Responsabilidade Online

Os avanços tecnológicos, principalmente no que tange às redes sociais, têm favorecido a ascensão de movimentos sociais como o feminismo. As redes, por propiciarem uma comunicação não hierarquizada, possibilitam que os discursos que antes eram silenciados pela mídia tradicional tenham hoje um alcance inimaginável.

Manuel Castells (1999) é um dos autores que têm se dedicado aos estudos de movimentos que se beneficiam do uso de plataformas como o Facebook e Jesus Martin-Barbero (2003) já alertava sobre o fortalecimento de grupos sociais marginalizados a partir dos anos 60. No entanto, quando se trata do exercício da livre expressão por meio das redes sociais, não é difícil notarmos que existe um equívoco na interpretação do que seria liberdade de expressão, principalmente quando há propagação de discursos de ódio.

Esses discursos, dirigidos a grupos historicamente oprimidos são facilmente encontrados em páginas de cultura pop e nerd quando o assunto é a representatividade feminina, LGBT ou negra nos filmes, histórias em quadrinhos e videogames. Por isso, grupos secretos exclusivos têm surgido no Facebook com o intuito de oferecer um ambiente seguro para que certos assuntos possam ser discutidos.

No entanto, ainda que tais ambientes tenham a intenção de oferecer esses espaços seguros, vale salientar que essa sensação de que estamos dialogando em um ambiente fechado é apenas ilusória. Primeiro porque o conceito de privacidade que conhecemos não se aplica mais para as interações que ocorrem online, na medida em que nossos dados são convertidos em produtos para empresas com os mais diversos fins. Segundo, que, embora acreditemos que estejamos em um espaço reservado e agimos como agiríamos em uma interação que ocorre na sala de nossas casas, com apenas uns amigos mais próximos, a realidade é que as implicações e o alcance de nossos discursos não são mais previsíveis.

Prova disso é o estudo realizado pela National Academy os Sciences of the United States of America  que analisou o contágio de emoções em escala massiva manipulado através das redes sociais. O experimento com o Facebook comprovou que estados de humor podem ser transferidos aos outros via contágio emocional, levando as pessoas a experimentarem as mesmas emoções sem terem consciência disso, evidenciando que o contágio emocional ocorre sem que haja interação direta entre os envolvidos e mesmo diante da completa ausência de marcas verbais.

Isto significa que a onipresença das mediações digitais pode ser responsável tanto pela perpetuação da opressão, como pela mobilização, empoderamento, conscientização, ascensão de movimentos sociais tal como vem acontecendo com o feminismo, com os movimentos negros e com os movimentos de luta por visibilidade e representatividade LGBT. Em seu livro Redes de Indignação e Esperança (2013), Manuel Castells registra o papel decisivo das redes sociais na mobilização popular em acontecimentos de relevância histórica como a “Primavera Árabe”.

Não à toa, a preocupação acerca de nossa privacidade tem se tornado pauta frequente em debates, sejam eles acadêmicos ou não. Essa preocupação se justifica na medida em que somos constantemente bombardeados com notícias de escândalos decorrentes de exposição indevida da intimidade de celebridades ou de outros conflitos que surgem a partir de discussões em redes sociais.

Textos explicativos sobre como lidar com “Revenge Porn” (compartilhamento de fotos íntimas – nudes – sem o consentimento das pessoas envolvidas) e infinitos “posts” sobre assédio de pessoas com grande alcance nas redes sociais, como o professor Leandro Karnal, nos indicam que não só não sabemos lidar com as consequências de nossa exposição como também não conseguimos encontrar meios de nos proteger de tais ataques.

Muito embora os ataques virtuais e o assédio não caracterizem agressão física, Bordieu (1989) nos lembra que a violência simbólica também é nociva justamente porque aqueles que detêm o poder, ainda que simbolicamente, não o reconhecem e, portanto, são incapazes de perceber os danos de suas ações.

