Lições do filme Mulher-Maravilha

Um dos filmes mais esperados do ano, Mulher-Maravilha arrecadou mais de 200 milhões de dólares no mundo todo em seus primeiros dias de apresentação e gerou polêmicas, análises, críticas positivas e negativas, revoltas e lágrimas…

Entre as pessoas que mais conhecem a personagem, como a neta de seu criador, Christie Martson, Trina Robbins – primeira mulher a desenhar a personagem, Gail Simone – roteirizou HQ dela, Greg Rucka – Atual roteirista, Travis Langley – escritor do livro A Psicologia da Mulher-Maravilha, entre outros, afirmam que não só o filme é espetacular, como Gal Gadot é a Mulher-Maravilha perfeita. Logo, se os maiores especialistas no assunto fazem tal afirmação, é de se desconfiar de opiniões contrárias, no mínimo.

Em pouco tempo, a quantidade de textos reflexivos inundou a internet com análises sobre representatividade, feminismo, patriotismo, entre outras questões que deixaram claro que o filme tem um impacto histórico significativo, por isso, vamos falar de alguns pontos levantados por críticos, fãs, haters e pelo público em geral.

RECEPÇÃO DIFERENTE ENTRE GÊNEROS

O conceito de recepção midiática é usado em estudos de comunicação para avaliar a relação dos receptores de uma produção artística com a a obra e com outros conhecimentos prévios. Também busca analisar a  atribuição de significados que cada receptor – ou seja, o público em geral – realiza quando interage com essas produções.

Nesse sentido, por meio de manifestações nas redes sociais, é possível observar que as reações entre homens e mulheres que assistiram ao filme, foi bem diferente: enquanto grande parte do público masculino assistiu apenas a um filme de ação, o público feminino participou de uma experiência completamente inédita e muito itensa. Não só na sessão que assisti, mas em relatos de amigas e participantes de grupos fechados, a ideia de que muitas mulheres se desmancharam em lágrimas ao longo da exibição se confirma.

“Assistir a um filme de super-heróis dirigido por uma mulher é como usar óculos pela primeira vez. Eu não percebia o quanto precisava espremer os olhos para conseguir enxergar através do olhar masculino, até que de repente, milagrosamente, eu não precisei mais.”*

Mulheres que nunca leram uma HQ da Mulher-Maravilha ou mulheres que esperaram a vida toda para assistir sua grande heroína nas telas, se viram diante de uma obra em que não só muitos de de seus sentimentos foram representados, mas também uma série de sensações reprimidas que vieram à tona em uma cena que já nasceu clássica: a travessia da Terra de Ninguém. Confesso que só de lembrar desta cena, meus olhos chegam a marejar, porque o sentimento que me tomou nessa hora foi algo inesperado e tão intenso, que eu não saberia descrever, mas que certamente justifica tanta gente indo ao cinema 3 ou 4 vezes para revê-lo. Não sei em que outra exibição as pessoas foram tantas vezes ao cinema em uma mesma semana para assistir a um mesmo filme.

LÁGRIMAS E REPRESENTATIVIDADE

Perguntei em um grupo internacional fechado no Facebook quem havia chorado durante o filme e, em algumas horas, cerca de 50 mulheres e alguns homens confirmaram que não conseguiram conter a emoção nas vezes que foram ao cinema – sim, os fãs que conheço já assistiram pelo menos 2 vezes.

Mas conversando com amigas e outras pessoas que estavam na mesma sessão que eu, todas com os olhos ainda vermelhos de tanto chorar, soube que o que foi compartilhado ali não tinha a ver com ser fã ou não da personagem. Muitas dessas mulheres nem tinham uma referência sobre ela, ainda assim, houve uma identificação instantânea com aquela figura poderosa que durante algumas horas nos convenceu de que somos super e de que vale a pena ter esperança e lutar pelo que acreditamos, ainda que o amor pareça um sentimento piegas e ultrapassado, pois se há algo que vale a pena na vida, é acreditar que o amor seja capaz de rompar barreiras e curar todos os males que assolam a humanidade.

Essa mensagem, extremamente forte, não chega a ser uma novidade. Todos os grandes líderes religiosos sempre deixaram bem claro que o amor ao próximo pode nos ajudar a contruir um mundo melhor. De Jesus a Ghandi, de Maria Teresa de Calcutá a Chico Xavier, o amor é o sentimento que fundamenta a luta da heroína mais icônica de todos os tempos.

Lenvando-se em consideração séculos de uma cultura que nos associa à subjetividade e emoção ao mesmo tempo que sempre nos diminuiu e tentou nos impor papéis sociais com os quais nem sempre nos identificamos, é compreensível que ao ver uma heroína nas telas, a nossa relação com a mensagem passada e com nossas próprias histórias revele uma sensação de empoderamento que raramente nos é concedida.

