Como a linguagem influencia nosso pensamento?

No filme A Chegada ( Arrival, 2016), a tradutora e especialista em línguas vivida por Amy Adams, propõe que a forma como adquirimos uma determinada linguagem poderia influenciar nossa percepção do tempo, como se ao desenvolvermos processos cognitivos relacionados à aquisição de determinadas línguagens, seríamos capazes de entender o passado e o futuro de forma não linear.

Bom, a linguagem é possivelmente um dos elementos mais estudados quando o assunto é cultura. Sua aquisição, desenvolvimento, interpretação e os processos que a envolvem formam um vasto acervo de pesquisas em diversas áreas. Mas será que ela influenciaria nossa percepção do tempo e de outras coisas?

De acordo com o estudo “The Whorfian Time Warp: Representing Duration Through the Language Hourglass” (Distorção temporal whorfiana: representando duração por meio da ampulheta da língua, em português), publicado no dia 27 de abril no jornal da APA (Associação Americana de Psicologia), mostra que conceitos abstratos, como a percepção da duração do tempo, não são universais. (Matéria publicada originalmente aqui)

Ou, seja, a teoria conhecida como hipótese de  Sapir-Whorf – hipótese indica que nunca foi comprovada, por isso não se chama lei de Spair-Whorf, como ocorre com “lei da gravidade” –  defende que o processo cognitivo envolvido na aquisição e desenvolvimento de certas línguagens poderia influenciar na forma como compreendemos certos conceitos, ao contrário do que diz um dos maiores linguístas do mundo, Noam Chomsky.

Para Chomsky, a evolução humana e a do cérebro ajudaram a determinar a formação das línguas. “Quanto mais você examina os argimentos de Whorf, menos sentido ele faz”, disse o linguista Steven Pinker em 1994, em seu livro O Instinto da Linguagem.

Ainda assim, alguns experimentos mais recentes divulgados pelo Journal of Experimental Psychology, demonstraram que pessoas de diferentes países interpretam o tempo a partir da maneira como pensam o mundo, ou seja, a quantificação e a amplitude do tempo são entendidas de forma diferente por cada grupo estudado. “O que tudo isso sugere é que, sob certas condições, a linguagem pode ter um peso maior que a rapidez de pensamento. Isso quer dizer que somente o fato de seus pensamentos serem em certo idioma já pode ser responsável por uma desvantagem em determinada tarefa”¹.

De qualquer forma, para quem se interessa pelo assunto, existem estudos que apontam que o clima influencia na formação das línguas, ou que cada língua exige um processo cognitivo diferente para sua aquisição e isso determinaria nossa facilidade ou dificuldade em assimilar certos conteúdos. Por exemplo: a língua japonesa é formada por ideogramas, figuras que significam palavras. Assim como é feito na leitura de uma história em quadrinhos, precisamos ativar dois campos distintos do cérebro para realizar a interpretação da imagem e do texto simultaneamente. O que significa que ao falarmos japonês ou lermos uma HQ ou ao assistirmos um filme com legendas, estamos ativando partes do cérebro que não são normalmente usadas na leitura de um texto em português, por exemplo*.

Os efeitos que esses processos implicam são extremamente significativos. De acordo com diversos estudos apontados pela organização Dana, os processos cognitivos envolvidos na aquisição de outras línguas são responsáveis pela nossa melhor apreensão de conteúdos ligados a outras áreas do conhecimento que não possuem relação com a línguagem, como maior desenvolvimento do raciocínio lógico, possibilitando melhor desempenho em matérias exatas, desenvolvimento do pensamento crítico, relacionado à filosofia e política e melhor desempenho social, empatia, entre outros benefícios ligados à saúde também: pessoas bilíngues demoram mais a desenvolver demência e Alzheimer se comparadas às pessoas que falam apenas uma língua.

Portanto, se a linguagem não influencia em nossa percepção do tempo, a aquisição de diversas linguas nos proporciona maior compreensão de outros fenômenos, eventos e conhecimentos, além de preservar nossa sanidade mental por mais tempo.  O que por si só já justificaria a matrícula em uma escola de idiomas, não é mesmo? Exemplo de como somos beneficiados ao aprender outras línguas é que a reflexão proposta neste texto só foi possível com a fuência em inglês, possibilitando que tenhamos acesso a um maior número de matérias e pesquisas sobre um determinado assunto, para que possamos refletir sobre ele com maior profundidade e propriedade.

*A linguagem é a capacidade que os seres humanos têm para produzir, desenvolver e compreender a língua e outras manifestações, como a pintura, a música e a dança. Já a língua é um conjunto organizado de elementos (sons e gestos) que possibilitam a comunicação

Colaboração de Isabelle Tanjoni Tancioni, que sugeriu alguns dos textos citados.

Saiba Mais:

¹ http://super.abril.com.br/comportamento/o-idioma-que-voce-fala-altera-sua-percepcao-do-tempo/
http://revistagalileu.globo.com/Cultura/noticia/2016/11/entenda-teoria-linguistica-do-filme-chegada.html

 

 


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Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.