A sexualidade da Mulher-Maravilha…. De novo!

Estamos no mês internacional do orgulho LGBT e é natural que veículos em geral promovam reflexão sobre o assunto, afinal, afirmar que vivemos em uma sociedade homofóbica não é exatamente uma novidade ou uma invenção de pessoas “doutrinadas pela ditadura gayzista”, como costuma ser dito em comentários de grupos de cultura pop no Facebook. Prova do  retrocesso ao qual esses grupos são submetidos é o fato da Casa Branca Americana nem reconhecer o mês de junho como o mês do orgulho LGBT.

Recentemente, em um desses grupos, um dos integrantes atestou que as menções à sexualidade dos heróis nas histórias em quadrinhos é uma tentativa das editoras em agradar uma “gente escrota”, se referindo ao público LGBT. Porém, aqui no Minas temos uma política de inclusão e acreditamos que toda forma de amor é válida e que ninguém deveria ser julgado, diminuído ou excluído em decorrência de sua orientação sexual.

No entanto, quando nos referimos às produções culturais, vale lembrar que é algo recorrente que elas reflitam o contexto em que estão inseridas, afinal, elas não estão descoladas dele. Ao estudar a História das HQ, aprendemos que as narrativas trazem muito dos medos, conflitos, esperanças de seus autores e leitores. Por isso, nos anos 1940, muitos heróis lutavam contra o nazismo, nos anos 60 e 70 os heróis se relacionavam com mudanças químicas e tecnológicas, nos anos 2000, terrorismo e por aí vai.

Quando Greg Rucka veio a público afirmar que a Mulher-Maravilha é bissexual, ele tocou no assunto como se fosse algo lógico e, quem convive com leitores de quadrinhos, deve ter notado dois tipos de reações: uma parte dos leitores se perguntando por que ele precisava afirmar algo óbvio e outra parte, bem revoltada, alegando que as histórias nunca haviam dado a entender qualquer coisa nesse sentido.

Bom, como o próprio Rucka afirma, é no mínimo ingênuo acreditar que uma mulher imortal, que viveu durante milênios em uma ilha povoada apenas por outras mulheres, não teria tido qualquer tipo de relacionamento com alguma amazona. Ainda assim, por mais que muita gente acredite que se trata de uma novidade, o site Bleeding Cool demonstrou no ano passado que não.

Embora algumas edições não tenham sido publicadas no Brasil, em Task Force da Liga da Justiça, que foi publicada nos anos 1990, Diana responde à pergunta de Máxima sobre como as amazonas lidavam com o fato de viverem uma ilha sem nenhum homem: ” Não se chama ilha Paraíso à toa!”.

Em Sensational Comics, mais recente, Clark a questiona sobre o fato de ela poder oficializar casamentos e se mostra surpreso que ela realize um casamento lésbico, mas ela o lembra que em seu “país” só existem mulheres, logo, não é chamado de “casamento gay”. É apenas “casamento”.

E em sua fase atual de Renascimento, escrita por Rucka, ela teria um suposto relacionamento com Kasia, ou, no mínimo, é o que se “fofoca” na ilha quando outras amazonas demonstram claramente interesse sexual em Diana.

“Ah, quando ela emerge como Afrodite, Deuses, ela me mata!”
“Achei que ela e Kasia…?”
“… e Meghara e Evrayle, eu nem sei mais…”

Bom, mas será que ela foi concebida como uma personagem bissexual? De acordo com a neta de seu criador William Marston, com quem converso às vezes, não. Na verdade, para Christie Marston, seu avó não pensou nisso porque não era importante para ele na época. Porém, a sexualidade sempre foi um elemento extremamente presente nas primeiras HQ, fato amplamente explorado por diversos pesquisadores e tratado no livro recém-lançado no Brasil, A História Secreta da Mulher-Maravilha, de Jill Lepore. Menções à Bondage e Sadomasoquismo não faltavam:
“Eu sou um desses homens estranhos, talvez desafortunados, que obtêm extremo prazer erótico meramente ao pensar em uma linda mulher, acorrentada, ou atada, ou usando uma máscara, ou usando saltos extremamente altos ou botas cano alto com cadarço, de fato, qualquer tipo de constrição ou tensão seja qual for. (trecho da carta de um sargento do exército americano, onde confessava sua excitação sexual ao ler as histórias da princesa das amazonas e perguntava se o autor dispunha em sua casa dos mesmos objetos tão detalhadamente apresentados nas HQ)

