A representação feminina nos filmes de Miyazaki

O diretor japonês Hayao Miyazaki é internacionalmente famoso por suas animações de drama e aventura infanto-juvenis, produzidas pelo igualmente aclamado estúdio Ghibli. Vocês já devem ter ouvido falar de alguns de seus filmes mais populares no ocidente, como A Viagem de Chihiro, que venceu o Oscar de Melhor Filme de Animação em  2003 (e, inclusive, foi o primeiro filme de língua não-inglesa a receber o prêmio).

A qualidade da animação e dos roteiros assinados por Miyazaki é excepcional, sem dúvida; contudo, existe mais uma característica que marca os filmes do diretor. E essa característica é particularmente interessante: quase todos os seus filmes (quase todos mesmo: cerca de 8 dos seus 11 longa-metragens) possuem protagonistas femininas.

Essa peculiaridade chamou a atenção da pesquisadora Jane Carmen Oliveira, que escreveu sua monografia do curso de Cinema de Animação da UFMG sobre o assunto.  Durante uma mostra de filmes do estúdio Ghibli realizada pela Fundação Clóvis Salgado, ela foi convidada para comentar alguns filmes e foi assim que conheci a ela e a seu projeto. Ela respondeu gentilmente ao meu convite pra responder a algumas perguntas sobre o tema:

 

Foto do diretor japonês Hayao Miyazaki (fonte: japantimes.co.jp)

 

Sociedade patriarcal e produção cultural

 

Na sua pesquisa, você cita Manuel Castells, que diz que a manutenção da autoridade masculina exige a reprodução da estrutura patriarcal na produção e consumo, política, legislação e cultura. Como a produção artística e cultural, em especial o cinema, podem influenciar esse contexto?

O Cinema é bastante acessível e tem um alcance enorme, incluindo de público infantil, que é mais suscetível que os demais públicos, por ainda não ter uma visão crítica consolidada. Quando certos tipos de comportamentos são adotados por “heróis”, e aí incluo bons e maus exemplos, muitas vezes isso vai ser absorvido pelo público, validado, normalizado e até mesmo reproduzido. Acredito que isso pode influenciar até na forma como alguém enxerga a si mesmo e seu lugar no mundo, em especial no caso da criança e do(a) adolescente.

Saiu uma pesquisa há pouco tempo mostrando que garotas de 6 anos de idade já se sentem menos inteligentes que os colegas de classe do sexo masculino. Apesar de a pesquisa não chegar a  uma conclusão  sobre o motivo disto ocorrer, o estereótipo do “gênio”, pessoa “brilhante”, principalmente nas áreas de exatas, é frequentemente associado ao gênero masculino, e isso é perpetuado nas telas.

[Fonte da pesquisa: theatlantic.com]

A sociedade japonesa é notoriamente machista: dados divulgados pelo Fórum Econômico Mundial o classificaram na 101ª posição, de um total de 145 países, em igualdade de gênero. E, curiosamente, foi lá que nasceu e produziu por toda a sua vida Hayao Miyazaki, diretor de animação notório por suas histórias de aventura com protagonistas femininas fortes. Você tem algum palpite sobre o porquê disso?

Bom, o Miyazaki não gosta muito de falar sobre sua preferência por protagonistas femininas, acho que até porque é algo que já foi muito perguntado, desde o início da sua carreira como diretor de longas-metragens, lá nos anos 80. Durante a minha pesquisa, encontrei apenas poucas entrevistas em que ele explica porque ele preferiu que a protagonista fosse uma mulher.

Em uma delas, sobre Nausicäa, Miyazaki diz que fez isso para criar um choque: ao retratar a personagem principal carregando armas, sendo uma mulher, ele esperava ressaltar esse ato violento. Ao mesmo tempo, o fato de ela ser uma mulher permitiria que ela resolvesse os conflitos de uma forma diferente do que costuma acontecer em filmes do gênero: como uma pessoa empática, que busca compreender as coisas, algo que um homem não faria, na visão dele naquela época. (Que provavelmente mudou, pois Ashitaka, de Princesa Mononoke, é um protagonista masculino que tenta entender todos os lados do conflito e ser empático).

Em outra entrevista, ele menciona que Satsuki e Mei [personagens da animação Meu Vizinho Totorosão garotas porque seria muito sofrido para ele contar a história de Totoro na perspectiva de um garoto. Assim como no filme, a mãe do diretor permaneceu hospitalizada por muito tempo durante sua infância.

Existe uma citação famosa e muito compartilhada na internet, atribuída a Miyazaki, em que ele teria dito que suas personagens são mulheres corajosas e autossuficientes que não precisam de um salvador. Mas eu ainda não encontrei uma fonte confiável ou uma referência de alguma entrevista em que ele disse isso. O que ele responde normalmente, quando questionado sobre isso, é que ele simplesmente gosta de contar histórias com garotas.

Imagem extraída da animação A Viagem de Chihiro

 

Mulheres de poder

 

Você classifica os filmes do Miyazaki fazendo três perguntas principais: se há personagens femininas com nomes e/ou falas, se existe um grupo de mulheres/meninas e se há mulheres idosas. Essas são as perguntas que devemos nos fazer para definir se um filme possui representatividade feminina?