A ficção tem diversas funções. Entre elas, nos ajudar a atribuir sentido à realidade, por meio da identificação com certas narrativas. Tendo este direito negado na maior parte da vida, seja porque somos invisibilizadas cultural e socialmente, seja porque não temos acessos à certas narrativas, é apenas lógico que essa falta de representação afete nossa autoestima e nossa relação com o mundo. É por meio do outro que nossa existência é legitimada, pois o outro complementa nossa compreensão sobre nós mesmos, ou seja, se não nos vemos no outro, se não existem narrativas sobre nós, não existimos, ao menos, não completamente. Por isso que a questão da representatividade é tão recorrente nos textos e discussões que se dão nas redes sociais e que uma produção com a grandiosidade que é o filme da Mulher-Maravilha nos diz em alto e bom som: VOCÊS EXISTEM E VOCÊS SÃO INCRÍVEIS!

Tendo passado a vida ouvindo que deveríamos nos conformar com os espaços que nos são destinados e finalmente ter uma produção hollywoodiana legitimando a existência de uma heroína com uma mensagem tão forte, nos oferece uma experiência tão poderosa como a da própria Mulher-Maravilha se libertando constantemente das correntes nas HQ. Ela está nos dizendo que podemos! Sim, é assim que deixamos o cinema, com a certeza que podemos conquistar o mundo.

CRÍTICA, OPINIÃO E BIRRA

O conceito de crítica, de acordo com o filósofo Michel Foucault, nasce no momento em que o Estado, na Europa, deixa de ser vinculado à Ingreja, gerando assim, reflexões sobre como não gostaríamos de ser governados. Ou seja, a crítica teria surgido com o intuito de gerar uma reflexão que antecedia uma ação política.

Já a crítica artística, teria surgido entre a elite européia com o principal intuito de atribuir valor a uma obra a partir da observação de critérios estabelecidos por esta mesma elite, no que dizia respeito à forma e composição desta obra. Ainda antes disso, a ideia de crítica defendida por Platão visava apontar o que seria uma cópia ou obra menor a partir da comparação de uma produção original considerada adequada e outras obras que surgissem a partir dela. Ou seja, a crítica visava atribuir valor a uma produção a partir da observação de certos critérios previamente estabelecidos e sem os quais, tal manifestação artística não poderia ser considerada “boa”.

Um crítico de cinema geralmente é pago pra realizar o seu trabalho porque não só estudou pra isso, como se dedica quase que de forma exclusiva, a consumir diversas produções para que tenha subsídios de comparação. Porém, com o advento da internet, todos nos tornamos “grandes especialistas” em tudo. Por isso, seria possível dizer que grande parte de nós não está produzindo uma crítica, mas emitindo a própria opinião.

Não há nada de errado em emitir uma opinião, mas ao fazê-lo de forma pública, estamos sujeitos a todo tipo de  contra-argumentos por parte de quem não concorda com ela. Podemos considerar a opinião de pessoas que tenham gostos parecidos com os nossos se quisermos ter uma noção prévia sobre um filme ou livro, mas opiniões não são fundamentadas em critérios técnicos, mas em convicção. Se a convicção é algo que resulta da experiência de cada um e está ligada principalmente às nossas emoções e subjetividades, considerar a opinião de alguém deveria ser algo feito com muita cautela.

Ainda assim, o que pudemos observar é que o simples fato de uma obra ter sido produzida por uma mulher, levou críticos de diversos veículos de grande circulação a usarem seu espaço privilegiado para manifestar a própria birra, deixando claro que nem mesmo os mais sérios profissionais estão isentos de serem levados por suas emoções quando o assunto envolve algo que mexe com suas paixões. De repente, uma onda de textos misóginos, limitando a atriz aos seus atributos físicos ou diminuindo a capacidade da diretora em realizar o seu trabalho surgiram nas redes sociais, gerando respostas e revolta de diversos sites. Episódios que nos lembram que homens podem produzir qualquer lixo apenas por serem homens, afinal, afirmações categóricas sobre aspectos que nada têm a ver com questões técnicas da produção, não são crítica  e nem mesmo uma opinião, são discursos misóginos, performances de poder que visam lembrar as mulheres dos lugares que eles acham que deveríamos ocupar e que eles podem fazer isso, simplesmente porque sim.