A própria Trina Robbins, primeira mulher a desenhá-la, escreveu um ensaio onde ela fala justamente sobre a possibilidade de Diana ser também lésbica. Não à toa, Grant Morrison, ao afirmar que pretendia prestar uma homenagem a William Marston, inclui tais elementos em Terra Um: “Oh, Diana, meu grande amor”

A Mulher-Maraviha teve um apelo de longa data na comunidade gay. O quadrinista Phil Jiminez, que escreveu e desenhou a personagem da DC, foi citado dizendo: “Penso que a Mulher Maravilha é, em termos políticos ou filosóficos, a representação perfeita do “Outro “, não é próprio e, de alguma forma, diferente … Realmente acredito que ela seja a personagem queer perfeita, e eu uso ‘queer’ no sentido cultural maior aqui, não simplesmente gay … Ela não é feita para homens heterossexuais. Ela é anti-assimilacionista, anti-patriarcado e, definitivamente, não é apenas ‘normal’. Ao longo das décadas, acho que uma das razões pelas quais ela apelou para mulheres e tantas minorias, e sim, para homens gays, é porque ela é a representante de fato daquela queerness “.(Bleeding Cool)

Bom, tendo estabelecido que sua sexualidade não é uma novidade, mas que talvez alguns leitores tenham se recusado a aceitar algo que tem sido tratado desde sempre, por que é tão importante que falemos sobre isso? Por que é relevante, apesar de vários leitores dizerem que não se importam com isso?

No caso específico dos bissexuais, várias matérias apontam para o fato de que o “B” da sigla LGBT sofre um apagamento constante não só nos movimentos sociais, mas nas produções culturais em geral. Nossos amigos do Judão explicam como personagens bissexuais são tratados em várias obras e como sofrem preconceito de hetrossexuais e da comunidade gay também.

A despeito do que alguns leitores mais conservadores clamam – ” façam seus próprios quadrinhos! Não mexam nos meu heróis” – vale lembrar que nenhum herói permance imutável desde sua concepção, muito menos os octagenários como Batman e Superman. Como afirmei anteriormente, as produções culturais refletem o o contexto em que estão inseridas e, como afirma o comunicólogo Jesus Martin-Barbero, os movimentos sociais vêm ascendendo desde os anos 1960. De acordo com o sociólogo Manuel Castells, as redes sociais permitiram que os grupos minorizados pudessem finalmente ter voz para dizer que também têm o direito de se enxergarem representados nas narrativas.

Portanto, não, a representação de integrantes dos grupos LGBT nas histórias não é uma tentativa de agradar uma “gente escrota”. Mais uma vez ressalto que vivemos em um sistema capitalista que visa lucrar com suas produções, então, a indústria de quadrinhos ao perceber que esses grupos representam uma parte significativa da economia mundial, quer alcançar essa fatia do mercado também. É apenas lógico!

As pessoas estão produzindo seus próprios quadrinhos de forma independente, mas a produção mainstream exerce um papel fundamental na propagação e perpetuação de valores sociais vigentes, então, é preciso que essas produções tragam diversidade em suas narrativas, afinal, a ficção tem também a função de validar nossa existência e se não nos enxergamos nessas histórias, é como se não existíssemos.

As pessoas não estão impondo nada. Falar em “doutrinação de uma ditadura gayzista” é o (não) argumento mais raso que existe, afinal, um grupo que está entre os mais “exterminados” do mundo, que não tem o poder de impedir suas próprias mortes, não teria poder para impor sua orientação sexual, até porque, ninguém se torna gay por “imposição”ou por moda. Esses discursos só reforçam a homofobia e justificam exatamente a necessidade de textos como este, até que um dia nós realmente não precisemos mais falar sobre isso.

Live and let live.
Love and let Love.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial – ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.