Quadrinhos contra a lesbofobia

Apesar da vocação dos quadrinhos para o entretenimento, não podemos negar sua importância no que se refere à crítica social e política através da História de diversos países. Muitas delas desempenharam um papel significativo na articulação de ideias durante regimes ditatoriais em países como Brasil e Argentina. Hoje, embora o Brasil viva um regime democrático, resquícios de um sistema ditatorial de cerceamento dos direitos ainda são sentidos em vários âmbitos, principalmente no que tange aos direitos da comunidade LGBT.

Sabemos que nem todos os cartuns e tiras utilizam humor em sua linguagem, porém, é através do riso que grande parte dos artistas cria uma conexão com seu público. Tendo isso em mente, vale lembrar que não faltam estudos filosóficos, psicológicos e antropológicos acerca do poder do riso e suas funções, entre as quais podemos ressaltar a de atuar como arma de contestação política.

Muito embora estejamos acostumados a associar o riso ao escárnio e à representação de estereótipos que acabam perpetuando certas opressões, entendemos que sua função crítica foi e ainda é extremamente necessária quando se trata de contestar sistemas políticos ou situações com as quais não concordamos. Porém, o que talvez não estejamos acostumados a perceber, é que o riso também pode ser uma forma de naturalizar comportamentos que são recriminados socialmente.

Para o sociólogo Amaro Braga, embora o riso tenha tido funções diferentes ao longo da história, ora moralizadora, ora transgressora, é preciso ter em mente que as histórias em quadrinhos como conhecemos surgem no contexto do que os estudiosos da Escola de Frankfurt chamam de Cultura de Massa e Indústria Cultural, ou seja, considerando o alcance que a produção de massa tem, ela seria também responsável pela manutenção e perpetuação de valores morais vigentes, o que em uma sociedade cujos valores representam os ideais de um pequeno grupo dominante, isso significaria a perpetuação de preconceitos contra práticas consideradas imorais.

Então, ao invertemos o uso do humor nas histórias em quadrinhos de uma forma de satirização e diminuição de grupos minorizados para uma forma de naturalizar práticas e discursos moralmente recriminados, estaríamos favorecendo a alteridade das narrativas ao darmos voz a pessoas que costumam ser silenciadas. Por isso, de acordo com Amaro Braga, “o riso, no caso dos quadrinhos de dos desenhos de humor, em geral, pode ser um veículo para a naturalização da representação. Acostumar-se ao fato e torna-lo natural e frequente é um meio para entender que a caracterização fora dos padrões heteronormativos é possível e não mais estranha (ao passo que se naturalize).”

Laerte Coutinho, uma das mais influentes cartunistas brasileiras, colaborou com muitos dos periódicos alternativos que circularam no Brasil e ainda hoje, seja em suas tiras como Piratas do Tietê ou em cartuns e charges encomendadas especialmente para ilustrar colunas de política em jornais, seu trabalho continua irreverente e provocativo. Porém, a partir de sua transição de gênero, sua luta pelos direitos da comunidade LGBT passou a ser assunto de suas charges, fazendo com que a cartunista se tornasse uma das vozes mais relevantes contra LGBTfobia.

Com o mesmo intuito, artistas como Beliza Buzollo, quadrinista brasileira, e Victoria Rubio, do Chile, usam tiras de humor como uma arma contra a violência e discriminação contra lésbicas na América Latina. Pensando na importância de se discutir a lesbofobia na América Latina, o coletivo feminino de quadrinhos Lady’s Comics realizou uma mesa temática de debates em seu terceiro encontro realizado na Academia Quanta de Artes, em São Paulo, nos dias 6 e 7 de maio de 2017.

O painel foi seguido por uma reflexão sobre como os quadrinhos podem ajudar a difundir informação acerca de um universo pouco conhecido por alguns leitores de quadrinhos e como eles podem funcionar como uma expressão artística que visa dar vazão aos questionamentos, alegrias e problemas enfrentados por mulheres lésbicas no Brasil e no Chile.

Beliza começou a publicar suas tiras no Facebook em 2015. Sua página Na Ponta da Língua tem quase 30.000 seguidores em menos de dois anos de existência e suas tiras, grande parte de teor cômico, abordando principalmente as relações e o cotidiano de mulheres lésbicas, que ganharam uma versão impressa, publicadas de forma independente em formato de fanzine.

Victoria também publica principalmente via Facebook e suas páginas Lesbilais e Loreto Poco Hetero desde 2009, além de viajar pelo Chile apresentando show de comédia (stand up) cujo tema principal é o cotidiano das mulheres lésbicas e a violência que elas enfrentam.

Entre as considerações levantadas após a apresentação das artistas, estavam a importância de se falar sobre prevenção de doenças sexualmente transmissíveis entre lésbicas, a violência sofrida em ambos os países com altos índices de estupros corretivos e o poder que humor tem de aproximar pessoas em torno de um interesse comum e assim, ajudar a naturalizar discursos considerados tabu ou até mesmo abjetos por parte da sociedade.

Lesbilais – Victoria Rubio

Por isso, a desigualdade que permeia não só as relações sociais, como também a produção cultural foi um dos tópicos debatidos ao longo do evento promovido pelo coletivo Lady’s Comics e que foi seguido da proposição de algumas soluções, uma vez que muitos dos problemas relatados são compartilhados pelas artistas e participantes da mesa.

Os exemplos de assédio e as atitudes machistas sofridas pelas quadrinistas, compartilhados durante a mesa  sobre quadrinhos lésbicos no Brasil e no Chile, foram vários. Por isso, ter em mente o que as artistas enfrentam cotidianamente para conseguir produzir seus trabalhos, certamente nos ajuda a entender a importância dos eventos e dos coletivos femininos de quadrinhos. Ou seja, como afirma Castells, o entusiasmo gerado entre indivíduos mobilizados por um objetivo que apreciam, está diretamente relacionado a outra emoção positiva: a esperança. “A esperança projeta o comportamento no futuro e é um ingrediente fundamental no apoio à ação com vistas a um objetivo” (CASTELLS, 2013, p.15).

Essa esperança foi reforçada pelos depoimentos do público presente no evento ao reconhecer a importância do trabalho das quadrinistas no que tange à representatividade e à naturalização de práticas consideradas socialmente imorais.

Assim, a produção de quadrinhos que visam trazer maior representatividade a grupos historicamente oprimidos e a realização de eventos temáticos para divulgação desse material, representam ações significativas na luta contra o preconceito e contra a violência que ainda é naturalizada em nossa cultura. Afinal, embora o risível seja reflexo de uma cultura local, o riso é uma forma de expressão universal e por meio dele, podemos repensar nossas práticas para que o preconceito se torne ele mesmo um motivo de piada. Como disse a própria Laerte, “pode fazer piada sobre tudo, desde que você saiba em que lado da piada você está”.

Referências:

BRAGA, Amaro; MARGONARI, Denise. O humor das tiras em Quadrinhos na educação para a diversidade sexual. Em: BRAGA, Amaro; MODENESI, Thiago (orgs). Quadrinhos e Educação: Fanzines, espaços e usos pedagógicos. V. 3. Universidade dos Guarrarapes, Recife, 2016.

CASTELLS, Manuel . Redes de Indignação e Esperanças. Rio de Janeiro: Zahar, 2013


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Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.