“Quando eu for mãe, meu filho vai…”. Bem, é possível que não.

Todo mundo tem suas convicções sobre a educação de crianças, tendo filhos ou não. A diferença entre quem já tem filhos e quem não tem é que os primeiros se tocaram de uma máxima da maternidade/paternidade: ninguém controla nada. Por isso mães (vou focar nelas aqui) reclamam tanto dos palpiteiros, porque parece que todo mundo tem respostas milagrosas para seus problemas no dia a dia com a cria, mas vai lá ver na prática a ralação que é.

É um tanto engraçado, um tanto constrangedor e mais uns outros sentimentos do tipo quando vejo alguém sem filhos dizer algo que começa com “mas meu filho vai ser assim” e descreve algo que nem imagina como vai ser na prática. Por isso vou fazer uma listinha de coisas que fazem muita gente pagar a língua, já que crianças são pessoas cheias de complexidade de um jeito que só quando a gente conhece o serzinho para saber.

Mrs. Winslow’s Soothing Syrup for children teething, imagem da Boston Public Library

vai ser educado, não vai fazer birra em público

Acho que essa é uma frase que todo mundo que pretende ter filhos disse pelo menos uma vez na vida. Outro dia li um texto enorme, de uma pessoa que não tinha filhos, falando que os pais são responsáveis pelas crises públicas dos filhos porque não sabem educar direito. E falava sobre “ser firme”, o que deixa implícito o uso de algum tipo de violência, seja psicológica, com ameaças, ou física.

Mas vamos entender um pouco o que acontece com crianças pequenas, de 2 a 5 anos, mais ou menos. Nesta fase elas estão começando a aprender a lidar com suas emoções e ao mesmo tempo entender que elas fazem parte do mundo como indivíduo e não como parte da mãe, do pai, ou do cuidador mais próximo, que até então era seu filtro para o mundo. Imagina você na adolescência, tendo aquelas crises incontroláveis de raiva, de choro e etc, é a mesma coisa, só que acontecendo com alguém que conhece apenas uma fração de mundo. E isso não é algo que se controle, nem pela criança e muito menos um cuidador. É preciso ter paciência e acolhimento, porque é um período de aprendizagem emocional profunda.

“Ai, mas incomoda”. Sim, incomoda. Mas perfume forte incomoda também. Gente que fala alto também. Pessoas que falam pegando na gente. Pessoa que come com a boca aberta. Por que só as crianças é que são tão maltratadas? Por que são pequenas e a lei do mundo é a dos mais fortes?

Sobre o uso da violência física, a tal da palmada, temos uma lei semelhante à  Lei Maria da Penha para proteger as crianças, porque casos de espancamento e violência psicológica são bem mais comuns do que se pensa e suas consequências são devastadoras. A Lei Menino Bernardo ganhou seu nome depois do assassinato brutal de uma criança pelo próprio pai.

Precisamos repensar a ideia de castigos e aqui algumas reflexões sobre educar sem bater e sobre o famigerado cantinho da reflexão (é só clicar nos links). Sugiro também acompanhar as postagens da página Crescer Sem Violência, que faz reflexões importantes sobre o assunto.

An uninvited guest, Hire’s rootbeer, da Boston Public Library

vai comer de tudo

A introdução alimentar deve ser uma das fases de maior pânico de pais e mães, porque é daqueles momentos em que percebemos que não temos controle de nada. As crianças aprendem pelo exemplo, então mães, pais, cuidadores devem comer bem se querem que suas crias comam bem. Mas isso não é o suficiente, crianças têm suas preferências, têm nojo de texturas que acham estranhas, de cheiros, porque são pessoas e é assim mesmo que somos. Tem crianças que já começam comendo muito, mas a maioria come bem alguns dias e fica muitos sem comer quase nada. E deixar de castigo “até esvaziar o prato” pode ser trágico. Conheço vários adultos que têm crises de ansiedade diante de um prato de vegetais porque foram torturadas na infância (vamos lembrar que violência não resolve nada, como já dissemos no item anterior).

