Nova chance de ler Estranhos no Paraíso

Uma das séries mais longevas dos quadrinhos independentes americanos, Estranhos no Paraíso teve mais de 100 edições e foi publicada em diversos idiomas. No Brasil, a HQ de Terry Moore teve sua publicação marcada por vários contratempos, passando por algumas editoras, o que comprometeu sua aquisição por parte de quem acompanhava as aventuras de um trio pra lá de agitado.

Porém, no início de 2017 a plataforma de quadrinhos digitais Social Comics anunciou que publicaria a obra. Com tradução de Isabelle Félix (Plano Infalivel, Garotas Geeks), a série, que recebeu diversos prêmios, tem as três primeiras edições publicadas no site

A história de Katchoo, Francine e David é recheada de situações inusitadas e fez sucesso nos anos 1990 e 2000 por trazer um roteiro bem trabalhado, usando personagens muito diferentes dos super-heróis. Por exemplo, o envolvimento de Katchoo com o crime e seu amor/desejo por Francine são narrados em meio às divagações de Francine sobre seu problema com a própria imagem e de forma anacrônica.

Como sugere Guillherme Miorando, do Splash Pages, não faltam motivos para conferir Estranhos no Paraíso, sendo um deles o fato de que os personagens são tão bem retratados, que por muitas vezes é difícil lembrar que os eventos não são reais. Apesar dos problemas no passado de Katchoo e do seu humor inconstante, a menina durona, que também é uma grande artista, é extremamente cativante, assim como Francine, que lembra aquela amiga meio desengonçada e com um coração enorme – tanto quanto sua fome (ou a minha, na verdade!rs).

Por ter roteiro e personagens tão bem desenvolvidos, a HQ também já foi tema de diversos trabalhos acadêmicos, principalmente quando o assunto é representação feminina nos quadrinhos. Em uma época de heroínas com corpos objetificados e sexualizados, Estranhos no Paraíso apresentou mulheres que se aproximavam muito mais da realidade do que a maioria das personagens que existiam nos quadrinhos, possibilitando assim, maior identificação por parte dos leitores e leitoras da série.

Pensando nisso, a pesquisadora Luciana Zamprone afirma que as representações de Francine e Katchoo podem ser consideradas desviantes, por não se adequarem aos moldes de representações femininas mais comumente encontradas nos quadrinhos, começando pela relação das duas, que é “uma mistura de amor passional com amizade profunda, que entre idas e vindas, pode ser resumido como uma história de amor e amizade que certamente cruza fronteiras”, de acordo com o próprio Terry Moore.

Questões como gordofobia, autoestima, aceitação social, relacionamentos, sexualidade, comportamento, são alguns dos temas abordados ao longo da narrativa, indicando que mulheres são muito mais complexas e interessantes do que normalmente aparentam nas HQ mainstream.

Embora a ideia de desvio em relação ao comportamento das personagens remeta à concepção de que há uma normalidade que serve de parâmetro para comparação, vale lembrar que a normalidade dos quadrinhos tende a resumir as mulheres em apenas dois esterótipos: o de puta ou de santa, como observado por Ediliane Boff em sua tese de doutorado.

Ou seja, ainda que Katchoo e Francine estejam longe parecer com o ideal de mulher mais socialmente aceito e que seus “desvios” psicológicos existam e sejam retratados magistralmente na história, talvez seja justamente o fato de serem “desviantes” que fazem das duas amigas personagens tão incrivelmente reais e apaixonantes.

Para saber mais:

De Maria a Madalena: representações femininas nas histórias em quadrinhos, de Ediliane Boff.

Como Estranhos Podem Encontrar o Paraíso: Contra-Discursos, Ideologias e Representações do Feminino na Sociedade Contemporânea, de Luciana Zamprogne, p.259-292.

Entrevista com Terry Moore

 


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Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.