Literatura Mútua: a cena de literatura e quadrinhos no Maranhão

A produção de literatura e quadrinhos no Brasil é grande, todos sabemos disso, e está espalhada por todo o território nacional, mas quando vamos falar de autores, conhecemos apenas os dos grandes centros do sudeste e um ou dois de outros estados. Para ampliar um pouco esse conhecimento, conversamos com a jornalista Talita Guimarães, a idealizadora do projeto Literatura Mútua, que realiza rodas de conversas com autores e leitores em São Luís, capital do Maranhão. Desde agosto de 2016 foram mais de vinte encontros, como ela nos conta nesta entrevista para o Minas Nerds. Ela também fala sobre o levantamento que está fazendo das mulheres quadrinistas no estado.

O que é o projeto Literatura Mútua? Qual o seu papel na difusão da literatura no Maranhão?

O Literatura Mútua acontece desde agosto de 2016 em São Luís-MA e é um projeto sem fins lucrativos de rodas de conversa entre autores-leitores comentando experiências de leitura, escrita e criação. Nos encontros, que são sempre gratuitos e realizados em equipamentos culturais públicos, escolas e bibliotecas, autores contam suas trajetórias desde as primeiras lembranças como leitores de mundo, os livros que marcaram a infância e adolescência, autores preferidos até como se tornaram escritoras e escritores. A grande questão do LM que é lançada aos autores e ao público é “o que as experiências de ler e escrever fazem comigo?”, como atravessam nossa percepção humana e transbordam em fazer criativo. Nosso objetivo com as conversas abertas é aproximar leitores de autores e vice-versa em ambientes de escuta e partilha mútua. Nesse sentido, o papel do LM na difusão da literatura no Maranhão tem sido ocupar espaços descentralizados pela capital São Luís levando autores para perto das pessoas e estabelecendo esse contato com a experiência que a leitura dos livros deles proporciona. Ontem (06/05/2017) completamos 22 edições em dez meses, já tendo conversado com 9 autoras e 8 autores, alguns mais de uma vez por causa da circulação literária que fazemos por espaços diferentes.

Como idealizadora e mediadora de todas as edições, faço questão de mergulhar na obra de cada convidadx para poder compartilhar também a minha experiência como leitora. Nos encontros, leio trechos para o público e é sempre um momento muito bonito de escuta, na presença da autora ou do autor.

Um dado que creio ser importante compartilhar sobre o projeto é que quando faço a agenda de edições convido um quantitativo igual de autoras e autores para distribuir no cronograma. Com as sugestões que vamos recebendo, os aceites e recusas, hoje estamos em 26 escritores vinculados ao LM, sendo 14 mulheres e 12 homens. Além de fornecer espaços equilibrados me preocupo em contemplar um cenário mais abrangente possível, sem restrição de idade, gênero literário, formação nem se tem livro publicado ou não. Importa que exista a experiência de leitura e escrita a ser compartilhada e disponibilidade para isso.

Foto: Talissa Guimarães
Edição do Literatura Mútua com a dramaturga maranhense Júlia Emília em novembro/2016 na galeria trapiche

Sabemos que aquela história de que o Brasil desconhece o Brasil é real. Ainda mais quando falamos de produção feminina e no nordeste. Como está a cena literária e de quadrinhos feitos por mulheres no Maranhão?

Sim, há esse lance de desconhecermos nossa própria produção e acho que isso está relacionado a vários fatores, sobretudo a uma invisibilização histórica da atuação feminina em várias frentes. Quando perguntamos quais as autoras da sua estante, não raro o silêncio é sepulcral. Quando passamos às quadrinistas então, aqui há um silêncio constrangido até, porque o meio cultural é falocêntrico, mas eles sabem que há mulheres produzindo, embora não chamem pra perto, não abram o espaço, não pesquisem mais para ao menos citar, convidar, reconhecer. É fato que os homens aqui se articulam mais e entre eles, o que muitas vezes nos afasta ou mesmo invisibiliza. Só que o fato de ainda não haver articulação feminina e a gente ter dificuldade para identificar essas mulheres não significa que não existam mulheres produzindo e é isto que precisa ser trabalhado na mente das pessoas quando acham que só porque não conhecem autoras para citar elas não existem.

Sempre tive um incômodo em São Luís em relação a falta de espaços de conversa, para a gente acessar essas pessoas e conhecer seus trabalhos. No caso específico das mulheres de São Luís, a ausência delas na mídia e nos raros eventos literários se dá por pura falta de pesquisa sobre quem são as artistas que estão produzindo, e que às vezes só não estão articuladas em um grupo que esteja em evidência. Com o levantamento das mulheres quadrinistas do Maranhão que o Literatura Mútua lançou em abril, em menos de uma semana nove artistas se identificaram através do formulário online que disponibilizamos na fanpage. Agora já estamos em onze! De ilustradoras à roteiristas, com portfólio e publicações, inclusive. Elas existem sim, estão na ativa e merecem ter seus trabalhos visibilizados devidamente.