O que funcionou para mim foi confiar um tanto no apetite da cria, entender que tem dia que ele não quer, mas tem outros que come muito, do mesmo jeito que adultos. É apavorante, tem horas, e é bom não projetar as próprias frustrações nos pequenos. Tem coisas que funcionam para uns, tem coisas que funcionam para outros. Tem o tempo disponível dos cuidadores para lidar com essa fase, a disponibilidade de variedade de alimentos. São muitos fatores para administrar e às vezes flui bem, às vezes não.

Boy in a walker with paper hat swinging wooden sword, da Boston Public Library

vai ser fã do mesmo filme/ quadrinho/ banda que eu

Mães e pais orgulhosos com seus bebês fantasiados de mini mim, uma versão pequena de si mesmos, é bem comum. É fofo, mas eu me preocupo com a projeção da realização pessoal dos adultos nos pequenos, coisas do tipo “vou dar para ele o que eu não tive”, “ele vai realizar os sonhos que não consegui”. Será que a cria vai mesmo querer?

Crianças se espelham nos adultos a sua volta e isso é absolutamente normal, ouvem as mesmas músicas que se ouve em casa, assistem aos mesmos filmes, têm acesso aos mesmo livros e quadrinhos. Mas isso não quer dizer que ele vai ser fã das mesmas coisas. De novo: NÓS NÃO CONTROLAMOS NADA.

Uma outra questão que considero bem problemática é a dos produtos licenciados e a publicidade voltada às crianças. Essa publicidade é proibida no Brasil por ser abusiva. É só lembrar o caso do iogurte Frozen, que fez várias crianças passarem muito mal e que foram consumidos por estarem associados a uma personagem muito querida e só por isso.

Incentivar o consumismo em crianças pode gerar ansiedade e vários outros problemas, além do gasto excessivo de famílias em coisas que fazem mal (lembra do iogurte). Para entender um pouco mais sobre o assunto, indico as páginas Infância Livre de Consumismo e Criança e Consumo.

I use Soapine, da Boston Public Library

vai aprender a falar logo, com os estímulos certos, não vai ter preguiça

Crianças se desenvolvem no seu próprio ritmo. Existem os parâmetros de normalidade, que podem indicar algum problema motor, neurológico e etc, mas o fato é que sempre achamos ser possível antecipar algo que deve se desenvolver no seu tempo. Crianças podem aprender a falar até os quatro anos de idade e isso é normal, apesar de ser comum essa habilidade se desenvolver um tanto antes, só para citar um exemplo.

Comparar crianças é sempre desastroso. Porque uma criança que fala cedo pode ter problemas para comer ou para dormir. Uma criança que caminha cedo, pode não falar e por aí vai. A medida de cada criança é ela mesma, seu esforço é diário e seu aprendizado também, é só parar e observar o mundo inteiro sendo descoberto minuto a minuto. Não precisa de nenhum estímulo além de tempo para brincar e o mundo todo para conhecer.

 

vai viver sem TV por muito tempo

Tem as recomendações ideais de vários órgãos de saúde. Não pode ver TV mais que uma hora por dia nos primeiros anos, não pode comer açúcar antes dos dois anos…

A gente tenta o máximo que pode, mas tem hora que sucumbe. O cansaço, as dificuldades já relatadas anteriormente, o apelo do mundo que a gente não controla, como tios, avós, escola. Crianças normalmente passam muito mais tempo com cuidadores do que com os pais, então não dá para culpar os pais por tudo, ok? Mas, mais que isso, precisamos entender que damos o nosso melhor com o que temos disponível, os outros problemas teremos que resolver no caminho e o melhor é que a culpa não nos assole, o ideal mesmo seria que o mundo não ficasse apontando dedos nas nossas caras.

 


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Roberta AR

Gosto de escrever (o que acabou virando trabalho) e de café. Participo da cena de quadrinhos independentes desde 2007, atuando principalmente na divulgação e na produção. Também sou zineira e escritora.