Como Nossos Pais, uma DR que não pode mais esperar

Estreia em circuito nacional hoje (31/08) o novo filme de Laís Bodansky, Como Nossos Pais. A produção traz Rosa (Maria Ribeiro) como personagem central: uma mulher brasileira de classe média, entre 30 e 40 anos, envolvida com o dilema de viver os papéis de mãe, profissional, esposa, filha e amante sem se deixar anular como ser humano.

Colecionando prêmios por seus bons trabalhos, como Bicho de Sete Cabeças e As Melhores Coisas do Mundo, Laís Bodansky novamente coloca sua competência e sensibilidade a serviço não só da arte cinematográfica como principalmente de uma mensagem profunda e necessária. Rosa é tão dolorosamente todas nós que não parece um filme, parece mais uma conversa com uma grande amiga.

Que modelo de sociedade nós queremos?

Mais do que discutir o papel da mulher, Como Nossos Pais nos leva a pensar, assim como acontece com Rosa, na falência desse modelo de família e sociedade em que tudo gravita em torno de uma pessoa que é obrigada a ser infeliz para que outros possam brilhar. Rosa é estressada, exigente consigo mesma e com o mundo porque o mundo também não lhe dá nenhuma trégua.

Não é uma discussão exatamente nova, se pensarmos que esse questionamento sobre o papel da mulher paira no ar desde as Grandes Guerras, quando elas ocuparam os postos de trabalho deixados pelos homens que foram às frentes de batalha e passaram a ter que dar conta de jornadas duplas e triplas. De lá para cá, o mundo se transformou imensamente, com grandes avanços tecnológicos, novas descobertas, novas doenças, globalização, crise econômica, mudanças geopolíticas e de costumes. Mas, como entrega a própria canção que dá nome ao filme, “apesar de termos feito tudo que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”.

O que faz de Como Nossos Pais um filme tão importante nesse nosso momento atual, em que as mulheres protestam em toda parte contra a onda conservadora que parece exigir retrocessos em tantos setores da organização social, é a discussão sobre que família e que sociedade nós queremos. Elaborar um plano de vida mais feliz não é tarefa só de Rosa. Precisa ser tarefa também de Dado (seu marido), de suas filhas, de seu pai, de sua mãe. Porque quando o pilar de uma estrutura não aguenta mais o peso colocado sobre ele, o prejuízo é do conjunto todo.

Teste de Bechdel

Sensível, pertinente e muito bem executado, Como Nossos Pais é uma das poucas produções em cartaz que passaram no Teste de Bechdel. Baseada na tirinha da quadrinista Alison Bechdel (que foi entrevistada pelo Minas Nerds), a gestora cultural Ellen Tejle criou o selo de Bechdel para medir a participação das mulheres nas narrativas cinematográficas. No Brasil, a rede Mulheres do Audiovisual Brasil aplica o teste nas obras exibidas em circuito comercial. A premissa é simples: duas personagens mulheres, com nome, conversando sobre algo que não seja homem. Mesmo assim, boa parte dos filmes em cartaz falha na representatividade mais básica, apresentando apenas homens como figuras relevantes.

Premiações

Como Nossos Pais teve sua primeira exibição mundial no Festival de Berlim. Em seguida, ganhou a indicação do público como melhor filme no Festival de Cinema Brasileiro de Paris, e mais seis prêmios no mais recente Festival de Gramado: melhor filme, melhor direção (Laís Bodanzky), melhor montagem, melhor atriz (Maria Ribeiro), melhor atriz coadjuvante (Clarisse Abujamra) e melhor ator (Paulo Vilhena).

 


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