Mulher Maravilha salva o mundo e a DC

Mulher Maravilha (Wonder Woman – Patty Jenkins -EUA 2017) –  é um ÓTIMO filme. Não, não é uma obra-prima da sétima arte, mas é uma história bem contada, bem finalizada, bem produzida e convenhamos: tais fatos, tendo em vista as últimas produções da Warner/DC, significam uma vitória. Ao que parece a DC finalmente acertou a mão e mais: lançou, antes da Marvel, o primeiro filme com protagonismo feminino com uma das maiores heroínas dos quadrinhos. Ponto para a DC.

Trata-se de uma vitória também para nós mulheres. Mulher Maravilha, criação de William Moulton Marston (cuja origem já falamos muito sobre) lançada bem próxima de seus colegas de editora Batman e Superman na década de 30, NUNCA teve um live action no cinema em 75 anos de vida. A maioria de seus fãs se apegam, com nostalgia, apenas ao seriado estrelado por Lynda Carter na CBS, nos anos 70, como representação da heroína fora dos quadrinhos.

Isso faz muita diferença em cultura pop no sentido de fixação da mitologia, representatividade e significância da personagem no consciente do público. Pode fazer um teste: o público leigo conhece a Mulher Maravilha, mas a maioria não sabe dizer como ela surgiu, qual é sua origem. E vale a pena destacar que ela, juntamente com Batman e Superman, forma a TRINDADE da DC Comics. Os três nomes fortes que sustentam a editora.

Pois é justamente contar a história da origem da Mulher Maravilha o que a equipe de roteiristas (que contou inclusive com Zack Snyder e Geoff Johns) finalmente faz, destacando com fidelidade as suas raízes e seu desenvolvimento como  heroína, uma fórmula mais do que manjada e usada pelos filmes introdutórios de heróis da Marvel, por exemplo.

O roteiro se baseia em seu nascimento, na mitológica ilha de Themyscira, paraíso das amazonas, seu amadurecimento como guerreira e, posteriormente como mulher e heroína. Após salvar o piloto Steve Trevor (Chris Pine), que fugia dos inimigos alemães e foi parar por acidente no lar das amazonas, Diana decide acompanhá-lo ao mundo dos homens para lutar na Primeira Guerra Mundial (uma das únicas mudanças na origem das HQs, que se passa na Segunda Guerra).

Esse cenário mostrou-se perfeito para a integração de Ares, o Deus da Guerra (David Thelwlis, o Professor Lupin de Harry Potter), um dos maiores vilões da galeria de antagonistas da personagem. O filme também conta com a participação, ainda que mal explorada e secundária, da Dra Veneno – outra vilã da heroína nas HQs.

Podemos dizer, sem sombra de dúvidas, que grande parte do êxito do filme  está na direção de Patty Jenkins. A diretora é uma mestre em dirigir atores e tirar deles o que precisa. Fez isso com o incrível Monster de 2003, com Charlize Theron e Christina Ricci, e faz isso com Gal Gadot em Mulher Maravilha. Quando Diana finalmente deixa a perfeita Themyscira e vem para o mundo dos homens, apesar de ser uma mulher madura, é completamente ingênua, alheia a como nossa sociedade funciona. Essa transição, esse choque de realidades e finalmente a conclusão de Diana ao entender que nosso mundo não é tão preto no branco e literal quanto ela pensava, mas sim uma subjetiva e fortuita paleta infinita de cinzas, remete diretamente à origem da personagem pensada por Moulton Marston.  Na época, a DC havia pedido para que ele criasse um personagem tão icônico quanto o Superman mas tão patriota quanto o Capitão América, que estava roubando as vendas da editora por ocasião da II Grande Guerra. Uma das mulheres de Marston (que era poliamorista e vivia com duas mulheres) sugeriu que esse personagem fosse uma mulher. O autor e psicólogo, cujas pesquisas desenvolveram o polígrafo (detector de mentiras), acatou a sugestão justamente por ter provado estatisticamente em suas pesquisas que mulheres mentem menos e são mais bem sucedidas em resolver conflitos por meio de razão, justiça e amor. Portanto, essas são as bases originais da personalidade da Mulher Maravilha: Justiça, Verdade e Amor. E o filme respeita MUITO isso.

A Mulher Maravilha do filme é uma junção das diversas fases da heroína nas HQs e juntar todos esses retalhos, por si só, já caracteriza um trabalho primoroso e respeitoso da equipe de roteiristas.Temos a ingênua e claramente feminista Diana dos anos 40, temos a Diana claramente ligada às suas origens mitológicas dos anos 80/90, temos a Diana porradeira dos anos 00. A integração com o elenco também merece nota. A participação de Steve Trevor, coadjuvante e muitas vezes par romântico da heroína ao longo de sua trajetória foi NA MEDIDA. Apesar de Chris Pine interpretar o Capitão Kirk o tempo todo, Steve é um homem justo, decente, que expõe fragilidades do ego masculino as quais servem de escada para o humor certeiro e afiado de Diana, nunca no intuito de diminuí-lo mas sempre de questioná-lo.

As amazonas estão RICAMENTE representadas pela incrível Robin Wright como Antíope, a general amazona que treina Diana e apesar da diversidade étnica existir, faltou uma representação maior de amazonas negras e orientais em cena. Outro ponto baixo da película foi a caracterização da Rainha Hippolytha, mãe de Diana. Apesar de Connie Nielsen estar bem no papel, a personalidade da Rainha não foi bem retratada. Estereotipou o papel da mãe  demasiadamente preocupada e medrosa e deixou de fora uma de suas  principais características  nas HQs: sua dureza, pulso firme e exigência espartana com o desempenho de Diana em todos os âmbitos, o que sempre criou atrito entre ambas. Etta Candy, uma personagem que também fez parte da cronologia da MM foi sábia e pontualmente usada sem o perigo de se tornar irritante. E os parceiros nada ortodoxos de Steve Trevor, Samir (Saïd Taghmaoui) Charlie ( o impagável Ewen Bremner, de Trainspotting) e Chefe (Eugene Brave Rock) são um alívio cômico e enternecedor à trama, além de representarem lindamente uma rica diversidade étnica. 

Também não podemos deixar de fora a participação de Zack Snyder e de sua esposa Deborah na produção do filme. Por mais que critiquem a ação do diretor, integrá-lo à equipe de produção e direção de cena e arte foi crucial para o sucesso do filme. Snyder é um DCnauta, ama a característica mitológica e grandiosa que a editora carrega em seu DNA e trabalhou isso com maestria nas cenas de batalha, nos slow motions (bem usados dessa vez!!!) e na colorização (clara e colorida!) das cenas. Themyscira é incrível, os uniformes e penteados das amazonas são de extremo bom gosto, as coreografias de luta são estonteantes, cinematografia é cuidadosa, os diálogos são rápidos e bem humorados, o que não se via anteriormente em filme da DC.

Por fim, tem trilha sonora da Florence and The Machine, e a incidental de Hans Zimmer, sem contar o icônico tema da heroína, composto pela violoncelista Tina Guo. Mulher Maravilha é um filme que a personagem e as mulheres mereciam e merece entrar para a história como uma das melhores adaptações de quadrinhos para o cinema já feita.


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Gabriela Franco

Jornalista especializada em cultura pop, produtora, cineasta e mãe da Sophia e da Valentina Criadora do MinasNerds.