No livro Islam and Controversy (2014), de Ashuman A. Mondal, o autor elenca uma série de pensadores para discutir conceitos de liberdade de expressão e responsabilidade no intuito de refletir sobre possíveis formas de lidar com conflitos relacionados a estes conceitos. Ao citar Judith Butler, afirma que as palavras adquirem um peso de ofensa através das performances interativas de poder que, cumulativamente, as dispõem como veículos dessas ações. Palavras ofensivas possuem o poder de machucar precisamente porque têm uma história de violência por trás delas, tanto verbal quanto físicas. Na maior parte do tempo, a ofensa se dá na relação entre palavras, frases, e figuras de linguagem que foram previamente usadas para abusar e subordinar e que já são partes estabelecidas de um discurso de poder. Então, alguns grupos raramente se ofendem, pois podem facilmente ignorar atitudes ofensivas contra si, uma vez que essas atitudes não perturbam a vantagem estrutural que gozam.

Em junho de 2016, a roteirista da Turma da Mônica Jovem, Petra Leão, teve sua caixa de mensagens invadida por ameaças e insultos após um trecho de uma história sua ter sido compartilhado pelo “filósofo” conservador Olavo de Carvalho em sua página no Facebook onde ele proferia impropérios à artista. Um dado curioso sobre esta edição é que quando foi às bancas, o nome de Marcelo Cassaro aparecia na capa como roteirista da revista, no entanto, nenhuma ameaça ou insulto lhe foi dirigido na época. Um quadrinista conhecido no meio não perdeu a oportunidade de se manifestar ao mencionar que antigamente a esquerda sequestrava embaixadores e hoje sequestra personagens de histórias em quadrinhos. O caso teve repercussão internacional em sites especializados como o The Mary Sue.

No caso de meninas que jogam videogames (gamers) a violência consiste em ofendê-las enquanto jogam ou as impedirem de ascender em certos jogos online. Há inúmeros exemplos facilmente encontrados em sites de busca com palavras-chave como “gamers” e “assédio”. Em um deles o repórter afirma que não é uma questão de “se” a jogadora sofreu assédio, mas “quais” são suas histórias de assédio.

Em outubro de 2016, a escritora Chelsea Cain teve que encerrar sua conta no Twitter após seu perfil “explodir” de comentários violentos contra ela. O motivo? A personagem Harpia, de sua autoria, apareceu na capa de um título que já havia sido cancelado com uma camiseta que fazia menção ao feminismo: Ask me about my feminist agenda. Embora fãs e artistas tenham se unido no mundo todo por meio da hashtag #standbychelsea, o ódio que lhe foi dirigido a deixou muito abalada e, assim como muitas mulheres têm feito, preferiu encerrar sua conta.

Outras vítimas de assédio e violência como a atriz negra Leslie Jones, da nova versão de Os Caça-Fantasmas, a blogueira de moda Flávia Durante, que estrelou uma campanha com a modelo Plus size Camila Romano para a bebida TNT, a youtuber Jessica Tauane, com seu canal das Bee sobre bissexualidade, indicam que qualquer mulher que não se encaixe em um padrão que a coloque como objeto de apreciação masculina, está fadada a sofrer com agressões virtuais.

Via Motoca – Maíra Colares

Logo, é extremamente urgente que passemos a refletir de forma mais crítica sobre nossas publicações online, pois nem mesmo as teorias estão dando conta de acompanhar a velocidade com que nosso contexto social é alterado constantemente, de forma que não estamos preparados para lidar com as consequências de muitas de nossas ações no meio digital. Um exemplo recente de como a tecnologia evolui em uma velocidade bem maior do que nossas convenções sociais poderiam dar conta, é o que acontece na Coreia do Sul, onde milhares de câmeras ocultas são instaladas em banheiros e provadores femininos para o voyerismo masculino, sem que suas vítimas tenham consciência disso.

Por isso, a iniciativa UNESCO MIL Clicks foi criada com a intenção de possibilitar e estimular formas inovadoras, criativas e não formais de aprendizagem sobre aliteracia midiática e também sobre o diálogo intercultural. Os jovens constituem o público alvo do movimento iniciado pela UNESCO em cooperação com a Comissão Europeia, o Governo da Arábia Saudita, USP, Centro Sérvio de Educação em Mídia e muitos outros parceiros.

