AQUI: A transitoriedade da vida e o tempo fragmentado

Aqui (Here, no seu título original) é uma das mais recentes publicações da Quadrinhos na Cia. Traduzido por Érico Assis, este é um quadrinho inusitado, para dizer o mínimo. Este quadrinho retira o leitor da sua zona de conforto, especialmente se a expectativa ao ler uma HQ for uma narrativa linear ou até mesmo um formato convencional de narrativa gráfica. Aqui mostra um único espaço (que é, na maior parte do tempo, o canto de uma sala) que o leitor acompanhará em diferentes momentos no tempo. Parece algo muito simples, mas McGuire conseguiu criar, a partir dessa premissa, algo extremamente engenhoso e surpreendente.

À época da publicação de Aqui no formato graphic novel, McGuire deu uma entrevista ao site The Paris Review em que explicou mais sobre o seu processo de criação:

“O livro começou como uma história de seis páginas, publicada em 1989. Eu tinha acabado de me mudar para um novo apartamento. Eu estava pensando sobre a pessoa que viveu ali antes de mim, e a pessoa antes dela. Eu tinha acabado de ver uma palestra, meio que uma história dos quadrinhos, por Art Spiegelman, e o que eu aprendi com aquilo foi que quadrinhos eram essencialmente diagramas e mapas de narrativa. Eu tive a ideia de contar a história do meu apartamento como uma tela dividida – eu escolhi o canto por ser uma linha divisória natural. Uma metade iria adiante e a outra retrocederia. Então um amigo apareceu em casa e me contou sobre este novo programa, Windows, e foi aí que o sino tocou na minha cabeça. Eu poderia ter múltiplas janelas de tempo. Tendo esta estrutura para colocar as coisas, eu comecei a trabalhar com muitas fotos de família como referência, então o livro se misturou com o meu passado, mas não foi pensado como uma biografia.” (SHAPTON, Leanne. Split Screens: an Interview with Richard McGuire. Disponível em: <http://www.theparisreview.org/blog/2015/06/12/split-screens-an-interview-with-richard-mcguire/>. Tradução da autora.)

Segunda página de Here, publicado em 1989. Disponível em: <http://thebeautifulcomics.tumblr.com/post/99631361887/here-1989-by-richard-mcguire-raw-magazine>.

 

 

A publicação de 1989 à qual McGuire se refere é uma história de seis páginas que apareceu pela primeira vez em Raw #2, uma antologia editada por Art Spiegelman e Fraçoise Mouly de 1980 a 1991. Este quadrinho é facilmente encontrado online e conhecê-lo é interessante para o leitor que quiser observar a evolução no conceito de Aqui. Tanto o quadrinho de 1989 como o livro de 2017 apresentam o canto de uma sala como foco central da história, mostrando as transformações deste espaço ao longo do tempo. Enquanto a história original fica retida nas margens do quadro (e cria, dentro da página, a impressão de múltiplas “janelas”, que McGuire cita), o livro transforma cada um desses macro quadros em algo dominante no espaço da página dupla. O canto da sala, “divisória natural”, agora encontra-se entre as páginas e permite ao leitor perceber o espaço bidimensional do quadro como um ambiente tridimensional, com profundidade.

Here (2014). Disponível em: <http://www.brokenfrontier.com/here-richard-mcguire-graphic-novel-hamish-hamilton-raw/>.

Há uma questão que pode surgir para a pessoa que for apresentada a Aqui: isto é uma história? Podemos considerar que o que McGuire propõe é algo focado mais em uma proposta de leitura alternativa e não em apresentar uma narrativa linear. Aqui apresenta um espaço fixo em um tempo mutável: nunca saímos do lugar, mas diferentes eventos no tempo transformam este espaço. Em quadrinhos, tempo e espaço são elementos cruciais na construção de uma narrativa. Espaço é tempo, em HQ. Diversos teóricos exploram esta questão, assim como a relação autor/leitor. Em Comics Art, Paul Gravett aborda estes dois elementos tão caros às HQs: são de grande importância os protocolos que os autores de quadrinhos buscam propor, desde a preparação dos esboços e layouts, para criar ritmos, estados de espírito ou contrastes. Do lado do leitor, é sua tarefa reconhecer os padrões e se aclimatizar aos protocolos, para que a interpretação atinja os efeitos desejados (2013: p. 56).  Sobre o tempo, ele coloca que:

