Cláudia Lemes e seus serial killers

Com trabalhos que se esgotam nas livrarias e são citados em listas especializadas, Cláudia Lemes desafia os estereótipos de gênero ao criar histórias de amedrontar os mais corajosos leitores de thrillers. Autora de livros como Eu Vejo Kate – O despertar de um serial Killer e Um Martini com o Diabo, Cláudia tem se dedicado a estudar perfis de assassinos famosos para que, ao escrever seus livros, eles não sejam apresentados de forma tão romantizada como estamos acostumados a ver em seriados e filmes que acabam “glamurizando” estes personagens.

Conheci a escritora em um evento beneficente organizado pelo site Juicy Santos e que se chamava Mulheres que causam. O nome não poderia ser mais apropriado, uma vez que, ao ouvirmos o depoimento de Cláudia sobre o sexismo enfrentado pelas autoras de diversos estilos, concluímos que é preciso causar se quisermos ocupar certos espaços.

Esse mesmo sexismo, que perpetua uma série de estereótipos e convenções, é responsável pelo fato de tantas mulheres, como a própria J.K. Rowling, preferirem adotar pseudônimos ou abreviações de seus nomes para que seu gênero não seja entregue tão facilmente na hora que um leitor está procurando um livro para ler. É na perpetuação de convenções que associam a mulher a valores ligados à delicadeza e sensibilidade que surge o estranhamento de muitas pessoas ao ligarem a imagem da autora, mãe de 3 filhos, à violência descrita em seus livros. Não só isso, é devido ao sexismo que se criou a ideia de uma “escrita feminina”, como se mulheres devessem se restringir a certos papéis e à reprodução de uma gama bem específica de estilos literários.

“O termo literatura feminina só existe porque somos vistas como algo à parte, um grupo que se situa fora dos princípios de universalidade que transcende a materialidade do autor.” (Por que é importante ler mulheres?)

Pensando em tudo isso, resolvemos bater um papo com a Cláudia e saber mais sobre seus livros e seu canal no Youtube:

Me fale um pouco da sua trajetória como escritora.

Eu escrevo desde os 13 anos, mas não tinha coragem de tentar entrar no mercado. Em 2012 vi uma entrevista da Madonna com a Ellen DeGeneres, na qual ela falava que não cabe a nós julgar nossa arte como inferior a dos outros e não é justo impedir que o mundo não a conheça, uma vez que você é única e este momento é único. Nunca existirá, por esse motivo, uma arte como a sua. Foi um momento importante para mim. A partir daí decidi compartilhar minha escrita com o mundo. Autopubliquei alguns livros até escrever Eu Vejo Kate, em 7 dias, de luto pela morte da minha mãe. O livro fez bastante sucesso entre os leitores e fui convidada pela Editora Empíreo a publicá-lo com eles. Um ano depois eu lancei o segundo romance pela Editora, Um Martíni com o Diabo, e este ano estou lançando meu primeiro livro de não-ficção, para autores de literatura de entretenimento, chamado Santa Adrenalina! Um Dia Para Quem Quer Escrever Thrillers.

Quais são os pontos em comum entre seus livros? Qual é o gênero que eles costumam ser classificados?

Eu sempre escrevo personagens realistas, sem “mocinhos” ou “bandidos”, e sempre carrego a trama com violência e sexo. São temas importantes para mim. Como autora eu tento dar aos meus leitores uma boa história, criatividade ao abordar os temas, um final eletrizante e honestidade sobre como as pessoas são, pensam, e o que fazem. Quero que o leitor chore, dê risadas, sinta medo e ansiedade e tristeza. Se conseguir fazer alguém pensar, é um bônus. Mas meu foco é entreter. Meus livros geralmente são classificados como romances policiais, mas em essência, são diferentes. O Kate é um thriller, o Martini é um noir.

Quando você diz que trata sobre Serial Killers sem romantizá-los, no que sua abordagem se difere das demais?