Ou seja, ponderar sobre as possíveis implicações e sobre nossa responsabilidade ao postar algo que possa colocar em risco a integridade física, moral ou mental de alguém é uma atitude que deve ser discutida nos mais diversos ambientes, principalmente no escolar. Séries como 13 Reasons são exemplos de como nossas ações implicam direta ou indiretamente em consequências a terceiros e, infelizmente, grande parte de nós está aprendendo a lidar com as ferramentas virtuais na base da tentativa e erro, mas quando nossos erros podem significar colocar em risco a vida de alguém, precisamos estar cientes disso, precisamos aprender como evitar que isso aconteça.

O episódio de Black Mirror Odiados pela Nação também explora muito bem a questão do ódio online. Com duração maior que os demais episódios da série, somos levados a entender de que maneira nossas ações afetam a vida de desconhecidos sem que tenhamos noção disso, de forma que assístí-lo é quase uma obrigação para quem gostaria de entender o alcance de nossas interações digitais.

Pensando nisso, o professor de direito digital Siva Vaidhyanathan, da Universidade da Virgínia, EUA, escreveu o livro A Googlelização de tudo (e por que devemos nos preocupar). Em sua pesquisa, ele explica que o fenômeno da “Googlelização” afeta 3 áreas relacionadas à conduta humana: “nós”, a partir dos efeitos do Google sobre nossas informações pessoais, hábitos, opiniões e julgamentos; “o mundo”, por meio da globalização de uma estranha forma de vigilância e ao que ele chama de imperialismo estrutural; e o “conhecimento”, a partir de seus efeitos no uso de uma grande quantidade acumulada de conhecimento por meio de livros, bases de dados online e da rede.

Para equalizar e entender este fenômeno é preciso que pensemos de forma crítica, deixando de lado nossa fé quase que religiosa no Google e em sua benevolência corporativa e adotar um olhar mais cético. Uma forma de começar a perceber que não somos os clientes do Google, é entendendo o que somos realmente: seus produtos.

Entendendo que como produtos nós respondemos a uma lógica de mercado em que “curtidas” e engajamento virtual são moedas valiosas, é compreesível que as tais “tretas”, manchetes estilo “click bait” e  notícias falsas viralizem tanto a ponto de perdemos completamente seus rastros, nos impossibilitando de descobrir suas origens. O perigo desses fenômenos está justamente na quantidade de ataques e de linchamentos virtuais promovidos online, cujas conclusões nos indicam que o ódio tem sido um elemento poderoso na busca por atenção e cujas consequências são tão nocivas para toda a sociedade, que a menos que façamos algo logo, teremos cada vez mais notícias de fatalidades causadas por essas ações.

Assim, ter acesso a informação é fundamental para que possamos agir de forma responsável e por isso, deixo aqui alguns links que são resultados de pesquisas feitas para disciplinas do meu mestrado em comunicação e que espero que sejam úteis:

A Googlelização do mundo é uma ficção… Será?
Edward Snowden e o Capitão América
FoMO – Internet, ansiedade e o medo de não fazer parte de algo
Liberdade de Expressão e Responsabilidade
DIGITAL RIGHTS AND RESPONSABILITY

 

Referências:

BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.

CANCLINI, Nestór. Consumidores e cidadãos: Conflitos Multiculturais da Globalização. Rio de Janeiro, UFRJ, 1999.

CASTELLS, Manuel. Redes de Indignação e Esperanças. Rio de Janeiro: Zahar, 2013

LIMA, Quézia dos Santos. Blogueiras feministas e o discurso de divulgação do feminismo no ciberespaço. In: Seminário de estudos em análise do discurso. Rio Grande do Sul. Estudos em Análise do Discurso. Rio Grande do Sul: Instituto de Letras, 2013.  Disponível em: <http://www.ufrgs.br/analisedodiscurso/anaisdosead/6SEAD/SIMPOSIOS/BlogueirasFeministasEODiscurso.pdf>. Acesso 20 mai. 2016.

MARTIN-BARBERO, Jesús Martin. Dos Meios às Mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2003.

MONDAL, Anshuman A. Islam and Controversy: The Politics of Free Speech after Rushdie. Londres: Palgrave Macmillan, 2014.

 

 

 

 


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Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.