O livro antiguerra que marcou a literatura americana

Texto de Marcela Tang

O autor

James Dalton Trumbo nasceu em Montrose no estado americano do Colorado em 1905, mas sua família  mudou-se mais tarde para a Califórnia em busca de mais dinheiro. Após a morte de seu pai, Trumbo entrou para a Universidade do Sul da Califórnia no mesmo período em que começou sua carreira como escritor. Ele começou escrevendo contos e pequenos artigos para revistas como Vanity Fair e The Hollywood Spectator. Em 1934 ele conseguiu seu primeiro emprego na indústria do cinema nos estúdios da Warner Bros. e após a publicação do seu primeiro romance, Eclipse, em 1935, foi promovido à posição de roteirista, mas foi logo demitido devido a suas posições políticas e seu envolvimento com a ala da esquerda da Liga dos Roteiristas. Posteriormente foi contratado pela Columbia e em 1940 já era um dos roteiristas mais bem pagos de Hollywood.

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, Trumbo e outros roteiristas de Hollywood foram convocados pelo senado americano para se pronunciar em frente à um comitê que investigava condutas consideradas subversivas ao modo de vida americano. Dez desses homens, incluindo Trumbo, se recusaram a responder às perguntas do Senador Joseph McCarthy sobre seu envolvimento com o partido comunista, assim como se recusaram a nomear outras pessoas ligadas a  movimentos de esquerda. Trumbo e os outros foram condenados à prisão e entraram para a lista negra da indústria cinematográfica.

Apenas em 1959 ele pode voltar a escrever roteiros de forma legítima e retomar sua carreira de sucesso.

Trumbo concebeu a ideia para Johnny vai à guerra após a leitura de um artigo que mostrava a visita do Príncipe de Gales a veteranos canadenses em um hospital, entre eles estava um soldado que havia perdido todos os membros e os sentidos. O livro foi publicado em 1939, dois dias antes do início da Segunda Guerra Mundial e voltou a ganhar  popularidade durante a guerra do Vietnã principalmente entre grupos que protestavam contra a guerra.

 

O livro

O protagonista, Joe Bonham é um soldado americano que lutou durante a  Primeira Guerra Mundial e no começo do livro se encontra  preso à uma cama de hospital em algum país indefinido. Embora esteja consciente, Joe é incapaz de se comunicar com qualquer pessoa a seu redor devido à seus graves ferimentos. Por causa de uma bomba que explodiu dentro de sua trincheira, Joe acabou tendo seus dois braços  e as duas pernas arrancados. A explosão também causou severos danos ao seu rosto, do qual a parte inferior foi totalmente destruída, além de seus olhos e ouvidos também não existirem mais.

Incapaz de falar, ou se mexer, Joe passa o tempo todo relembrando seu passado na pequena cidade de Shale City no Colorado, ele pensa na família, nos amigos e na namorada que deixou para trás.

A narrativa muda do passado, no qual sabemos mais sobre a vida simples que ele levava em sua comunidade,  para o presente onde ele analisa a terrível situação em que se encontra e luta contra a aterrorizante realidade.

Joe tenta ocupar sua mente elaborando formas de contar o tempo utilizando apenas a porção de pele que restou em seu corpo e a interação com as enfermeiras que cuidam dele. Além disso ele passa muito tempo avaliando sua decisão de ter se juntado ao exército e ao caminho que o levou à presente situação.

 

Contexto

 

Johnny vai à guerra é claramente um livro antiguerra. Enquanto a raiz para esse sentimento é claramente a brutalidade da guerra, o livro também protesta contra a dinâmica em si  da guerra na era moderna que tem os interesses das classes privilegiadas pelo capital como principal objetivo. O personagem pensa em termos de dualidade de classes, tendo o arquétipo do homem simples se referindo às classes mais pobres que trabalham duro para conseguir dinheiro o suficiente apenas para ter uma vida relativamente confortável dentro de sua comunidade local e do outro lado estão as classes abastadas e privilegiadas pelo dinheiro, cujos interesses ditam os caminhos da política internacional e das guerras, mas sem se colocar diretamente na frente de batalha para defender tais interesses, utilizando-se dos trabalhadores para esse fim e enviando-os para a batalha contra outros trabalhadores.

Trumbo mostra que a opressão da classe trabalhadora pelos mais ricos não se trata apenas de coerção e elabora bem como o poder opera através de meios mais sutis, como o apelo a ideais abstratos como “Democracia”  e “Liberdade” que são comumente usados para elevar a moral das tropas e justificar as baixas sofridas.

Com o passar do tempo, Joe chega à conclusão de que a guerra não tem nada a ver com pessoas como ele, que não têm absolutamente nada a ganhar com isso. Ele começa a enxergar com desconfiança o valor desses ideais abstratos e entende que “Liberdade” e “Democracia” podem possuir inúmeros significados e com grande regularidade vão significar liberdade e direitos apenas para uma parcela muito pequena da sociedade. Para ele, os valores do homem simples se encontram na família e na comunidade da qual fazem parte. De sua posição única no limiar entre a vida e a morte, Joe é capaz de dizer que para os que morrem na guerra, liberdade e democracia não significam nada perto do valor de suas vidas perdidas e que a dor, a morte e as mutilações causadas pela violência da guerra não se tornam mais nobres porque alguém disse que foram em nome de algum ideal abstrato e devem ser evitadas a todo custo.

 

O corpo mutilado de Joe também é parte central para outra discussão diretamente ligada às consequências da guerra moderna. Joe analisa as circunstâncias que o levaram a sobreviver mesmo com ferimentos tão graves e acaba culpando os médicos por isso. Além do horror de tomar consciência do seu atual estado, Joe relembra outros homens que ficaram gravemente feridos no campo de batalha e se tornaram monstros aos olhos da própria sociedade. Trumbo mostra a medicina moderna praticada nos campos de batalha como uma luta de egos. A medicina nesse contexto serve menos para acalentar a dor e curar o sofrimento humano e mais como um contribuinte para a formação de monstros. Para o autor, os médicos encontram nos campos de batalha uma fonte inesgotável de cobaias para seus procedimentos, colocando o prestígio de manter um homem vivo, sem nenhuma qualidade de vida, acima da ética e do bem estar humano.

 

A insatisfação do autor com o capitalismo também encontra voz nas lembranças de Joe, que em muitos pontos são quase autobiográficas do próprio Trumbo. O sentimento de nostalgia que permeia a obra nas lembranças do protagonista e faz um forte contraponto aos momentos mais densos da história. A vida simples da pequena comunidade, a produção autossustentável dos pais de Joe que proviam comida e roupas para a família durante o ano inteiro são temas recorrentes das memórias do personagem. Joe chega à conclusão de que aos olhos de uma sociedade capitalista, seu pai era um fracasso, mesmo que pudesse alimentar sua família melhor do que a maioria das pessoas ricas de uma grande cidade e dar aos filhos uma vida sem sofrimentos, seu pai nunca fora capaz de acumular dinheiro, o que o tornava um fracasso aos olhos de uma sociedade guiada pelo acúmulo de capital como medidor para o sucesso.

 

Johnny vai à guerra é um livro essencial para os tempos atuais e seus temas continuam relevantes mesmo após 70 anos de sua publicação.

Ficha Técnica – Via Amazon.

  • Capa comum: 232 páginas
  • Editora: Biblioteca Azul (14 de abril de 2017)
  • Idioma: Português
  • ISBN-10: 8525062030
  • ISBN-13: 978-8525062031
  • Dimensões do produto: 20,8 x 13,4 x 1,6 cm
  • Peso do produto: 259 g

 

 


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Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.