Eu acho que começou pela pesquisa. Eu estudo serial killers desde 2003. Perdi a conta de quantos livros, artigos e documentários assisti sobre eles, sobre investigação, sobre profiling…Fiz cursos sobre Sexologia Forense, Psicologia Social, Psicologia Jurídica e Investigação. Então ficou muito difícil romantizar o assassino em série, retratá-lo como um gênio elegante que está sempre um passo a frente da polícia. Eu queria mostrar um serial killer como ele realmente é: um sádico, com inteligência média, vivendo uma vida comum, fantasiando com a próxima vítima até conseguir matá-la. Sem rituais meticulosos e exagerados, sem todo aquele fator “uau” de Hollywood. E acho que sentir que aquele cara pode ser seu vizinho, seu namorado ou seu pai é mil vezes mais assustador do que pensar nele como alguém que você nunca vai conhecer.

Que tipos de argumentos e comentários você não aguenta mais ouvir como escritora?

Um deles é que uma obra de uma autora brasileira precisa (pre-ci-sa!) ser ambientada no Brasil. Eu penso em Shakespeare escrevendo sobre Hamlet na Dinamarca e Nabokov escrevendo sobre Lolita nos EUA e não entendo esse pensamento (de limitar a literatura, de impor regras à arte). Entendo que devemos “valorizar o que é nosso”, mas essa frase geralmente vem de pessoas que preferem ler autores americanos do que brasileiros. Eu acho sim que precisamos descobrir histórias num Brasil novo, globalizado (americanizado?), mas não concordo que você precisa ambientar todas as suas histórias aqui. Precisamos escolher o ambiente perfeito para cada história. No caso de serial killers, eu queria focar na parte da investigação, que no Brasil é feita de forma completamente diferente do que nos EUA. Era um livro que só fazia sentido lá. O Martini fala da máfia italiana em Las Vegas dos anos 90. Só fazia sentido lá. Já meu livro atual se passa no Brasil, porque só faz sentido aqui.

O que foi mais difícil em sua carreira: publicar o primeiro livro, manter o mesmo nível de qualidade nos seguintes ou conciliar a maternidade com a escrita?

Acho que conciliar a maternidade com a escrita é muito difícil. Eu tenho um filho de 12, uma filha de 8 e um bebê de um ano e meio. Eles estudam meio período. Além de escritora, eu sou professora e dou aula até as 23h00. comando dois canais do YouTube, escrevo para páginas de literatura na internet e contribuo com contos para antologias. Faço traduções para complementar a renda e cuido da casa. Como autora, eu preciso ler e escrever todos os dias. Então como é possível? É uma loucura. A maioria das pessoas não sabe que entre um parágrafo e outro que escrevo eu estou com o bebê no colo, mexendo no teclado, estou fazendo almoço e respondendo mensagens inbox e emails. Não sabem que as melhores ideias para plot twists e cliffhangers eu tive às 5 da manhã, correndo na esteira antes das crianças acordarem. Minha vida é uma loucura e isso me impede de ter um método para escrever, de ter horários fixos para trabalhar nos meus livros, de sair para happy hours com editores, de estar presente em todos os eventos de lançamento do mês. Mas meu estilo de vida foi escolha minha e eu não o mudaria por nada, então só consigo dar o meu melhor.

De onde vem seu repertório? Costuma fazer cursos? Que outras produções te inspiram?

Eu leio muito sobre técnicas literárias e sou uma leitora compulsiva desde os 7 anos de idade. Eu sempre estou lendo dois ou três livros ao mesmo tempo, é mais forte do que eu. É um vício. Mas eu realmente aprendi quando comecei a ensinar, com o curso sobre escrita de thrillers que comecei a dar este ano. O curso foi tão bem sucedido que a Editora Lendari encomendou um livro sobre ele, que já está em pré-venda. Sou inspirada por tudo o que leio e vejo, todos os dias. Meus autores preferidos me inspiram muito. Amo o irlandês Frank McCourt, James Ellroy, Stephen King, Kurt Vonnegut, Anne Rice e muitos, muitos outros.

Fonte: http://www.queriaestarlendo.com.br/2016/12/resenha-um-martini-com-o-diabo.html
E quanto à síndrome do impostor? Você ainda lida com ela eventualmente ou nunca foi uma preocupação? Como podemos lidar com a sensação de não ser boa o suficiente em um meio tão machista?

