App brasileiro contabiliza interrupções sofridas pelas mulheres

Matéria da Lizandra Magon de Almeida

O aplicativo Woman Interrupted, desenvolvido pela filial brasileira da agência BETC/Havas, foi criado depois das eleições norte-americanas, quando o mundo inteiro presenciou Donald Trump interrompendo Hillary Clinton dezenas de vezes

O programa de TV termina e Emily Evans, jornalista da rede norte-americana ABC, conta para seus dois colegas: “Hoje vocês me interromperam 16 vezes”. Diante da surpresa, ela mostra o celular com o aplicativo que registrou todas as vezes em que foi interrompida por seus colegas homens. Mesmo constrangido, um deles ainda tenta fazer piada: “Vamos garantir que da próxima sejam 20”, diz ao outro homem na bancada.

Para falar do aplicativo Woman Interrupted, a jornalista manteve o app ligado no ar e comprovou: as mulheres são muito mais interrompidas pelos homens do que o contrário. Esse é apenas um exemplo do uso do aplicativo criado no Brasil, pela equipe da agência de publicidade BETC, que faz parte do grupo francês Havas, comandada pelos publicitários Gal Barradas e Ehr Ray. “Sempre fui muito fã da BETC, porque ela sempre foi uma das agências mais criativas do mundo. Estava em dúvida se trabalharia de novo em agência ao sair da F.Biz, mas quando fui convidada para este projeto, quis ouvir o que os franceses tinham a dizer”, conta em entrevista ao MinasNerds.

Além das questões de gênero, a agência tem como foco a igualdade, diz Gal Barradas, e já recebeu prêmios de instituições na área de sustentabilidade de instituições como EcoVadis, que certifica projetos de reconhecido valor ambiental, e de direitos humanos da própria ONU, entre outros que premiam iniciativas similares. A matriz da agência hoje é um galpão na periferia de Paris que já foi um dos templos do grafite na cidade. Para preservar sua vocação inicial, a agência filmou todo o espaço e entrevistou os grafiteiros, e hoje permite que qualquer pessoa visite o local com um óculos de realidade aumentada que permite visualizar o espaço como era.

Barradas conta que a ideia de criar o aplicativo surgiu em 2016, quando o termo manterrupting invadiu a mídia norte-americana. “Fomos estudar o assunto e descobrimos que há vários estudos a respeito, principalmente nas universidades norte-americanas. E como participamos de muitas reuniões, com muitas empresas, fomos observando isso também em nosso ambiente real. Muitas vezes isso passa desapercebido, mas a cultura machista é muito forte no ambiente das empresas e muitos homens nem se dão conta do que fazem”, explica a publicitária.

“Pensamos então em uma campanha, porque sempre estamos querendo ajudar a fazer esses tipo de transformação, mas quando vimos as matérias sobre Trump e Hillary – uma reportagem contava as 51 vezes que ela tinha sido interrompida – pensamos no app. Seria uma ferramenta que contaria quantas vezes uma mulher era interrompida, especialmente em ambientes de trabalho.”

O projeto levou seis meses para ser concluído, porque passou por uma bateria de testes. Segundo Gal Barradas, era preciso ter certeza de que não haveria falhas, para que não caísse em descrédito. “Isso acabou sendo ótimo, porque coincidiu com o Dia Internacional da Mulher e gerou uma repercussão muito maior.”

O app foi alvo de reportagens nos principais sites brasileiros e internacionais, e também apareceu várias vezes na TV. Esta semana, foi a vez de um artigo no blog do The New York Times.

O app foi desenvolvido pela equipe da agência, que também pediu a alguns artistas que desenhassem cartazes representando o silenciamento das mulheres. Foram enviados mais de cem pôsteres, de várias partes do mundo, acompanhados de depoimentos de meninas sobre o assunto. Quarenta e cinco deles podem ser baixados gratuitamente do site do app , que está disponível em português, espanhol, francês e inglês, para Android e iOS.

Gal Barradas acredita que as empresas devem apoiar causas sociais. “No caso específico da igualdade de gênero, há razões muito claras pelas quais o mercado deve se engajar. Somos todos criados com o ideal masculino da competitividade, aquela coisa de virar a noite trabalhando, de ver quem produz mais. E sabemos que isso não funciona. Além disso, 85% do poder de consumo hoje está na mão das mulheres, é diretamente influenciado por elas. Então é mais do que óbvio que devemos fomentar a diversidade”, afirma.

A partir das pesquisas estudadas, foi possível entender melhor o mecanismo do manterrupting e seu efeito sobre as mulheres. “Quantas vezes não ouvimos uma mulher dizer: ‘Ah, eu ia falar, mas resolvi ficar calada?”, pergunta. “Nosso objetivo é jogar luz sobre o problema, porque se ele não é mencionado, não é questionado.”