Essas perguntas foram feitas apenas com o intuito de ter uma visão geral por meio de dados numéricos e tentar reconhecer se haveria padrões de representação a serem estudados. Se há uma grande quantidade de mulheres com nomes e falas, a chance de as mulheres terem uma participação significativa no enredo é estatisticamente maior. Se há grupos de meninas, é interessante estudar como se dá a relação entre as personagens que compõe este grupo. Se há mulheres idosas que aparecem com frequência, cabe analisar como este grupo é retratado. Os dados numéricos não funcionam sozinhos sem uma análise de como é essa representação. Um filme poderia ter 10 personagens femininas e ainda retratá-las reforçando estereótipos de gênero.

Você classifica as personagens femininas de Miyazaki em quatro grupos: mulheres de poder, mulheres independentes, mulheres idosas e meninas. Na primeira classificação, coloca Nausicaä (de Nausicaä do Vale do Vento, 1985) e Sen (Princesa Mononoke, 1999), e usa para descrevê-las a palavra “viris”. Você acha que, ao escrever essas mulheres, Miyazaki apenas inverteu os papéis de gênero, dotando suas personagens de características tidas como masculinas para equipará-las a homens?

Bom, antes de responder à pergunta eu gostaria de ressaltar, pois para mim isso é importante, que eu não utilizo a palavra “viris” para descrever as personagens em si. O que eu digo é que elas possuem características tidas como viris pela sociedade patriarcal, tais como assertividade e aptidão para liderança – percebe que há uma diferença?

Alguns teóricos apontam que ele inverte esses papeis de gênero, mas eu não acho que seja apenas isso, pois ele dá às personagens outros traços que são associados ao “feminino”, como cuidado, preocupação, entre outros… Eu também não posso afirmar que ele queira equipará-las aos homens, até porque em alguns de seus filmes a sociedade representada é uma sociedade em que as mulheres são mais respeitadas que os homens, e não por terem essas características ditas “viris”, mas por serem consideradas mais sábias.

Ainda falando sobre os filmes Nausicaä do Vale do Vento e Princesa Mononoke, parece existir uma uniformidade em representar as vilãs como mulheres  frias, gananciosas e calculistas e as mocinhas como jovens emotivas. Isso é frequente nos filmes de Miyazaki? O que isso indica sobre o ponto de vista do diretor?

Aqui eu vou trocar o termo “vilã” por “antagonista”, porque não acho que essas personagens sejam de todo maquiavélicas. Mas isso ocorre em 4 dos 10 longas do diretor. Na minha interpretação, há uma valorização da emoção e da empatia ao retratar essas personagens dessa forma, mas não posso afirmar com certeza que ele fez isso intencionalmente para passar esta mensagem ou por ter um ponto de vista e uma opinião claras sobre o assunto.

Imagem extraída da animação Princesa Mononoke

mulheres independentes, idosas e meninas

 

Já entrando na segunda classificação (mulheres independentes), achei super interessante a comparação que Miyazaki faz e você ressalta entre a busca por independência da bruxinha Kiki (Serviço de Entregas da Kiki, 1989) e a vida de jovens japonesas que vão para a capital tentar ganhar a vida como autoras de mangá! Isso demonstra uma certa relação de suas personagens, que a princípio pertencem ao mundo das fábulas, com as mulheres reais. Esse paralelo com as questões enfrentadas pelas mulheres no mundo real é um traço comum nos filmes do diretor?

Sim, é um traço comum. Miyazaki, como todo bom animador, é uma pessoa extremamente observadora, e ele já mencionou que as jovens animadoras do estúdio Ghibli também foram uma fonte de inspiração para O Serviço de Entregas da Kiki, tanto para os conflitos vividos por ela como alguns maneirismos da personagem.

Em A Viagem de Chihiro, a personagem principal foi inspirada na filha de um amigo. E nos demais filmes, é possível observar que as angústias dessas personagens são também são as nossas angústias. Seus objetivos, por vezes, são também os nossos objetivos: ganhar confiança e parar de duvidarmos de nós mesmas, libertarmo-nos de um pai ou marido controlador, estabelecermo-nos profissionalmente, proteger a quem amamos…

Eu considero a terceira classificação que você usa – mulheres idosas – particularmente interessante. Isso porque personagens idosas e que tenham importância na trama infelizmente são raras nas produções culturais mainstream. Miyazaki parece querer realmente transgredir todos os papéis tipicamente esperados de mulheres nas narrativas tradicionais. 

Sim, eu acho muito interessante como ele dá a essas personagens um status de pessoas sábias, a quem por vezes os protagonistas vão se voltar em momentos de dificuldade, mas sempre retratando cada uma delas com sua própria personalidade. E eu gosto especialmente da personagem Dora, de O Castelo no Céu, uma matriarca cheia de energia e muito respeitada. É uma personagem maravilhosa, um retrato da velhice bem diferente do que estamos acostumados a ver.

