Embrace – Ame seu corpo como ele é!

Decidi assistir ao documentário Embrace, disponível na Netflix, pensando não só na forma como eu lido com a minha autoestima, ou a falta dela, mas, principalmente, em todas as mulheres com quem convivo e que também apresentam algum problema em relação à própria imagem. Em nosso grupo no Facebook, o assunto é levantado constantemente e a sensação de impotência diante de tantos depoimentos de mulheres que não amam seus corpos é inevitável.

O projeto global que hoje se chama Body Image Movement (Movimento da imagem corporal) e gerou o documentário, começou “sem querer” em 2013, quando a australiana Taryn Brumfitt conversava com umas amigas sobre a colocação de implantes de silicone após o nascimento de seu terceiro filho. Durante essa conversa, Taryn se chocou ao perceber que suas amigas tinham tantos problemas com seus corpos, estavam tão insatisfeitas, que ao chegar em casa, postou a seguite foto em sua página do Facebook:

A imagem, que inverte o que normalmente vemos nas fotos “antes e depois”, chocou não só suas amigas, mas provocou uma reação internacional inesperada: a foto viralizou de tal forma que em questão de horas ela tinha mais de 250 mil curtidas. Em seguida, ela recebeu uma enxurrada de depoimentos de mulheres do mundo todo dizendo se identificar ou contando sobre suas dificuldades em amar seus corpos. Com a visibilidade alcançada nas redes socais, a fotógrafa e mãe de três filhos que levava uma vida tranquila, passou a ser convidada para entrevistas em jornais, revistas e programas em diversas partes do globo. Estava dada a partida para o seu projeto. Ela decidiu criar o site e a partir de doações, resolveu embarcar em uma viagem por diversos países no intuito de registrar porque as pessoas, especialmente as mulheres, têm tantos problemas com sua autoimagem e tentar descobrir se há algo que poderia ser feito a respeito.

A viagem registrada no documentário, traz depoimentos de mulheres diversas, famosas ou não, especialistas, médicos, fotógrafos, editores de moda e muitos dados:

Não só os designers não queriam seus nomes associados às modelos fora do padrão, como os fotógrafos e maquiadoras também não.

A maior parte das mulheres está infeliz com seus corpos.

Quase metade das mulheres que são saudáveis e estão dentro da média corporal se consideram acima do peso

90% dos casos de bulimia e anorexia ocorrem com mulheres

Existem Pro-ana sites: sites que encorajam o desenvolvimento de anorexia.

Quando você odeia o seu corpo, você destrói vários aspectos da sua vida, afeta seus relacionamentos, seu trabalho, seus estudos…

Conforme vamos acompanhando os depoimentos, além de nos identificármos com eles, também é possível refletir porque algumas pessoas, como a atleta que teve seu corpo todo queimado durante um incêndio, consegue levar uma vida plena e produtiva ainda que sua imagem esteja completamente fora do que é considerado convencional.

Um dos fotógrafos entrevistados menciona que só deixamos de nos importar tanto com a nossa imagem quando passamos por algum evento traumático que reestabelece nossas prioridades, afinal, limitar nossas vidas à necessidade de parecermos com alguém que não existe é escravizante e nos impede de nos desenvolvermos mais plenamente em outras áreas de nossas vidas.

“Uma pessoa poderia ser perdoada se até os anos 80 ela acreditasse que existia apenas um tipo de corpo feminino no mundo e ele era de uma mulher de 1,80 m, loira, de olhos azuis, pele de plástico, porque na verdade ela é uma alienígena, ela não existe. O problema de mulheres se compararem o tempo todo com algo que não existe, ainda que de forma inconsciente é que se torna impossível alguém se olhar no espelho e se sentir bem com o que vê.”

É possível que o documentário ative alguns gatilhos, como aconteceu comigo, pois assistir ao depoimento de uma modelo anoréxica ou da modelo que veste 42 e é modelo plus size, que nos explicam que pouquíssimas mulheres são naturalmente tão magras como as modelos de passarela e que para se manterem magras além do normal, além do que é saudável, é necessário estar mesmo doente, mental e fisicamente.

Ainda assim, por mais chocante que alguns momentos possam ser, por mais que terminemos o filme com a certeza de que os padrões de beleza impostos socialmente e comercialmente são absolutamente inalcançáveis e insanos, a solução para que aceitemos nossos corpos como são, já que são os únicos que temos, não parece tão simples de ser alcançada. São séculos de uma cultura que nos define pela nossa imagem, pelos nossos corpos e quebrar esse ciclo envolve mais do que uma boa autoestima, envolve coragem para aceitar que possivelmente seremos socialmente excluídas ou preteridas em função de outras mulheres que se adequem.

É um longo processo e ele começa justamente com a reflexão sobre um problema e com o comprometimento em tentar revertê-lo.

“Uma cultura focada na magreza feminina não revela uma obsessão com a beleza feminina. É uma obsessão sobre a obediência feminina. Fazer dietas é o sedativo político mais potente na história das mulheres; uma população passivamente insana pode ser controlada”. ‒ Naomi Wolf


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial – ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.