Chamada pública para as mulheres quadrinistas do Maranhão

Você pode citar algumas autoras de literatura e quadrinhos que o projeto teve contato?

O levantamento, que visa identificar mulheres maranhenses ou residentes aqui que produzem quadrinhos – ilustradoras, desenhistas, roteiristas – , está na fase de chamada pública através do formulário online que pretende identificar os perfis de criação e interesses temáticos dessas artistas. Agora em maio devo começar a estabelecer contato com cada uma a fim de fazer entrevistas e em breve o Literatura Mútua fará uma roda de conversa com as artistas para que o público tenha oportunidade de ouvi-las e conhecer seus trabalhos.

Entre os nomes de mulheres relacionadas aos quadrinhos que já identificamos através do levantamento (cujo formulário é permanente, então a qualquer tempo novas artistas podem se identificar para manter nossa lista atualizada) estão Laísa Couto, Carolina Graça Melo, Mina Ribeiro, Camille, Andressa Aguiar, Adriana Beautywitch, Rosalice, Gabi Sousa, Julia Monteiro, Eva Braun e Ingrid Garcia.

Entre as autoras, de modo geral, que já conversaram com o LM estão Sabryna Mendes (MA), Thalita Rebouças (RJ), Duda Veloso (MA), Júlia Emília (MA), Manu Marques Barbosa (MA), Laísa Couto (MA) – que também é ilustradora -, Aurora da Graça (MA), Thayná Rosa (MA) e Déa Alhadeff (MA).

Foto: Talissa Guimarães
Edição com a escritora maranhense Sabryna Mendes na Biblioteca Municipal José Sarney no bairro de Fátima em março/2017

Qual a importância das rodas de debate, clubes de livros que estão se espalhando pelo país para o aumento do número de leitores?

Creio que oportunizar a produção de conhecimento sobre livros e autores é um dos maiores ganhos, porque nos encontros mantemos contato com leituras e interpretações múltiplas, compartilhamos nossa visão e a ampliamos ao escutar os outros. Além da chance de conhecer trabalhos novos e numa esfera afetiva não se sentir tão só, enquanto leitora ou criadora.

Aqui, por exemplo, temos o Clube do Livro MA, coordenado pela Fernanda Araújo, que faz há anos um trabalho lindo com encontros mensais para conversar sobre as leituras previamente estabelecidas e também promovendo rodas de conversas com autores. Já conheci muitxs autores graças ao CLM. São muito parceiros do Literatura Mútua, inclusive nessa troca de leituras. Desde que comecei a fazer o Literatura Mútua e a participar de grupos como o Leia Mulheres SLZ sinto que há um fortalecimento pessoal na vontade de criar e conversar mais sobre a produção, além do aprendizado imenso obtido com as leituras e conversas.

Quais são as próximas ações do Literatura Mútua?

O Literatura Mútua tem uma agenda de conversas com autores prevista até dezembro na Galeria Trapiche, equipamento cultural da Prefeitura de São Luís, onde nosso público é em geral formado por leitores adultos. Temos uma agenda especial na Biblioteca Municipal do Bairro de Fátima também cujo público é leitor em formação, estudantes da rede pública. Iniciamos em abril uma parceria com a Associação Maranhense de Escritores Independentes – AMEI para realização de edições do LM na Livraria e Espaço Cultural AMEI, que é um espaço novo aqui muito importante, pois é uma livraria inteiramente dedicada à literatura maranhense com mais de mil títulos só de autores locais e intensa programação com esses artistas.

Em relação ao levantamento das quadrinistas, o próximo passo é entrar em contato com as artistas identificadas para conhecer os trabalhos e posteriormente agendar a roda de conversa, que deve circular pelos espaços mencionados acima e onde mais nos quiserem.

Foto: Talissa Guimarães
Edição com a escritora e ilustradora maranhense Laísa Couto em março/2017 no Centro de Ensino São Cristóvão

Onde encontrar mais informações e como participar dos encontros?

Todas as informações sobre o projeto – agenda, entrevistas com autores, trechos de obras, vídeos e links – estão disponíveis na página Literatura Mútua no Facebook. Para participar é só acompanhar a agenda e ir aos encontros, que são gratuitos e dispensam inscrição. Para quem não pode comparecer, transmitimos as edições mensais da Galeria Trapiche pelo Facebook ao vivo e depois os vídeos integrais ficam lá na página também. Recebemos sugestões de autores e agendamos visitas a novos espaços através do inbox na página e do e-mail contato@ensaiosemfoco.com .

 

Links e contato – Literatura Mútua:

Facebook: https://www.facebook.com/literaturamutua/

E-mail: contato@hotmail.com

Site: http://ensaiosemfoco.com/literatura-mutua/

Contatos pessoais – Talita Guimarães

Facebook: https://www.facebook.com/tatguimaraes

E-mail: tat_guimaraes@hotmail.com

Site: www.ensaiosemfoco.com

 


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Roberta AR

Gosto de escrever (o que acabou virando trabalho) e de café. Participo da cena de quadrinhos independentes desde 2007, atuando principalmente na divulgação e na produção. Também sou zineira e escritora.