“Queremos que os homens se perguntem: será que estou fazendo isso sem perceber? Afinal, do que adianta ter mais mulheres em uma sala de reunião se ninguém escuta o que elas têm a dizer?”. É o que milhões de mulheres se perguntam, todos os dias.

 

Dados Manterrupting e Igualdade de Gêneros – release do apliativo

 

– A Ipsos lançou pesquisa em março de 2017 que revela que 41% das brasileiras sentem medo de falar e defender a igualdade de direitos das mulheres por causa do que poderia acontecer com elas. Nesse quesito, o Brasil ocupa a 3ª colocação e só fica atrás de Índia (54%) e Turquia (47%). O consolidado global é bem menor: 26%.

 

– Um estudo realizado em 2014 na Universidade de George Washington (EUA) e liderado por Adrienne B. Hancock, pesquisadora de comunicação e gênero, mostrou que mulheres são duas vezes mais interrompidas que homens em conversas neutras.

 

– O cientista político e pesquisador Christopher Karpowitz, da Universidade Brigham Young, nos Estados Unidos, identificou que em situações de trabalho, além de sofrerem interrupções, as mulheres falam menos. Segundo a pesquisa “Desigualdade de Gênero em Participações Deliberativas”, realizada por ele em 2012, os homens falam durante 75% do tempo em discussões de trabalho.

 

– Uma pesquisa feita pela Credit Suisse revela que, entre as 3 mil top empresas globais, apenas 14,7% de executivos em altos cargos são mulheres. No cargo de CEO, esse número cai para 3,9%. E, mesmo quando alcançam essas posições, não é garantido que suas ideias serão ouvidas.

 

– 85% do poder de decisão de compra no mundo está nas mãos das mulheres. (Fonte: Greenfield Online for Arnold’s Women’s Insight Team)

 

– Empresas com maior diversidade entre seus funcionários são mais criativas e isto se reflete nos seus resultados. (Fonte: McKinsey Report, 2015. Why Diversity Matters.)

 

– Empresas com mais mulheres em C-Level têm melhor performance que aquelas que só têm homens. (Fonte: Grant Thornton Report, 2016. Women in Business: The Value of Diversity.)

 

– Empresas com no mínimo 30% de mulheres executivas têm lucros até 6% maiores. (Fonte: Peterson Institute for International Economics 2016. Is Gender Diversity Pro table? Evidence from a Global Survey.)

 

– Em estudo publicado na revista acadêmica “Virginia Law Review” professores da Universidade de Northwestern (EUA) analisaram 15 anos de transcrições da Suprema Corte Americana. No material, identificaram que juízes homens interrompem as falas das juízas mulheres com três vezes mais frequência do que fazem com outros juízes. Nos últimos 12 anos, quando mulheres ocuparam 24% das cadeiras do tribunal, 32% dessas situações resultaram na interrupção das juízas, enquanto apenas 4% das vezes representaram interrupções feitas por elas. A análise mostra ainda que essas interrupções são feitas com mais frequência também por advogados — apesar de uma regra dizer que estes não podem interromper as falas dos juízes na Suprema Corte. O estudo, no entanto, mostra que as juízas acabaram achando outra forma de tentar evitar o de interrupções: falar mais como os colegas homens. Quando são recém-chegadas ao tribunal — e sofrem interrupções masculinas com ainda mais frequência — as juízas costumam começar suas frases de forma educada, usando termos como “Se eu puder perguntar” e “Com licença” antes de fazer suas colocações. Com o tempo, elas abandonam a educação e passam a interromper os outros diretamente — técnica que os juízes homens adotam desde o início. (Fonte: Jacobi, Tonja and Schweers, Dylan – Justice, Interrupted: The Effect of Gender, Ideology and Seniority at Supreme Court Oral Arguments (March 14, 2017). Virginia Law Review, Forthcoming; Northwestern Law & Econ Research Paper No. 17-03 – SSRN: https://ssrn.com/abstract=2933016)

– Estudo assinado por professoras da Universidade da Califórnia e publicado pela revista acadêmica on-line “Social Sciences” analisou gravações de 119 entrevistas de candidatos ao cargo de professor de cinco departamentos de engenharia em duas universidades americanas. No trecho da entrevista observado, os candidatos têm um tempo limitado para apresentar sua pesquisa para o departamento acadêmico. Os resultados mostram que, comparadas a candidatos homens com nível similar de experiência, as pesquisadoras mulheres são interrompidas com mais frequência e recebem mais perguntas dos professores. Como resultado, uma parte maior da sua apresentação é tomada pelas falas dos entrevistadores, o que faz com que elas tenham menos tempo para apresentar suas ideias. Segundo as autoras, o fenômeno é motivado pela pouca presença de pesquisadoras mulheres nesses departamentos, o que gera requisitos mais rigorosos para elas. (Fonte: Gender in Engineering Departments: Are There Gender Differences in Interruptions of Academic Job Talks? Março 2017 – http://www.mdpi.com/2076-0760/6/1/29)

 


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Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.