Febre dos doramas no Brasil – Entrevista com Ana Andrade

Texto e entrevista de Marcela Tang


Não é novidade que a cultura pop asiática está no seu melhor momento dos últimos anos. De acordo com informações da  Korean Creative Content Agency que analisa os dados de exportação da Coréia do Sul, as exportações de itens culturais incluindo música, jogos, programas de entretenimento, etc teve um crescimento de 10.5% em 2014 o que rendeu aproximadamente 58.5 bilhões de dólares para o país. A Hallyu Fever, como são definidas as tendências de moda, gastronomia, música, filmes e seriados produzidos na Coréia do Sul, vem se espalhando pelo mundo nas últimas duas décadas e parece ter encontrado o Brasil de braços abertos para esses produtos.
Embora, a Coréia do Sul não seja o único país asiático a produzir tais conteúdos, o sucesso de suas produções ajudou a pavimentar o caminho no ocidente para conteúdo vindos da China, Japão, Tailândia, Indonésia, Taiwan, entre outros e o carro chefe dessas produções são os famosos “doramas”, as novelas produzidas nesses países.

Com um formato um pouco diferente das novelas brasileiras, os doramas costumam ser bem mais curtos em duração, dificilmente passando de 60 episódios, embora o mais comum seja uma duração que varia entre 12 e 20 episódios por produção que são transmitidos em 1 ou 2 dias por semana. Os temas são bem variados:: Da ficção científica, passando pelos procedurais de investigação, até os romances históricos que retratam as intrigas palacianas das dinastias do passado, tem para todos os gostos.
Ainda não existe uma resposta definitiva para a popularidade dos doramas no ocidente, mas podemos apontar sua importância como uma válvula de escape para a falta de representação de grupos asiáticos, a chamada  invisibilidade asiática, nas produções do ocidente, já que  imigrantes e descendentes de asiáticos têm um importante papel na divulgação desses conteúdos por aqui, o canal filipino (TFC), por exemplo, já conta com mais de 2 milhões de assinantes fora de seu país de origem, o que mostra a necessidade de seus assinantes de manter algum contato com sua cultura natal.

No ano passado, a revista Teen Vogue mostrou que apenas 1% dos papéis principais em Hollywood são representados por asiáticos e os atores pertencentes a esses grupos étnicos normalmente vêem suas opções reduzidas a papéis estereotipados como os geeks, capangas, prostitutas, terroristas, o asiático místico, a dona do salão de manicure, etc. Sem comentarmos casos famosos de White Washing, como o do ator norte-americano de ascendência chinesa, Edward Zo que foi impedido de auditar para o papel o personagem principal na adaptação live action do anime Death Note, produzida pela Netflix.
Em seu artigo White Washed Out: Asian American representation in media, a pesquisadora Helen Yang da Duke University aponta que essa falta de representatividade alimenta o racismo sistêmico da sociedade e perpetua noções construídas sobre estereótipos ofensivos que estão relacionados à baixa autoestima desse grupo.

É para falar um pouco mais sobre esses assuntos e sobre as produções de doramas que convidamos para conversar a Ana Andrade, tradutora que trabalha para o DramaFever há 3 anos junto com o grupo oficial de traduções DramaFans.

De acordo com a própria Ana “O DramaFever é um site de streaming de dramas, filmes, programas e documentários asiáticos. Fundado no ano de 2009 e atualmente faz parte da empresa Warner Bros.”

O DramaFever opera no Brasil há 3 anos e conta com inúmeras produções legendadas em português, a plataforma funciona da mesma forma que a Netflix, disponibilizando conteúdos exclusivos para seus assinantes.

Vamos à entrevista:

Quando foi o seu primeiro contato com os dramas? Qual foi a sua primeira impressão?

 

– O meu primeiro contato com um drama foi em 2006, onde eu migrei dos animes para o meu primeiro drama japonês, chamado Anego. Lembro que fiquei dias tentando baixar o drama, e quando consegui, fiquei encantada por perceber como a cultura era tão diferente da nossa! Línguas asiáticas sempre me chamaram atenção. Mas me lembro que meu primeiro grande amor foi 1 Litro de Lágrimas, que assisti anos depois e que hoje é conhecido como um clássico entre os dramas japoneses e eu recomendo muitíssimo!  A história é linda e muito tocante.

Nós estamos vendo um momento em que a “Yellow Fever” parece estar chegando com força no ocidente, na sua opinião, o que está atraindo os telespectadores ocidentais para os doramas?

Acredito que eles são atraídos pelas grandes produções, principalmente vindas da Coreia do Sul. O país tem uma cultura muito forte envolvendo a criação de grupos que atuam no K-pop, com empresas que investem milhões em treinamento de jovens e até mesmo crianças para lançá-los na mídia anos depois. Quem chega no K-pop, acaba sendo levado para os dramas coreanos, chineses, taiwaneses… E acredito também que os fãs de animes acabam se aprofundando nos dramas japoneses, como eu. E a internet acaba nos trazendo esses conteúdos com legendas em diversos idiomas. E eu acho que esse era o último empurrãozinho que faltava para a “YellowFever” começar e se intensificar no ocidente.

