Laerte-se! A genialidade não tem gênero

Produzido pela Netflix e realizado por  Eliane Brum e Lygia Barbosa, Laerte-se é um documentário imprescindível para quem já conhece o trabalho de uma das artistas mais relevantes do Brasil e para quem gostaria de entender um pouco melhor como sua transição de gênero impactou sua obra.

Algumas coisas me chamaram atenção no filme, mais que outras. Embora tenhamos a tendência de tratar a artista como uma celebridade, ao assistir o documentário descobrimos que esse tipo de tratamento a incomoda um pouco. Não só porque Laerte é gente como a gente, mas principalmente, porque sua humildade parece não lhe deixar compreender a importancia de sua obra para para o país.

Tendo produzido muitas charges durante a Ditadura e com um trabalho sempre ácido e contundente, grande parte de sua produção sempre foi marcada pelo tom de crítica política ou social, por isso que sua relevância é confirmada por todos aqueles que sempre acompanharam seu trabalho.

No entanto, desde que começou a passar por seu processo de transição de gênero, seu trabalho acompanhou suas mudanças, refletindo então sua identificação com questões LGBT, trazendo à tona o preconceito e o descaso sofrido por uma comunidade que costuma ser invisibilizada, mas sempre fazendo isso com humor.

Por isso, ao assistir o documentário, temos a sensação de estarmos diante de alguém muito próximo, que conhecemos de longa data, pois toda a produção é levada em tom informal, de bate-papo. E durante o bate-papo nos chocamos ao saber que Laerte, assim como muitos de nós, também já caiu na armadilha da síndrome do impostor, aquela sensação de que o que fazemos não está bom o suficiente ou de que somos uma fraude.

Saber disso é reconfortante, afinal, se alguém cuja genialidade transcende qualquer adjetivo sente insegurança às vezes, bom, então nós, os mortais, estamos liberados para sentir o mesmo. E apesar da aparente timidez em se sentir tão exposta, Laerte acaba nos contando, de forma muito natural, sobre suas neuras, seus medos, seus anseios e todo tipo de sentimentos envolvidos em sua identificação com o gênero feminino.

Apesar de tratar a questão da materialidade dos corpos de forma superficial – esse é um tema delicado para o feminismo radical –  Laerte acredita que sua identificação como mulher não é algo definitivo e sólido, pois entende que ainda está em processo de auto-conhecimento e, portanto, afirmações categóricas acerca de sentimentos complexos, são perigosas.

De qualquer forma, gênero não deveria ser algo que limitasse o acesso de alguém a direitos básicos ou à livre expressão, afinal, somos plurais e uma sociedade justa e igualitária deveria estar acessível a todos os cidadãos, como é garantido por lei, mas na prática, pessoas trangênero são as que mais morrem em decorrência de LGBTfobia ou em decorrência da falta de acesso à políticas públicas e direitos básicos que lhes garantam boa qualidade de vida.

Por isso, o posicionamento de Laerte representa não só uma resistência diante de uma sociedade transfóbica, como também uma inspiração para quem se identifica com a artista. Assim, assistir ao documentário e ouvir dela mesma sobre o seu processo de transição, sobre suas dúvidas e como tudo isso impacta sua produção é, acima de tudo, um exercício de empatia que nos lembra que a genialidade não tem gênero.

 


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Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.