Seria besteira falar que o meio literário não é machista. A literatura reflete a sociedade, que é machista. Há relatos de autoras que mandaram a mesma quantidade do mesmo original, metade com um pseudônimo masculino, e a outra com o nome real delas. Além de receberem muito mais respostas para os originais “masculinos”, o tipo de resposta era diferente; mais encantada, mais receptiva. Uma obra literária escrita por um homem é encarada como uma obra que toca questões essencialmente humanas, enquanto obras escritas por mulheres são vistas como trabalhos que falam do mundo feminino. Como autora de suspense e policial, eu percebo que quando sou convidada para eventos sobre literatura policial, geralmente eu sou a única mulher na mesa. Quando sou convidada para eventos de literatura feminina, sou a única que escreve suspense. E conheço dezenas de mulheres que escrevem esse gênero e são boas.

Mulheres são bem aceitas no mercado, mas para escrever romances românticos, chick-lit e eróticos. Quando o âmbito é fantasia, ficção científica, terror e suspense, o quadro muda. Os homens não querem você ali. Fazem deduções de que seu livro não é “forte” o suficiente. Todos? Não. Conheço muitos autores e publishers que me ajudaram muito na minha carreira. Mas sim, são exceções. Os famosos te dizem inbox que amaram teu livro, mas em público só recomendam os dos brothers. Acho que muitos nem percebem que fazem isso. Então para conseguir respeito você rala o dobro. Quando você escreve um livro foda e a única reclamação que os caras têm é da presença de sexo não romântico, casual, praticado por uma mulher não-submissa, e você pergunta para eles por que nunca reclamaram do sexo em O Poderoso Chefão e As Crônicas de Gelo e Fogo, e eles não sabem responder, você chega a sentir o gosto do machismo.

É difícil mesmo. Eu sei que sou boa autora, mas toda vez que penso isso, é como se ouvisse uma advertência, em voz masculina, me falando para não ser arrogante. Então como você consegue reunir forças para escrever e publicar livros tão íntimos, se não pode se sentir orgulhosa do seu trabalho? Como escrever sobre estupro sem ter segurança? Como escrever sobre sexo sem ter autoestima? Autores têm egos enormes, e machismo tem muito a ver com ego. O ego gera o machismo para se manter, e o machismo alimenta o ego, num ciclo vicioso. Então autores do sexo masculino parecem não ter medo de elogiar seus próprios livros, de se divulgarem como escritores brilhantes e corajosos. Se você, como mulher, ousa expressar orgulho por ter passado noites em claro escrevendo algo realmente BOM, as portas começam a se fechar e você vira, no imaginário deles, uma pessoa arrogante. Então começamos a duvidar do nosso talento, achamos difícil aceitar elogios, e isso é corrosivo para a criatividade e produtividade. Eu já cheguei num ponto de achar que todos os elogios feitos a mim tinham segundas intenções. Levei um tempão para aceitar que as pessoas realmente gostavam do que eu escrevo. Precisamos ser fortes pra caramba, apenas para continuar.

Por outro lado, há mulheres fortíssimas nas maiores editoras do Brasil, e elas estão abrindo espaço para autoras como eu e como tantas outras que tive o prazer de conhecer nos últimos anos. A balança está querendo se nivelar. Chegaremos lá.

Houve um momento decisivo em que você finalmente entendeu que era uma escritora?

Acho que quando segurei o Eu Vejo Kate nas mãos, na Fnac da Avenida Paulista, na noite do lançamento. Aquilo foi arrepiante, de um jeito delicioso, inesquecível.

Por que o medo e o suspense são importantes em nossas vidas?

Acho que vivemos em meio a tanta dor e injustiça que queremos ver a ordem ser restaurada. Li isso uma vez, mas não lembro onde, e finalmente entendi porque eu escrevia o que escrevia. O livro geralmente começa com a stasis, com o protagonista no seu mundo normal, até o evento que muda tudo, quando alguém morre ou é sequestrado. E começa uma luta, interna e externa, para fazer justiça, para restabelecer a ordem. Acho que isso dá satisfação ao leitor. E o autor se sente como um herói, pelo menos por alguns minutos.

O medo é a maior defesa natural do ser humano. É importante. Eu acho que alguns hormônios, como a ocitocina e a adrenalina, são viciantes. O medo liberta essa adrenalina, e em bons thrillers isso acontece diversas vezes. Podemos correr um risco seguro, por sentir empatia e  identificação com o protagonista. E podemos, através dos livros, muitas vezes, ver o bem vencer.