No ano passado nós pudemos observar uma crescente discussão sobre a falta de representatividade de minorias étnicas no cinema e na TV do ocidente, principalmente no que sai dos Estados Unidos e alcança o resto do mundo, o que acabou culminando na campanha #OscarissoWhite e no começo de 2017 houve a questão do White Washing em diversos filmes blockbuster. Podemos falar que os dramas vindos de países como a Tailândia, Taiwan, Coréia do Sul, Filipinas, etc, são uma opção à invisibilidade asiática no ocidente?

 Acredito que os dramas sejam sim uma opção, mas não uma solução para o problema. Com a crescente exposição de dramas vindos dos países citados, acredito que a rejeição fique cada vez maior diante das produções que falham miseravelmente em representar minorias étnicas. Espero que essa rejeição cause pressão e assim seja possível vermos mais etnias na TV e cinema do ocidente no futuro, e não só como papel de apoio estereotipado, e sim com protagonismo e voz cultural. Mas é claro que essa é minha opinião como uma mulher branca que trabalha com esse conteúdo, uma pessoa asiática poderia responder muito melhor.

6) O que você acha da representação feminina dos dramas? Quais os temas mais recorrentes?

 

– Posso dizer que os temas mais recorrentes retratam uma mulher que ainda precisa se desfazer das amarras da sociedade patriarcal asiática. Mas também fico feliz em dizer que há um aumento de dramas em que a protagonista é extremamente forte e não precisa de um salvador. E eu acho isso maravilhoso, como aconteceu em um dos meus favoritos deste ano: Strong Woman Do Bong Soon. O drama bateu recordes de audiência na Coreia e também foi e é muito assistido no site DramaFever. Também vimos dramas como Age of Youth e Ode to Joy, onde a história é focada em um grupo de mulheres protagonistas e na sororidade entre elas; os romances ficam completamente em segundo plano ou nem mesmo existem. Com a alta audiência, acredito que os roteiristas vão investir em histórias assim cada vez mais. O exemplo disso é que os últimos dois dramas citados ganharam uma segunda temporada!

Strong Woman Do Bong Soon

Os dramas já sofreram muitas críticas por muitas vezes romantizarem relacionamentos abusivos, os famosos puxões pelo braço, gritos, ameaças em nome do amor etc. Você acha que isso está mudando nos dramas mais novos, ou ainda é um problema recorrente?

– Ainda é um problema recorrente, preciso admitir. Mas estes dramas fazem cada vez menos sucesso, e dramas com protagonistas com voz e que sabem dizer “não” crescem cada vez mais aos olhos do público.

 Na sua opinião, os dramas são inclusivos com outras questões como a representação de casais homoafetivos? O que falta em termos de representação?

 

– Não, eles não são. E pessoalmente, é uma coisa que me desagrada muito. Como uma mulher que faz parte da comunidade LGBTQ+, gostaria de ver representatividade nos dramas asiáticos. Não consigo nem dizer em específico o que falta, porque falta tudo. Há dramas em que o protagonista finge ser gay para conseguir a confiança da mulher e também dramas que estereotipam aquele “amigo gay”.  O primeiro beijo lésbico na TV sul-coreana aconteceu no drama Detectives of Seonam Girls’ High School em 2015, e chegou a ser analisado pela Comissão de Padrões de Comunicação da Coreia, que cuida da censura de conteúdos na TV e na internet sul-coreana, com alegações de que seria uma violação à política de transmissão. Então, minha nossa, ainda falta muito para caminharmos pela representatividade nos dramas.

Detectives of Seonam Girls’ High School

Você acredita que a TV tem o poder de promover uma mudança social? Ou essa parte majoritariamente da pressão social quanto ao conteúdo e forma dos programas?

– Acredito que sim, a TV tem grande fator e o poder de influenciar a população. Se usada da forma certa, com certeza ela pode promover mudanças sociais. E acredito que a pressão, principalmente vinda da internet, pode direcionar o conteúdo da TV na direção certa, mesmo que a passos de tartaruga.

 Você pode indicar os seus atuais favoritos para quem quiser começar a conhecer os dramas?

– Claro que posso indicar! Se vocês estão procurando representatividade LGBTQ+, assistam a Reply 1997 e Love or Spend. Além dos dramas que já citei sobre protagonistas fortes, preciso indicar Dear My Friends, onde as protagonistas são senhoras que mostram que a vida não acaba quando envelhecemos. Scarlet Heart Ryeo traz um personagem da história coreana para um drama que envolve realidade e ficção. Goblin é com certeza uma fantasia envolvente que bateu recordes de audiência na Coreia, é um must! E por último, eu indico It’s Okay That’s Love, um drama que trata de transtornos mentais de uma forma que nunca vi antes em um drama asiático, e até hoje é o meu drama favorito, levantando discussões importantíssimas, dá até para assistir com a família! E é claro, todos os dramas citados estão disponíveis com legendas em português no DramaFever!

ode to joy

 

 


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.