MISOGINIA  E IDEOLOGIA

Entre as diversas opiniões propagadas pela internet, algumas foram bem recorrentes, geralmente criticando o excesso de CGI e chroma key nas cenas de luta, que realmente foi um dos problemas do filme. Porém, revoltas em relação ao “excesso” de câmera lenta, ao cabelo da Gal Gadot que fazia o filme parecer um comercial de xampu, aos diálogos que são inverossímeis, às piadas sem graça, à panfletagem feminista… entre outras tantas, me fizeram pensar sobre a indignação seletiva desses homens – sim, todas essas “críticas” partiram de homens, ou seja, misoginia mesmo. Posso fazer essa afirmação de forma categórica porque tenho 40 anos, acompanho críticas desde sempre e NUNCA na minha vida tive que ler a mesma quantidade de críticas desse nível sobre qualquer outro filme produzido por um homem.

Não só isso, pessoas que são tão intolerantes com questões de verossimilhança, deveriam ser intolerantes o tempo todo, não? Mas se a sua intolerância se revela no filme da Mulher-Maravilha, sem que você nunca tenha se manifestado contra problemas de verossimilhança nas revistas masculinas – Oi? mulheres não se parecem com as modelos das revistas, nem dos filmes pornográficos, nem com as roupas ridículas e posições impossíveis – peitos e bundas no mesmo plano, nem com o tal do buraco nonsense do filme do Batman, nem com todas as vezes que mulheres precisaram ser estupradas, mortasm violentadas para que o protagonista masculino tivesse sua luta justificada, nem com o gel no cabelo do Superman, nem com a quantidade de estupros em Game of Thrones – narrativa que não tem absolutamente ligação alguma como qualquer período histórico, mas você se incomoda com o cabelo esvoaçante da Gadot, com os diálogos do filme da Mulher-Maravilha, bom, então você não tem problema algum com verossimilhança! Você está apenas sendo misógino, do contrário, teria feito textão em cada uma das ocasiões que mencionei.

Quanto ao fato de ser panfletário – bom, não vi nenhuma mulher sair do cinema dizendo que iria matar homens ou meninas querendo virar lésbicas, ou qualquer outra atitude que justificasse tal afirmação. Se Diana vez ou outra faz alguma piada com o fato de mulheres serem oprimidas, bom, mais uma vez, se isso o incomoda, por que a aparição de mulheres nuas em um filme sem o menor contexto não o irrita da mesma forma? Por que o fato de James Bond sempre transar com mulheres lindíssimas e muito mais jovens não o incomoda? Isso não é panfletário? Não é uma propaganda clara de uma mentalidade extremamente machista que visa, acima de tudo, a manutenção de um status quo?

Não, caro amigo, não existe isso de “um filme deveria ser só entretenimento” quando obras não são desconectadas com o contexto em que estão inseridas e se você estudasse um pouco sobre as histórias dos quadrinhos ou mesmo do cinema, saberia que a política e a realidade ditam muito do que se passa em uma história. Basta contar quantas menções ao 11 de setembro aparecem nas produções artísticas americanas após o ocorrido. Então, o que você está dizendo é que quando um posicionamento endossa seu ponto de vista, ele é entretenimento, mas quando não, é panfletário.

Embora o conceito de ideologia possua algumas definições, no senso comum ela é um conjunto de ideias e valores compartilhados por determinado grupo com o intuito de garantir a manutenção de uma estrutura ou de modificá-la. Nesse sentido, ao pensarmos em filmes como Matrix, Capitão América e o Soldado Invernal, Avengers e tantos outros, ideologias mais conhecidas como anarquismo, socialismo, liberalismo… são facilmente identificadas, seja em forma de apologia ou de crítica a elas. Logo, dizer que Mulher-Maravilha é panfletário, como se outros filmes também não o fossem, só indica uma seletividade cognitiva e ignorância sobre o que significa ideologia. É o mesmo que dizer que você não toma água, porque prefere H2O.

Um filme histórico merecia uma análise detalhada. Se ele é bom ou não, esse é um juízo de valor que somente quem assistiu ao filme pode avaliar. Tecnicamente, isso cabe aos críticos profissionais, embora grande parte deles tenha esquecido qual é o seu papel nessa história. E não importa! É um filme necessário, que demorou tempo demais para ser produzido. Com centenas de filmes de heróis já realizados, bons e ruins, uma personagem que tem 75 anos e é a heroína mais icônica da história dos quadrinhos só ter chegado ao cinema agora, certamente revela muita coisa sobre as questões de gênero que estamos tão longe de resolver.

Referências:

*http://creativewordspowerfulideas.tumblr.com/post/161378925721/watching-a-super-hero-movie-directed-by-a-woman-is

https://www.newsarama.com/34781-wonder-woman-s-granddaughter-christie-marston-on-the-success-of-her-grandparents-superhero-icon.html

http://www.newyorker.com/culture/cultural-comment/wonder-womans-unwinnable-war

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Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.