Tenho percebido um número cada vez maior de mulheres que se interessam por filmes, livros e produções gore ou de terror.  Você percebe alguma diferença no tratamento dado às personagens femininas quando produzidas por homens ou mulheres?

Acho que cada vez mais as mulheres estão conscientes de que podem escrever sobre mulheres reais. Houve um momento em que decidimos não colocar mais as mulheres como vítimas, e o movimento contrário foi criar mulheres badass ao extremo. O problema é que ficou tão “extremo” que acho que mulheres reais não conseguem se identificar com essas heroínas que nunca sentem medo, que lutam com dez homens de uma só vez. A figura da protagonista badass é importante, mas acho que ser uma mulher forte não é ser uma mulher violenta. Acho que podemos escrever sobre mulheres reais, e que são heroínas por serem reais. Nos meus livros eu tenho de tudo: mulheres que são vítimas (porque na vida real nós somos vítimas de opressão, tortura, estupro, mutilação e assassinatos), mulheres que são más, mulheres que lutam por elas mesmas e mulheres que lutam pelos outros. Gosto de escrever sobre mães, prostitutas, esposas, filhas, policiais e líderes. Mas sempre reais. Sempre falhas e humanas. Os autores homens estão tentando acompanhar as mudanças, acho, mas a maioria ainda escreve sobre personagens e caricaturas, e não mulheres reais.

Há algum tipo de mito ou crença que as pessoas tenham em relação à você e que não bate com a realidade? Como por exemplo acharem que vc é gótica ou pouco sociável por escrever histórias consideradas pesadas? Lembra de algum caso engraçado?

Sim! Muita gente estranha quando posto foto de cookies caseiros que acabei de fazer, ou que estou me acabando de chorar assistindo Grey’s Anatomy. Muita gente ainda acha que para escrever o que escrevo, com o nível de violência que escrevo, eu deveria ser mais “louca”. Eu tive essa fase gótica/revoltada/drogada, mas isso foi nos anos 90. Eu gosto de poder ser a mulher que passou a tarde inteira trocando fralda e a noite inteira num podcast sobre O Exorcista. A maioria das pessoas já entendeu isso. Algumas ainda estranham quando apareço no evento de terror usando sapatos de salto rosa. É nossa mania de colocar pessoas em caixas para termos a sensação de que as conhecemos, quando na verdade não estamos muito dispostos a saber quem elas realmente são. Eu entendo que preciso ser uma pessoa pública para ser publicada e lida no Brasil. Mas meus traumas, minha sexualidade, minha intimidade são meus tesouros. Eles são combustível para minha arte e me tornaram mais forte, e consigo mantê-los para mim. Quando toco em certos assuntos, é sob minhas regras e condições, e estou feliz assim. Não quero usar meus problemas para vender minha literatura porque não quero minha alma numa vitrine. Então se acabo desapontando as pessoas por não ser “damaged” o suficiente…paciência. Espero que leiam meus livros pela qualidade deles, não por quem eu sou.

Quanto aos seus leitores: quem são? Seu público é variado? Você escreve pensando em um público alvo? Quem seria?

As mulheres leem mais no Brasil, num geral. Hoje meu público parece estar em 70% mulheres e 30% homens. Mas são todos os tipos de pessoas, de todas as idades e backgrounds sociais. E eu gosto disso. Mas não penso no leitor quando escrevo. Se fizer isso não me mantenho fiel a história que quero contar. É claro que penso no impacto de cada palavra no leitor, mas não escrevo unicamente para agradá-lo. Há mais coisa envolvida no processo. É mais íntimo do que isso.

Onde podemos encontrar seus livros e você sugere uma ordem para quem quer começar a lê-los?

Não existe uma ordem. Eu Vejo Kate é bem cru, bem visceral, sangrento. Um Martini com o Diabo tem uma escrita mais madura, só que um pouco mais leve. É fácil encontrar meus livros online e em grandes livrarias, como a Fnac, Cultura, Saraiva e Livrarias Curitiba. Também estão disponíveis em e-book na Amazon. São bons livros para quem quer ler rápido e se sentir numa montanha russa, e para quem quer sair da zona de conforto.

Obrigada, Cláudia! Quem quiser acompanhar seus  vídeos sobre serial killers ou sobre dicas de coomo escrever, é só seguir seu canal:

 

 


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Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.