RPG Pesadelos Terríveis

Por Jess Mary

Inspirado no universo da HQ Beladona, de Ana Recalde e Denis Mello, o jogo narrativo Pesadelos Terríveis chegou para transformar nossos maiores sonhos em pesadelos – e essa será uma experiência fantástica, prometo.

Desenvolvido por Jorge Valpaços, o jogotem como cenário o universo onírico de pesadelos e sonhos. O sistema “storyteller” dá toda a liberdade ao jogador ou narrador de criar uma narrativa própria e repleta de perigos.

A construção do cenário é trabalho conjunto do narrador e do jogador e usa elementos do mundo onde vivemos. Por exemplo, é possível criar uma narrativa em que o cenário se passa em São Paulo, no século XXI, entre as ruas mais movimentadas do centro como também é possível criar um contexto que se passa no século XV, na Bahia. Essa parte da criação se chama “Nosso Mundo”, de modo que você utiliza o tempo, o espaço e a cultura das pessoas que o desenvolvem.

A criação do “Nosso Mundo” se dá por meio de 3 passos: o Antes, o Agora e o Depois. Cada um desses 3 passos possuem 4 lacunas, que são chamados de “Traços ou Traumas”.  Cada jogador vai preencher essas lacunas com Traços e Traumas, no caso, um jogador que criou um Traço deve criar um Trauma e quem criou um Trauma deverá criar um Traço.

Jorge dá um ótimo exemplo para explicar essa base:

“Entende-se por Antes, Traços ou Traumas prévios ao tempo presente do Nosso Mundo. Ao pensarmos em uma cidade idealizada do Brasil, podemos inserir como Traumas a Escravidão e a Ditadura Militar, por exemplo. Como Traços, poderíamos ter Diversidade Cultural e Riqueza Biológica.”

Todos os problemas e virtudes da nossa sociedade (ou de outros tipos de sociedade) podem ser usados na construção do cenário, facilitando o uso desse sistema em qualquer tempo.

No “Antes”, fala-se sobre algo que pode ter acontecido, como diz o exemplo de Jorge:

Antes – Traumas: um assassino serial fez dezenas de vítimas aqui; muitos sofreram com a falta de saneamento. Traços: bairro indiano com antiga ocupação inglesa; grande concentração populacional.

No “Agora”, fala-se do tempo presente do cenário:

Agora – Traumas: altos índices de assaltos e furtos; persistência da estrutura de castas e imobilidade social. Traços: alto nível de instrução da população; vida urbana cosmopolita.

E no “Depois”, fala-se das consequências:

Depois – Traumas: explosão das contradições sociais; com revoltas urbanas; ascensão de intolerância religiosa. Traços: desenvolvimento da indústria robótica; polo cultural a ser reconhecido pelas expressões musicais.

Logo, os Traumas podem ser fatos que tenham causado certo impacto no local do cenário e os Traços são as características que dão cor a esses fatos e cenários.

Simultaneamente ao “Nosso Mundo”, há o “Mundo dos Pesadelos”, lar dos horrores mais antigos da humanidade (estes medos são chamados de “Medos Primordiais”), que estremecem desde o mais novo dos humanos, até o mais velho. Este Mundo é alimentado pelo simples fato do “pesadelar”: todo mundo sonha e todo mundo têm pesadelos, mesmo que não se lembre (vamos falar sobre isso mais à frente). E isso mantém o “Mundo dos Pesadelos” muito bem vivo. No entanto, esse Mundo pode influenciar o “Nosso Mundo”, pois nele há grupos de pesadelos que disputam a liderança do “Mundo dos Pesadelos”, não há uma estabilidade, mas conflitos constantes.

De acordo com a sua criação do “Nosso Mundo”, há um “Mundo dos Pesadelos” correspondente. Por exemplo, se o seu cenário se passa naquela sociedade do século XV na Bahia, então, o “Mundo dos Pesadelos” correspondente a sua sociedade será de acordo com os medos desse século, se relacionando entre si.

Para entrar no “Mundo dos Pesadelos” só é preciso adormecer. Qualquer ser humano que possua alguma angústia ou mágoa pode acessar o “Mundo dos Pesadelos”.

“Mas e se eu tiver algum sonho bom? É no Mundo dos Pesadelos também?”

Um sonho bom, como explica Jorge, nada mais é do que uma projeção dos desejos humanos. Não há nenhuma interferência de um sonho bom com o Mundo Real. Isso é ruim para os Pesadelos, pois, “os Medos Primordiais são as fontes para a criação dos Pesadelos”.