“[…] diferentes durações de tempo podem transpirar entre quadros, grandes ou pequenos. Às vezes, enquanto lemos e examinamos através do painel, tanto a pergunta quanto a resposta, ou a causa e o efeito, podem ocorrer dentro do mesmo espaço único. Dentro desta área, o tempo se torna espaço, elástico e mutável, e o instante mais efêmero pode se expandir em toda uma vida diante dos seus olhos. Com narrativas compostas de imagens fixas, a arte dos quadrinhos é uma mídia como nenhuma outra ao nos permitir observar o passado, presente e futuro simultaneamente e permanentemente ao nos mover livremente pelas páginas, viajando no tempo enquanto viramos as folhas para frente e para trás, segurando toda uma vida em nossas mãos. Onde mais poderíamos ter a oferta de tal visão geral tanto da passagem quanto da sincronicidade do tempo? Esta é uma das formas como os quadrinhos parecem personificar nossos processos de pensamento associativo, fluidos, pelos quais nossos pensamentos, nossa atenção, podem estar no presente, no passado e no futuro a qualquer momento. Passando para frente e para trás as páginas, tudo se torna o agora.” (GRAVETT, 2013: 62, tradução da autora)

Isto ajuda a explicar a sensação de estranhamento inicial que Aqui pode provocar. A construção e disposição dos seus quadros não necessariamente obedece as convenções dos quadrinhos: a leitura se dá no sentido esquerda-direita, mas cada página é um grande quadro, interrompido por pequenos quadros. A sarjeta, espaço entre quadros, não aparece. O que se obtém são intrusões de outros momentos, que dialogam com o quadro maior e uns com os outros. A história não é progressiva, mas digressiva. O tempo não é linear, é fragmentado. McGuire cria, graficamente, uma sensação de tempo simultâneo e, ao mesmo tempo, fugaz. Sua obra nos faz considerar como os lugares que ocupamos não são definidos por nós. Ou melhor, não SÓ por nós. Somos apenas capítulos dentro de uma história que começou muito antes de nós e que ultrapassará a nossa existência. Aqui mostra como o espaço se mantém fixo, mas mutável, espectador e partícipe do nascimento, vida e morte dos indivíduos que o habitam. O autor apresenta a repetição de padrões, mas também momentos que aparecem em um instante, um flash, que não se repetirá mais. O que fica é a marca. A vida é transitória e parece maior que seus indivíduos: eles, fragmentos que montam um palimpsesto de memórias, experiências e ações impressas no seu mundo.

 

Aqui

Autor: Richard McGuire

Tradução: Érico Assis

Editora: Quadrinhos na Cia.

ISBN: 8535928723

 

REFERÊNCIAS

GRAVETT, Paul. Comics Art. New Haven: Yale University Press, 2014.

McCLOUD, Scott. Desvendando os quadrinhos. São Paulo: M. Books, 2005.

McGUIRE, Richard. Here. In: Raw: Open Wounds from the Cutting Edge of Commix, Vol. 2, N. 1. Londres: Penguin Books, 1989. Disponível em: <http://thebeautifulcomics.tumblr.com/post/99631361887/here-1989-by-richard-mcguire-raw-magazine>. Acesso em 03/07/2016.

SHAPTON, Leanne. Split Screens: an Interview with Richard McGuire. Disponível em: <http://www.theparisreview.org/blog/2015/06/12/split-screens-an-interview-with-richard-mcguire/>. Acesso em 09/06/2016.


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Clarissa Monteiro

Ilustradora e pesquisadora de semiótica em quadrinhos. Formada em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, faz atualmente mestrado em Semiótica na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.