 

sororidade, amizade e romance

 

Também é interessante o fato de os grupos de mulheres sempre serem mostrados como cooperativos e amigáveis, ao contrário da representação de mulheres como rivais que temos tão frequentemente na grande mídia.

Com certeza. Os grupos de mulheres normalmente ajudam a protagonista, como no caso das mulheres do reino de Pejite, em Nausicaa. E mesmo quando há uma rivalidade entre mulheres, antagonista e protagonista, isso se deve aos motivos mais variados, contudo nunca por inveja ou em busca do olhar masculino, como se vê tão frequentemente em outros filmes.

A relação entre as personagens femininas e masculinas, nas obras do diretor, são marcadas pela igualdade e companheirismo, não necessariamente romântico. Como se desenham os papéis masculinos na filmografia de Miyazaki?

Acho pode-se destacar três papeis que são mais comuns nos filmes do diretor: o personagem auxiliar ou co-protagonista, o homem subalterno e o homem hipermasculino. Vale ressaltar que a representação masculina não se resume a esses três estereótipos, só estou citando estes porque eles se repetem ao longo dos filmes. Há personagens completamente fora deste padrão, como Jiro [personagem da animação Vidas ao Vento] e o pai de Satsuki e Mei [personagens da animação Meu Vizinho Totoro].

O co-protagonista ou personagem auxiliar normalmente mantém essa relação que você citou, de companheirismo e igualdade, com a protagonista feminina. São homens valentes, mas empáticos, que muitas vezes ajudam a protagonista, mas que não têm uma posição de autoridade em relação a elas, são iguais. Em algumas ocasiões, os objetivos deste personagem irão se cruzar com os da protagonista, mas ambos adotarão posturas ativas para superar os conflitos em busca destes objetivos.

O homem subalterno, identificado por Joanna Philipot, é um personagem muito comum quando há uma mulher de poder na história. Esse personagem está normalmente em uma posição hierárquica inferior à da mulher e reforça a autoridade dessa personagem feminina, por quem nutre admiração profunda, seja ela líder, chefe, esposa ou mãe.

Já o homem hipermasculino é um alívio cômico. São personagens de comportamento absolutamente risível que fazem de tudo para se provarem másculos diante de outros homens, como os moradores da vila em O Castelo no Céu, que deixam escapar Sheeta e Pazu por iniciarem uma competição de quem tem mais músculos.

 

Imagem extraída da animação O Castelo Animado

 

Apesar de escrever personagens femininas muito diferentes das que vemos estrelando filmes, animações, quadrinhos e demais produções culturais, não se vê muita diversidade racial ou de corpos no trabalho de Miyazaki. A que você atribui isso? Pode ter a ver com o fato de o Japão possuir uma população pouco miscigenada?

Eu vou arriscar aqui, e deixo claro que isso é apenas uma opinião de alguém que estudou um pouco sobre, porém nunca viveu no Japão.

Acho que isso simplesmente não é uma preocupação. Mesmo tendo alguns estrangeiros e pessoas gordas no Japão, parece não haver um movimento forte sobre representatividade nesse aspecto. Acho que para fazer esse estudo é necessário fazer um recorte mesmo, porque não dá para encarar essa questão da forma como a gente encara aqui. A história é outra, o contexto é diferente.

Gostaria de fazer algum último comentário?

Eu queria, antes de tudo, agradecer o convite. Gosto muito do site e para mim é uma honra ter esse espaço aqui.

Queria também dizer que não me coloco aqui como uma superespecialista, mas como uma estudante, que também está aprendendo e procurando respostas e referências positivas de representação feminina, pois de negativas já estamos cheias. Por isso, acho importante o diálogo, pois aposto que outras pessoas também têm outras opiniões e observações sobre o tema.

A pesquisadora Jane Oliveira
Jane Carmen Oliveira sempre gostou de desenhar e de assistir a filmes e desenhos. Decidiu cursar Cinema de Animação da UFMG e, durante o curso, teve a oportunidade de realizar um intercâmbio de um semestre para a Université Sorbonne Nouvelle, em Paris. Lá, cursou uma disciplina específica sobre o Estúdio Ghibli e passou a interessar-se pelo trabalho de Miyazaki. De volta ao Brasil, escreveu seu Trabalho de Conclusão de Curso sobre representação feminina no trabalho do diretor, que lhe rendeu o título de Bacharel em Cinema de Animação.
 
Atualmente, trabalha no projeto Universidade das Crianças como ilustradora e animadora.

Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Laura Athayde

Após terminar a pós graduação em Direito Tributário, em 2014, passou a dedicar-se à ilustração e ao quadrinho. Participou de diversas publicações coletivas, como o livro Desnamorados, Revista Farpa, Revista RISCA!, Antologia MÊS 2015 e Catálogo FIQ 2015. Lançou também HQs solo, algumas das quais podem ser lidas online em issuu.com/lauraathayde. Como se não bastasse fazer quadrinhos, resolveu escrever sobre eles na coluna HQ Arte do MinasNerds.