A importância da revista Risca

Embora a ação dos coletivos femininos não seja um assunto novo aqui no Minas, só recentemente eu parei para apreciar a revista Risca, produzida pelas Lady’s Comics. Confesso que me sinto envergonhada de ter demorado tanto pra ler, mas adianto que é uma produção imprescindível para quem quer conhecer um pouco mais sobre a presença das mulheres no mercado brasileiro de quadrinhos.

Lançada em 2105 e financiada pelo Catarse, a publicação reúne matérias muito diferentes das que estamos acostumadas a ver em revistas do gênero, a começar pelo fato de ser inteiramente dedicada à produção feminina. Como a Laura Athayde já havia alertado, entre os principais motivos de precisarmos de ações e publicações exclusivas está o fato de grande parte das artistas femininas não terem praticamente nenhum espaço dedicado a elas nas mídias especializadas. Prova disso, é que até 2014, quando a cartunista Crau França (Crau da Ilha), organizou a coletânea As Periquitas, revista também dedicada à divulgação de artistas femininas, é que muitos leitores de quadrinhos desconheciam seu trabalho, ainda que ela tivesse atuado ao lado de artistas como Laerte e Angeli.

Outro motivo para que haja interesse, por parte principalmente de leitoras, nas produções exclusivas é que certos temas ligados ao nosso cotidiano são tratados com a sensibilidade de quem passa pelos mesmos problemas e alegrias que nós. Assuntos como aborto e autoimagem são abordados a partir da perspectiva de quem tem vivência, nos lembrando que não estamos sozinhas em nossas angústias e dúvidas.

Academicamente falando, existe uma certa resistência de alguns pesquisadores em que pessoas tratem de temas dos quais elas são próximas, sob o argumento de que isso comprometeria o distânciamento científico. Ao participar do 13º Seminário Internacional Mundo de Mulheres e 11º Fazendo Gênero, tive a oportunidade de escutar de pesquisadoras renomadas que essa é uma questão que já foi superada em outros países que já entenderam que a neutralidade na área de Humanas não é o fator determinante para a qualidade e relavância de uma pesquisa, principalmente porque todo pesquisador elege teorias e temas com os quais já tem certa afinidade.

Quanto à reclamação recorrente de que publiações femininas são panfletárias ou chatas, vale lembrar que não existe insenção política na arte, pois todo trabalho é político, porém, nem todas as publicações femininas abordam temas exclusivamente femininos, Esse tipo de alegação só entrega a falta de conhecimento de quem a faz, pois em nossos 15 guias de artistas brasileiras publicados até hoje, fica bem claro que há quadrinhos para todos os gostos.

A verdade é que se não fosse a pesquisa e a dedicação dos coletivos e de pesquisadoras de histórias em quadrinhos associda à internet, é bem provável que muitas artistas continuassem no anonimato, O apagamento constante ao qual essas artistas são expostas é assunto recorrente nos eventos exclusivos, como contou a quadrinista chilena Victoria Rubio, no último encontro das Lady’s Comics, quando compartilhou que uma outra artista brasileira pesquisava quadrinistas no Chile e ao perguntar aos colegas sobre a produção feminina de seu país, eles disseram que não havia mulheres produzindo quadrinhos no Chile, muito embora os homens questionados conhecessem o trabalho de Victoria.

Sobre esse apagamento, também já falamos algumas vezes aqui no Minas, por isso, uma linha de pesquisa em História chamada História das Mulheres, visa trazer visibilidade às mulheres que tiveram suas produções apagadas ou simplesmente ignoradas. No meio dos quadrinhos esse fenômeno é facilmente observado quando lemos os livros dedicados à História das Histórias em quadrinhos, onde as mulheres não são mencionadas, salvo raras exceções, nos dando a entender que mulheres não fazem parte da produção de quadrinhos.

Esse equívoco tem sido “corrigido” por meio de pesquisas como as da quadrinista Trina Robbins, que há mais de 30 anos tem se dedicado a resgatar os trabalhos das artistas americanas. Talvez até em decorrência desse apagamento é que muitas pessoas acreditem que nossa presença no meio seja algo recente, quando as pesquisas mostram o contrário.

Assim, a revista Risca; Memória e Política das Mulheres nos Quadrinhos tem um papel fundamental e uma relevância histórica para o registro da produção feminina de quadrinhos no Brasil e suas matérias merecem ser apreciadas atenciosamente:

Da Web para o papel, traz um pouco da trajetória do coletivo Lady’s Comics e do processo de execução do projeto.

Desenhando Gênero apresenta alguns trabalhos de quadrinistas trans, abordando inclusive como questões sobre a transição de gênero é tratada nos quadrinhos, em sua maioria, autobiográficos.

Mulheres Negras nos quadrinhos reforça a importância do empoderamento e da afirmação identitária como ferramentas políticas na luta pelo reconhecimento de seus trabalhos. Por meio dos quadrinhos, muitas autoras chamam a atenção para a luta cotidiana contra o racismo, entre outros problemas que acometem a população negra no país.

Precisamos falar de aborto, como o próprio nome diz, propõe uma reflexão sobre um tema tão delicado e que tem sido tratado em quadrinhos também, com participações e envolvimento de diversas artistas, cujos trabalhos ilustram esse editorial.

Arte da Laura Athayde para a Risca

Precursoras no Brasil apresenta a trajetória de grandes mulheres que faziam quadrinhos em épocas em que muitas vezes, as artistas precisavam usar pseudônimos masculinos para poder publicar seus trabalhos, como foi o caso de Nair de Teffé, que assinava como Rian.

Por fim, uma entrevista com Trina Robbins encerra a publicação e registra o encontro das quadrinistas brasileiras com sua grande referência, que ocorreu em agosto de 2015, no Centro Cultural Vergueiro, SP, e foi organizado pela ASPAS – Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial.

 

Para adquirir a revista, basta acessar a loja das Lady’s Comics aqui 

E para saber mais sobre a produção feminina de quadrinhos, confira as matérias da Laura Athayde aqui no Minas e nossas listas de artistas brasileiras que a Roberta AR sempre organiza.

 

 

 


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial – ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.