo da própria vida em Punisher #1 de 1998 aqui no Brasil saiu em Grandes Heróis Marvel #3, de 2000.

Um herói que sempre flertou com a depressão, mas que dá a volta por cima em uma fase recente, escrita por Mark Waid é Matt Murdock, o Demolidor. Questões como dogmas religiosos, a morte do pai e de pessoas queridas próximas a ele sempre o colocaram em luta constante contra a culpa e  suas reais motivações heróicas. Na fase escrita por MarkWaid, lançada em 2016 no Brasil, o herói se recupera e nem de longe lembra o denso Demolidor da fase escrita por Brian Michael Bendis, por exemplo.

Wolverine também já passou por MUITAS fases depressivas e isso é bem explorado no filme LOGAN.

Até os ultra poderosos como Superman, Capitão América, Hulk e Tony Stark precisaram de ajuda, acompanhamento e tratamento contra o fantasma da depressão e pensamentos suicidas. O clássico arco de 1979 – “Demônio na Garrafa” de David Michelline e Bob Layton fala justamente sobre a doença do alcoolismo em Tony Stark e na minissérie Banner, escrita por Brian Azarello e Richard Corben, nosso gigante verde também tenta o suicídio.

Entre as heroínas temos muitos exemplos, Vampira, Capitã Marvel, JESSICA JONES,  algumas vilãs como Selina Kyle (Mulher-Gato) e Mary Tiphoyd e anti-heroínas como Elektra e Viúva-Negra, entre outras, também já passaram por fases obscuras,

Alguns mangás e animes também tratam de depressão e abordam o tema suicídio em algumas de suas histórias, como os animes,  NHK ni Youkouso, Tatami Galaxy, Colorful e Aku No Hama, curiosamente em todos esses citados, os protagonistas são COLEGIAIS ou estudantes solitários. Esse assunto é bem sério na cultura japonesa onde anualmente dezenas de jovens comentem suicídio por conta de bullying e pela própria forma que a cultura escolar nipônica trata tais casos, prezando muito mais o grupo do que o indivíduo.

Kue No Katachi

Entre os mangás que tratam do tema podemos citar Kue No Katachi e Vitamin.

Nos games, Life Is Strange é o melhor exemplo de jogo que pode causar empatia e nos aproximar da dor de quem sofre depressão e bullying.

No cinema o tema é altamente explorado, filmes como As Virgens Suicídas, Garota Interrompida, A Ponte, As Horas, Vantagens de Ser Invisível entre outros, Alguns deles abordam o tema de forma erroneamente poética e irresponsável, outros de forma brutal e real.

Com esses exemplos, podemos apenas concluir que todos, heróis e vilões, com super-poderes ou não, estão sujeitos à doença da depressão, que merece atenção, cuidado,acompanhamento especializado, apoio de amigos, familiares.

Obs: Caso você esteja passando por conflitos internos, por dificuldades em lidar com as situações que lhe ocorra, violência e pensando em suicídio. Procure ajuda qualificada:

CVV- Centro de Valorização da Vida – Ligue 144 (24h)

UBS – Procure a psicóloga da UBS mais próxima de sua residência.

Em universidades que possuem a faculdade de psicologia existem as clínicas-escolas onde a maioria tem atendimento gratuito. Procure,agende.

Converse com familiares e amigos em quem confia sobre sua condição. Não tente resolver sozinho, precisamos uns dos outros. Até os heróis precisam <3. Conte com o MinasNerds no que precisar, temos um grupo no Facebook e em breve teremos grupos de apoio gratuitos para conversarmos sobre.

Estamos juntas <3

 

 

 


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Gabriela Franco

Jornalista especializada em cultura pop, produtora, cineasta e mãe da Sophia e da Valentina Criadora do MinasNerds.