O unicórnio conhecido como o “Viagra feminino”

Sex, Bias and a Billion Dollars, esse foi o título da sessão que aconteceu no último dia 14 de Março no SXSW em Austin, Texas. Ótimo título para a palestra de Cindy Whitehead que iria nos contar como foi o processo de aprovação do medicamento flibanserina, com o nome comercial Addyi, que ficou conhecido na imprensa como o ‘Viagra feminino’. Cindy foi a CEO da empresa farmacêutica Sprout Pharmaceuticals, Inc, que foi criada para pesquisar e criar o tratamento para o transtorno de desejo sexual hipoativo em mulheres.

Antes de seguir sobre como foi essa aprovação, vou explicar aqui alguns pontos que a própria Cindy esclareceu para continuar esse artigo.

O que é Transtorno de desejo sexual hipoativo?

Primeiro de tudo precisamos entender como funcionam os estímulos sexuais em qualquer ser humanos. Operamos em 4 fases: o desejo – nova vontade de ter um ato sexual, a excitação – a manifestação física que estamos prontos para realizar o ato, o plataeu – o estado físico que o corpo se encontra enquanto estamos realizando o ato sexual e o clímax – a manifestação do corpo para indicar que o corpo já saciou o desejo.

O Transtorno de desejo sexual hipoativo é definido quando o indivíduo em idade reprodutiva, ou seja, antes da menopausa no caso da mulheres e antes da andropausa no caso dos homens, não manifestam desejo sexual pois seu cérebro não produz serotonina o suficiente – essa parte é diagnosticada através de diversos exames como tomografias e etc. E ele pode se manifestar em homens e mulheres.

Até 2015 a industria farmaceutica já hava criado e aprovado 26 medicações para tratar disfunções sexuais masculinas que afetavam nos homens nas 4 fases dos estímulos sexuais. O Viagra foi o primeiro e o mais famoso de todos. E até então a FDA (orgão regulamentador de medicamentos e tratamentos de saúde nos EUA) nunca havia aprovado nenhum para qualquer tratamento similar para mulheres, mesmo existindo registros desses transtornos na literatura médica desde 1977.

As pesquisas e a aprovação

A Sprout Pharmaceuticals, Inc avançou nos estudos existentes, desenvolveu uma droga e testou em 11 mil pacientes diagnosticados. Após 6 anos de trabalho, eles submeteram os estudos e resultados ao a FDA e foram reprovados. Aqui, Cindy nos fez um adendo comparando com a aprovação com Viagra, cujo estudo foi submetido ao FDA com menos de 3 anos e com 3 vezes menos pacientes envolvidos em teste e foi aprovado de primeira.

A partir daí, Cindy recorreu à decisão e depois de inúmeras reuniões, descobriu que o problema da aprovação não era o tamanho do estudo e das pesquisas, mas sim a dúvida que a FDA tinha sobre se Transtorno de desejo sexual hipoativo em mulheres era tão grave assim para ter que um medicamento que antes expunha os pacientes a efeitos colaterais.

O que ficou claro para Whitehead era que ela precisava provar para a FDA que os pacientes que sofrem do transtorno estavam dispostos a correr o risco, afinal, há medicamentos para a saúde sexual masculina aprovados que podem deixar o paciente paraplégico em alguns casos.

Assim a Sprout Pharmaceuticals, Inc iniciou uma conversa nacional sobre TDSH com a campanha #WomenDeserve que contou com anúncios na TV em rede nacional e que trabalhava com a mesma linguagem do anúncio do Viagra que estava no ar na época.

Anúncio #womendeserve

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A campanha, com a divulgação do calendários das reuniões com a FDA, e pessoas com o transtorno diagnosticado, começaram a aparecer na reuniões para dar seus depoimentos e provar o quanto o tratamento seria importante. Cindy conta que ao longo da jornada ela foi abordada por inúmeros homens e mulheres – héteros e homossexuais – falando sobre como seus relacionamentos não teriam acabado se soubessem do transtorno e sua possibilidade de tratamento e, entre os depoimentos mais emocionantes, ela conta que um homem cuja a esposa e a filha tinham TSDH falou numa reunião com o FDA que ele e a mulher já haviam se entendido depois de tantos anos, porém eles tinham a obrigação de não privar a filha deles da possibilidade de ter uma vida sexual saudável.

Cindy explica que boa parte da lentidão do processo de aprovação aconteceu pelo fato de existirem poucas ou nenhuma mulher envolvida no processo de aprovação da flibanserina. “A falta de diversidade e representatividade em conselhos não traz empatia e perpetuam narrativas falsas que impedem o processo como “ah, mulher é mais complicada mesmo”.

Se pensarmos, a falta de empatia do mercado farmacêutico já gerou algumas anomalias como a aquela campanha do medicamento para cólicas menstruais da Sanofi que falava que eram “Mimimi“. Se temos preconceitos e misoginia em relação aos medicamentos para OTC, imaginem o quanto ainda temos que trabalhar nas camadas mais profundas da saúde feminina para aprovar tratamentos mais complexos, legalizar o aborto ou acabar com práticas hediondas como violência médica durante parto? A nossa luta pelo “Meu corpo, minhas regras” é longa e valerá cada momento.

E o 1 billhão de dólares?

Essa foi a quantia a qual a Sprout Pharmaceuticals, Inc. foi comprada por uma grande empresa do mercado farmacêutico global assim que a flibanserina foi aprovada pela FDA, em agosto de 2015, e o que Cindy fez com esse dinheiro foi abrir a Pinkubator, uma incubadora de start-ups para empresas lideradas por mulheres e/ou com produtos para mulheres.

Seu principais ensinamentos para qualquer mulher no mercado de trabalho são:

Não aceite as narrativas que impeçam o progresso.
Não peça desculpas pelo seus processos e conquistas.
Aceite o trabalhão que é se tornar um unicórnio.

Cindy, desde quando começou as reuniões na fase que ela recorreu à 1ª reprovação da flibanserina pela FDA, passou a sempre vestir pink, seja uma peça de roupa ou todo seu visual porque não quer que eles esqueçam que seu esforço era de uma mulher para outras mulheres. Ela divulga “seja #unapologeticpink”.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Sylvia Ferrari

Relações Públicas formada pela Escola de Comunicações e Artes da
Universidade de São Paulo com especializações em Branding e Gestão Estratégica de Negócios pela Fundação Getúlio Vargas. Escreve e fala sobre seriados intensamente aqui nos MinasNerd e em sua newsletter The S Files.