A construção da narrativa segue com o preenchimento dos Domínios e Conflitos que irão embasar o cenário dos Pesadelos. Domínio é a área de atuação do Pesadelo, por exemplo, o Pesadelo Palhaço encontra-se no Domínio dos Medos Infantis, fazendo que Pesadelos que se relacionem com máscaras, bonecos caricatos, circo façam parte desse Domínio. Os Conflitos podem ser algo que gere alguma revolta no “Mundo dos Pesadelos”, assim como a interferência desses Pesadelos no “Nosso Mundo”.

E como já falamos antes, todo mundo sonha, mesmo que não se lembre. O fato de você não se lembrar do seu sonho no jogo se deve ao pesadelo ter sido tão cruel que sua consciência não conseguiria conviver com o que foi visto.

Os personagens criados na narrativa se chamam “Sonhadores”. Estes Sonhadores são os únicos que possuem a habilidade de lembrar-se do que viu no “Mundo dos Pesadelos”. E isso acontece porque o Sonhador conseguiu “abraçar” seu Medo, fornecendo poderes advindos dos Medos Primordiais ao mesmo para superar os conflitos no “Mundo dos Pesadelos”. Você pode escolher não superar os conflitos, contudo, isso vai fazer com que os Medos cresçam. E se optar por superar e usar seus poderes, com o tempo, você acaba não sabendo diferenciar o que é fantasia do que é realidade, já que vai perdendo a sanidade.

“Pesadelos Terríveis” é um jogo de terror fantástico que oferece uma riqueza inestimável de possibilidades de narrativas. Embora seja “storyteller”, a rolagem de dados é importante e não deve ser banalizada, pois, se acaso houver um número maior de Traumas do que Traços em uma determinada Cena, há a rolagem de dados, dando para o vencedor do melhor resultado (sendo Narrador ou Jogadores) o direito de conclusão da cena, acréscimo de detalhes. Contudo, para o jogo acontecer não é preciso basear-se somente na rolagem de dados. A construção dos contos exige criatividade e muita história, sendo possível jogar em qualquer lugar. Se você gosta de sistemas de terror, esse sistema vale a pena.

Como jogadora de RPG, não via um sistema tão rico de detalhes e, ao mesmo tempo, tão livre para se criar há tempos. Os mesmos sistemas de sempre têm me entediado justamente por serem tão presos a regras e rolagem de dados, sem dar muito espaço para a construção da história em si.

E para quem gosta e joga RPG, entendemos a importância e a liberdade que essa possibilidade de jogo abre para nós, desenvolvendo habilidades da leitura, escrita, da criatividade, além de liberar a tensão mental que adquirimos com as inúmeras dificuldades de nossas vidas.

Já salientando isso, é interessante ver o cuidado de Jorge Valpaços em sempre enfatizar que “Pesadelos Terríveis” é um jogo. Os Medos, Traumas e situações a redor do campo das doenças mentais são usadas para compor a narrativa lúdica do jogo, mas não são tratadas no RPG de maneira científica ou clínica. A maneira como são tratadas no jogo não equivalem a importância pela qual devem ser cuidadas na realidade.

Antes de jogar, converse com as pessoas da roda sobre possíveis gatilhos que deverão deixar de fora, respeitando o espaço de todos. RPG é para ser divertido e enriquecedor, não causar desrespeito e sofrimento aos que estão jogando. Cabe a cada jogador e ao narrador entender e respeitar os limites dos que estão se propondo a jogar. Por ser uma temática de terror, conversem bastante entre si e mantenham os cuidados sempre a postos.

Para os fãs de terror, esse sistema é totalmente autêntico e proveitoso, sendo um dos melhores que eu já vi! O RPG pode ser comprado no site da Editora AVEC e custa 34,90. Eu já estou ansiosa para narrar! E você? Quer jogar? 🙂

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Sobre a autora:
Jess Mary, Jessie, mas também pode ser Mai. “Anti-capa voadora, domadora de leões”. Inocente, antes que digam algo contra mim. Apaixonada por dragões e mitologias, aspirante a roteirista, nerd, rica, mas perdi tudo na enchente. Uma hobbit, uma elfa, uma deusa, uma louca, uma feiticeira. Sem educação, metida a engraçadinha e mentirosa. Já falei que sou ex-BBB?

 

 

 


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.