As mulheres e as pinturas rupestres

Quando as primeiras cavernas com pinturas rupestres foram encontradas no século 19, muitos cientistas acreditavam se tratar de uma “pegadinha”, porém, com o passar dos anos, mais de 300 cavernas foram descobertas na região da Espanha e França, levando pesquisadores de todas as partes do mundo a tentar desvendar seus mistérios, principalmente depois dos anos 1950.

Mesmo assim, após tantas décadas de estudo, as pinturas rupestres ainda representam um grande mistério e constantemente novas informações surgem e desmentem hipóteses anteriores. Uma delas se refere à pesquisa do arqueólogo Dean Snow, da Universidade da Pensilvania, EUA.

Segundo matérias publicadas na National Geoghaphic e no site do maior museu do mundo, o Smithisonian, a conclusão dos estudos de Snow levam a crer que cerca de 75% das pinturas rupestres encontradas na Espanha foram produzidas por mulheres.

Cave of Beasts (Gilf Kebir, Libyan Desert)
https://en.wikipedia.org/wiki/Cave_painting

Por meio de comparações entre os tamanhos das mãos de esqueletos da época e de características biológicas que marcam as mãos de cada gênero, o arqueólogo afirmou que a julgar pelo comprimento dos dedos das imagens impressas nas paredes, não só as pinturas eram feitas majoritariamente por mulheres, como também grande parte de toda arte produzida nos períodos que antecederam o uso da linguagem.

Embora seus estudos não tivessem ainda sido concluídos na época da publicação das matérias, Snow entendia que suas descobertas representavam um fato ainda mais importante: na medida que aprendemos mais sobre essas pinturas, mais precisamos repensar a nossa compreensão das sociedades e suas estruturas.

Por muito tempo acreditou-se que as mulheres desempenhavam o papel restrito ao ambiente “doméstico”, quando na verdade, as pinturas indicariam que elas não só estavam envolvidas na caça e no abate de animais, como também na produção da arte, comumente atribuída aos homens.

Porém, de acordo com o documentário Como a Arte fez o Mundo, produzido pela BBC, outro grande equívoco propagado até há pouco tempo, é o de que essas pinturas estariam associadas exclusivamente à caça. Fósseis de esqueletos dos animais encontrados nas regiões das cavernas e estudos detalhados da fauna, demonstraram que praticamente nenhum dos animais retratados nas cavernas teriam habitado a mesma região que seus pintores.

 

De acordo com a produção inglesa, a partir de estudos de sociedades tribais que ainda habitam regiões parecidas com as que são encontradas as cavernas, as pinturas foram produzidas em rituais religiosos associados ao uso de alucinógenos, o que explicaria o fato dos animais representados não se parecerem com os que eram caçados. Não só isso, assim como as pequenas madonas encontradas em sítios arqueológicos do mundo todo, as pinturas são muito parecidas, ainda que seus povos nunca tenham se encontrado, comprovando alguns estudos sobre como as representações mentais induzidas por processos alucinógenos externos se assemelham, independentemente da cultura de quem as reproduz.

Essas informações são relevantes não só para a compreensão das estruturas sociais antigas, mas principalmente, para a compreensão sobre o significado da Arte para nós. A arte está associada à capacidade de abstração e ao lazer, uma atividade não relacionada às obrigações sociais vigentes e ao longo da história, tem sido registrada, equivocadamente, como uma atividade mais associada aos homens.

Os estudos então demonstrariam uma tendência ainda muito mais antiga do apagamento feminino do que imaginávamos, uma vez que muito do que foi atribuído aos homens até hoje, possa ter sido produzido por mulheres.

As cavernas mais importantes com as mãos pintadas são as de El Castillo e Maltravieso na Espanha e Gargas, Tibiran e Pech-Merle. Mas há muitos mais cavernas com impressões de mãos em suas paredes: Atapuerca, na Espanha, Altamira, El Pinal, Santián e Pasiega. França estão em Le Portel, Badeilhac, Ganties-Montespan, Trois-Freres, Rocadour, Cap Blamc, Sergeac, Font-de-Gaume, Bernifal, Combarelles, Beyssac, Arachambeau, Bara-Bahau, Baume-Latrone, Collias e Grotte du Vega. Há também são pintadas em cavernas Argentina, Borneo, África e Austrália.

 


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Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.