A diferença invisível: o mundo que quer nos enquadrar

Uma jovem de 27 anos se percebe diferente dos que estão a sua volta, depois de muito tempo tentando se adaptar ao que a sociedade espera de um mulher desta idade. Marguerite faz um enorme esforço para se comportar da “maneira correta”, mas acaba descobrindo que sua diferença é real e tem nome: ela é autista. “A diferença invisível” é um registro desse processo de descoberta relatado por Julie Dachez e lindamente ilustrado por Mademoiselle Caroline.

Marguerite tem uma rotina regrada, acorda sempre no mesmo horário, vai sempre à mesma padaria para comprar seu pão de espelta, faz sempre o mesmo percurso para o trabalho, onde chega cedo para poder começar as atividades antes dos colegas aparecerem. Ela é vegetariana, vive com um cachorro e dois gatos. Seria uma vida absolutamente normal, se não fosse a sua total intolerância a ambientes barulhentos e movimentados, que a deixam exausta.

A narrativa gráfica faz um trabalho lindo neste livro nos fazendo percorrer as sensações que atravessam Marguerite por meio do cenário e cores. Os momentos de rotina são monocromáticos e organizados e um vermelho vai tomando conta do ambiente, junto com sons descritos com palavras saindo dos objetos e pessoas que os emitem. Sem nos darmos conta, estamos em uma página toda vermelha e tomada de bla bla bla, pec pec, tic tac, em que é possível sentir o mesmo cansaço que toma a protagonista.

A falta de traquejo social, o fato de entender tudo de maneira muito literal e outros detalhes que se tornaram grandes demais na sua vida, fizeram nossa protagonista desconfiar de que existia algo além, que algo não estava normal. Mesmo sempre reforçando que aquilo era demais para ela, amigos e familiares sempre tratavam a situação com descaso, como frescura, isso fica bem claro na relação com o namorado, que não conseguia respeitar sua dificuldade em se soltar nas festas com os amigos.

A dificuldade de ser mulher autista

O livro é repleto de informações científicas sobre o autismo e a síndrome de Asperger. Nele descobrimos que a síndrome foi incluída na classificação dos transtornos do espectro autista apenas em 2013 e que a proporção de autistas é de quatro homens para cada mulher. O número menor de mulheres com a síndrome fez com que textos sobre o assunto abordem quase sempre as especificidades dos homens aspies (como são chamadas as pessoas com síndrome de Asperger) e as mulheres ainda têm que lidar com a educação que recebem, que as tornam mais tolerantes e adaptáveis socialmente, o que pode tornar sua dor ainda maior, porque situações opressivas são mais facilmente aceitas quando são mulheres que suportam, e isso dificulta muita o diagnóstico.

Apesar de tratar especificamente do espectro autista, esta novela gráfica fala muito sobre o total despreparo da sociedade em lidar com qualquer comportamento desviante. Existe uma cobrança por um comportamento padronizado, que seria o mais eficiente. As sutilezas que nos fazem únicos são simplesmente desprezadas e readequadas e isso também está nos deixando emocionalmente doentes.

A nova vida

Após a confirmação do diagnóstico, que se deu a partir de pesquisas da própria Marguerite, sua vida mudou completamente. Os dias monocromáticos ficaram coloridos, com o respeito aos próprios limites, e suas relações mudaram, as pessoas que não compreenderam foram afastadas e tudo fica mais leve. No final, vemos o relato de como foi feito esse quadrinho, numa parceria com uma amiga, a dona da livraria que a ajudou nas pesquisas sobre o autismo.

A última parte do livro reúne dados técnicos, estatísticos e outras informações importantes sobre autismo e especificamente sobre a síndrome de Asperger.A tradução atenciosa deste livro atualizou algumas informações com dados brasileiros sobre o assunto.

As autoras

Julie Dachez foi diagnosticada com síndrome de Asperger com 27 anos e mantém um importante blog sobre o assunto: http://emoiemoietmoi.over-blog.com/

Mademoielle Caroline é ilustradora, quadrinista e autora de diversos livro de humor e autobiográficos. http://www.mademoisellecaroline.com/

A diferença invisível

Mademoiselle Caroline e Julie Dachez

Tradução: Renata Silveira

Editora Nemo

Número de páginas: 192

Formato: 17x24cm

R$ 44,90

O livro foi cortesia da editora.

 


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Roberta AR

Gosto de escrever (o que acabou virando trabalho) e de café. Participo da cena de quadrinhos independentes desde 2007, atuando principalmente na divulgação e na produção. Também sou zineira e escritora.