Estrelas além do Tempo – Várias lições!

Com várias indicações e diversos prêmios, Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures, 2016) se consagrou como um desses filmes obrigatórios para todo mundo, Todo mundo mesmo! Por isso, as reflexões abaixo trazem um pouco de spoilers, mas nada que comprometa sua sessão, caso ainda não tenha assistido.

1 – Representatividade

As atrizes negras Taraji P. Henson, Octavia Spencer, Janelle Monáe interpretam 3 especialistas em diferentes áreas do cálculo e da física, que ao longo de todo filme nos mostram que a genialidade independe de cor, credo, gênero… As 3 são mulheres determinadas que são constantemente testadas e que superam diversos desafios diários para poderem trabalhar na NASA. Ou seja, é uma mensagem poderosíssima para meninas e mulheres que são constantemente levadas a acreditar que não podem almejar trabalhos como físicas, engenheiras… De acordo com João Paulo, pesquisador que apresentou uma comunicação sobre gênero e homofobia na escola, em um evento realizado na USP, as profissões mais indicadas às meninas em idade escolar são de enfermeira e professora, enquanto aos meninos, são de advogados e engenheiros.

2- MICROAGRESSÕES

A microagressão é a ideia de que algumas pessoas estão sujeitas a certas violências de forma mais sistemática que as outras, como demonstrado em um vídeo que as compara com picadas de mosquito: Se você leva uma picada, se irrita e deixa pra lá, mas há pessoas que atraem mais mosquitos que outras e são constantemente “picadas”, de forma que quando você recebe a centésima investida de um mosquito, tudo o que você quer é que ele morra. Mas, como nem todo mundo sabe que você já levou várias picadas no dia, julgam sua reação muito violenta.

O mesmo ocorre constantemente com as mulheres e em um nível ainda maior com as mulheres negras, que são muitas vezes julgadas como “muito bravas” ou agressivas. Há um momento em Estrelas Além do tempo que é extremamente didático ao ilustrar a forma que Katherine (Taraji Penda Henson) reage após o frequente abuso ao qual é submetida diariamente: nos anos 1960 a Nasa ainda operava seguindo as “normas” da segregação racial nos EUA, por isso, mulheres negras que faziam grande parte dos cálculos necessários para enviar os foguetes à órbita eram chamadas de “computadores” e mantidas em uma sala do subsolo de um prédio bem afastado do prédio central de operações.

Neste prédio havia um banheiro EXCLUSIVO para mulheres negras. No entanto, quando Katherine é convocada para trabalhar no prédio central em função de sua excelente familiaridade com cálculos, não encontra um banheiro que possa usar. Assim, todos os dias, ela é obrigada a cruzar uma distância significativa apenas para chegar ao prédio em que ficava. Quando seu chefe a chama atenção por suas longas ausências, em uma das vezes que teve que atravessar toda aquela distância debaixo de chuva e de salto alto, ela acaba levantando um pouco mais a voz e se mostra visivelmente irritada com a situação. Ou seja, ninguém sabia o que ela passava todos os dias, então, quando ela reage de maneira mais enérgica, é interpretada como exagerada, passional, por seus colegas, como acontece com as mulheres negras no seu cotidiano,

3 – Racismo

Assim como as microagressões, o racismo é apresentado muitas vezes de forma sutil, mas sistêmico. As três personagens não são apenas mulheres, são negras, o que as coloca em situações constrangedoras apenas m função da cor de sua pele. Katherine tem que tomar café em uma garrafa separada, porque seus colegas se recusam a tomar café da mesma garrafa que uma mulhere negra. Elas têm sua capacidade questionada o tempo todo, mesmo diante de evidências concretas de sua genialidade, mas certamente, um dos momentos mais significativos em relação ao racismo é quando Mary (Janelle Monáe) decide lutar em juízo pelo direito de frequentar uma faculdade onde negros não eram admitidos. Isso, porque em tese, ela poderia se candidatar ao cargo de engenheira que almejava, não fosse o fato de sua encarregada dizer que as regras haviam mudado e ela precisaria de uma pós-graduação.

Toda vez que temos a chance de chegar a algum lugar, eles mudam a linha de chegada. Toda vez!
4 – Apagamento histórico

Já havíamos falado sobre o apagamento histórico que as mulheres sofrem quando contamos o caso de Cecilia Payne, astrônoma responsável por diversas descobertas importantes e que não levou crédito por elas. Esse apagamento consiste na não menção das mulheres na historiografia de diversas áreas ou no fato de que essas mulheres não foram creditadas por suas produções, como também foi o caso da artista plástica Margaret Keane, cuja biografia foi contada no filme Big Eyes, de Tim Burton. Keane teve toda sua obra creditada ao marido, prática mais comum do que parece.

Assim, somos levados a acreditar que a história foi feita exclusivamente por homens. O “homem” pisou na lua e senão fosse a pesquisa constante de outras mulheres no sentido de trazer à luz os nomes dessas pesquisadoras, artistas, físicas, cientistas, atrizes… Nós jamais saberíamos que se não fossem essas três mulheres o homem teria demorado muito mais para sair da órbita da Terra, pois foi graças aos seus cálculos que tal proeza foi possível. No entanto, quando foi que ouvimos falar delas?

O apagamento das mulheres é algo tão recorrente e real que existe uma linha de pesquisa em História dedicada a reverter os danos causados por estas ações, por meio de publicações e pesquisas constantes: História das mulheres, estudo do papel que as mulheres têm desempenhado na história e os métodos necessários para fazê-lo. Inclui o estudo da história do crescimento dos direitos da mulher ao longo da história, o exame de grupos de mulheres de importância histórica individual e o sentido que os acontecimentos históricos tiveram sobre as mulheres. Inerente ao estudo da história das mulheres é a crença de que os arquivos mais tradicionais da história minimizam ou ignoram as contribuições das mulheres e o efeito que tiveram sobre as mulheres como um todo; a este respeito, a história das mulheres é muitas vezes uma forma de revisionismo histórico, buscando desafiar ou ampliar o consenso histórico tradicional. (Wikipedia)

“A história das lutas das mulheres e do feminismo remota há mais de 200 anos, sendo marcada por diversos momentos e fatos históricos marcantes. Geralmente, considera-se como marco da historiografia feminista a luta organizada das mulheres por igualdade de direitos e deveres durante a Revolução Francesa.
Mas se pensarmos na história do feminismo em um sentido mais amplo, considerando também os momentos em que mulheres, individual ou coletivamente, protestaram contra as diversas formas de dominação patriarcal (seja em suas vertentes racistas, capitalistas e heteronormativas ou não) e reivindicaram para si condições de vida melhores, essa história e os fatos que a marcam são muito mais diversos.” ( Via Universidade Livre Feminista)

Assim, além dessas lições que menciono, há certamente outras que podem ser aproveitadas inclusive de forma pedagógica, uma vez que racismo e gênero são temas atuais e que nem sempre os professores têm o devido preparo para abordar. Para saber mais: As Mulheres reais que inspiraram o filme.

E você? Que outras lições aprendeu com esse filme maravilhoso e necessário? Conta pra gente nos comentários da nossa Fan Page.

 


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Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial – ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.