O Mundo de Oyá

O premiado livro infantil escrito pela arte educadora Giselle Marques, conta a história de Oyá, menina pequena, que como toda criança, tem uma imaginação muito fértil. Depois de ouvir um comentário de sua professora, sobre sua flexibilidade nas atividades de educação física, Oya fica encucada e passa a imaginar seu futuro vivendo de forma bastante inusitada.

 Com narrativa simples e ilustrações delicadas, O mundo de Oyá é uma história como as várias que conhecemos, com a diferença de que se trata de uma protagonista negra, cujos tererês e tradições familiares, que compõem  sua identidade, são apresentados como elementos naturais do livro.

E por que é importante ressaltar a naturalidade com que o cotidiano de Oyá é narrado?

 Vivendo em uma sociedade sabidamente racista, percebemos que as narrativas que nos são apresentadas na escola não são diversas e não representam grande parte de nossa população, composta majoritariamente por negros ou afrodescendentes.

 Quando ouvimos falar dos negros na escola, eles são sempre colocados como os outros, os que vieram da África, com um distanciamento que perpetua a ideia de que não estamos ligados uns aos outros por meio da miscigenação constante em nosso país.

 Basta lembrar que a lei que prevê o ensino de africanidades nas escolas é muito recente e ainda encontra muita resistência por parte de educadores, instituições e pais, que não entendem a urgência de reconhecermos o racista que existe em cada um de nós.

 Esse racismo, inerente à nossa cultura, não é perpetuado apenas pela diminuição ou deslegitimação do discurso em função da cor da pele, ele se perpetua de forma sutil, quase imperceptível, fazendo com que tenhamos a sensação de que não somos racistas.

 Lendo engano! Quem convive com crianças e presta atenção aos discursos aos quais elas são expostas, seja por meio da escola, do entretenimento ou da vida social, facilmente percebe que a representatividade negra nas mídias e materiais educativos é muito pequena e este é um fato nocivo para nosso desenvolvimento como sociedade, pois na medida em que a presença de algumas pessoas não nós é apresentada de forma tão natural quanto a nossa, uma criança pode facilmente crescer acreditando que ser negro é ser diferente, mas em um sentido pejorativo da palavra.

A criança é incentivada a conviver com as diferenças a partir daquilo que nos separa, a partir de uma ideia de exclusão, ou seja, aceitar por obrigação, não por identificação. Isso é grave, pois contribui para a ideia de que pessoas brancas não poderiam se inspirar ou almejar ser como os negros, simplesmente porque raramente temos o conhecimento  de seus grandes feitos, já que muitas vezes eles são apagados da História.

 Chimamanda já falou sobre os perigos da narrativa única e, aos poucos, tomamos conhecimento dos efeitos que o apagamento constante e o não reconhecimento das conquistas dos negros representam.

Assim, o que tenho aprendido a partir da leitura e da escuta das vozes negras é que não estamos escutando o suficiente, mas essas vozes não irão se calar até que façamos a nossa parte como pessoas que, de uma forma ou de outra, reproduzem o racismo.

 No entanto, para que haja uma mudança significativa, não basta que a criança negra se veja representada nas histórias e na mídia. Não basta empoderar essas crianças se esses materiais, como a história de Oyá, não estiverem em sala de aula como leitura obrigatória para as crianças brancas também.

 Por mais que em casa as pessoas não reproduzam atitudes racistas, todos os outros discursos acabam apresentando apenas uma versão branca da história, onde negros costumam ser coadjuvantes. A menos que os educadores e as instituições façam a sua parte, não conseguiremos mudar um problema que é estrutural e continuaremos sendo coniventes com a perpetuação de valores e convenções são extremamente racistas, mesmo que continuemos acreditando que não.

Para saber mais:
O Mundo de Oyá pode ser adquirido diretamente com a autora, por meio do e-mail:  giselle_danca@hotmail.com

http://parabeatriz.com/dica-de-livros-infantis-protagonistas-negros/

https://gente-preta.blogspot.com.br/2016/11/100-livros-infantis-com-meninas-negras.html

http://www1.folha.uol.com.br/folhinha/2015/11/1704671-faltam-herois-negros-diz-lazaro-ramos-ao-lancar-seu-3-livro-infantil.shtml?cmpid=facefolha


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Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.