Volta, Kate Mahoney!

Se existe uma mulher que “empoderou” diversas garotas  muito antes do termo cair na boca do povo e ser banalizado, essa foi Kate Mahoney, do seriado Dama de Ouro (Lady Blue).

A série foi criada pelo produtor e executivo  David Gerber, que já havia tentado emplacar um seriado só com mulheres na força policial nos anos 70, mas sempre fora desacreditado.

Dama de Ouro foi ao ar primeira vez pela rede ABC, nos Estados Unidos,  em abril de 1985 e aqui no Brasil foi transmitida pela Rede Globo no ano seguinte, em 1986.

Interpretada pela ruiva Jamie Rose, Kate era uma policial, uma agente especial da polícia de Chicago, que enfrentava os mais diversos casos, desde assassinatos a tráfico de drogas, retratando uma mulher na força policial urbana de uma forma como nenhuma outra série do gênero havia ousado até então: em pé de igualdade com os homens.

Kate era durona, corajosa, implacável, assertiva. Era a melhor no que fazia, perfeccionista, justa, confiante e muito inteligente. O exemplo típico de mulher bad ass que hoje estamos acostumadas a ver retratadas em diversas personagens da cultura pop. Não que outras séries como Mary Tyler Moore nos 60 ou A Mulher Biônica e até mesmo Mulher-Maravilha, com Lynda Carter nos anos 70, não tivessem retratado mulheres nestas condições antes, mas Kate representava a mulher real no mercado de trabalho real, com problemas reais inserida em uma instituição altamente machista e misógina que era uma força policial. Um problema  que perdura até hoje.

A questão da “feminilidade” também era muito retratada na série. Questões sobre o que era ou não considerado “feminino” ou esperado de uma mulher eram explicitamente abordadas em seus episódios. Mahoney era independente e frequentemente “burlava” a burocracia que engessava o sistema para conseguir o que queria, muitas vezes arriscando sua própria vida. Brigava mano a mano com bandidos e era ótima atiradora, sua Magnum 357 era sua melhor amiga.

 

Seu chefe, o Tenente McNichols (Interpretado por Danny Ayello) fazia as vezes de amigo em constante desconstrução dos padrões masculinos e machistas, colocando em xeque o comportamento de Kate, mas sendo um ótimo coadjuvante e escada para o protagonismo da personagem.

Uma curiosidade: Kate Mahoney  foi inspirada no personagem de Clint Eastwood, Dirty Harry, tanto isso é verdade que nos Estados Unidos alguns apelidaram-na de “Skirty Harry” (algo como Dirty Harry de saias). Aliás, a atriz Jamie Rose, pouco tempo antes, havia feito uma pequena ponta num dos capítulos da série Dirty Harry. Mais tarde, quando foi escolhida para interpretar o papel declarou ter assistido muito vezes a série e imitado os trejeitos de Clint para criar a personagem.

 

Apesar as sementes da segunda onda do feminismo já terem florescido e ganhado raízes na época em que a série foi exibida, assim como hoje vivemos em constante luta por direitos iguais em muitas camadas da sociedade, na década de 80 não foi diferente e o um dos principais campos de batalha para as feministas era justamente o mercado de trabalho.

Aqui no Brasil, o período  ficou marcado pelo crescimento exponencial da participação feminina no mercado de trabalho. A necessidade econômica, que se intensificou com a retomada da democracia, e que veio acompanhada de  deterioração dos salários e inflação,  moveu muitas mulheres a  buscarem uma complementação para a renda familiar, entre outras causas.  Com a força feminina na mão de obra trabalhadora,  houve uma total conscientização sobre a discrepância de salários e a discriminação e rejeição de mulheres em muitas áreas do mercado, o que por outro lado também fortaleceu a participação das mulheres em movimentos populares, em busca de direitos.

Nos grandes centros,onde a atuação do movimento feminista era maior, as organizações de mulheres cresceram com mais facilidade, abrindo-se  para discussões sobre a sexualidade: violência contra a mulher e formas mais abertas de exercer seu papel na família e sociedade.

Kate Mahoney retratava essa nova mulher. Mas, apesar de todo pioneirismo, o seriado foi cancelado ainda em sua primeira temporada de exibição no dia  25 de janeiro de 1986 em seu 13º episódio, quando então seus direitos foram comprados pela Rede Globo.

Segundo críticas da audiência, alegaram que o seriado era “muito violento”.(oi?)

Na época, suas chamadas ficaram famosas e diziam: “Ela não dá moleza pra ninguém, ela é Katy Mahoney, uma policial jogando duro contra o crime”.  E obviamente não demorou para que o machario apelidasse qualquer mulher com atitude mais agressiva na sociedade de “Kate Machoney”.. Inclusive o termo foi cunhado pelo programa humorístico TV Pirata, onde a atriz Deborah Bloch fazia uma paródia da personagem,  passando uma mensagem misógina de que só mulheres masculinizadas poderiam ser “tão corajosas”.

Épocas diferentes, problemas iguais. O que indica que não podemos parar nunca de lutar por igualdade e respeito.

Volta Kate, vem dá uns tiro pra cima pra mostrar quem manda <3


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Gabriela Franco

Jornalista especializada em cultura pop, produtora, cineasta e mãe da Sophia e da Valentina

Criadora do MinasNerds.