Você conhece as quadrinistas do Maranhão?

Como a Roberta AR já havia publicado aqui, a diversidade na produção de quadrinhos no Brasil condiz com suas proporções continentais, no entanto, fora do eixo Rio-São Paulo, raramente ouvimos falar das HQ de outros estados nas mídias especializadas.

O Maranhão caiu em nosso radar pelos motivos errados, mas o resultado disso tem sido positivo: neste ano um roteirista de quadrinhos maranhense assediou uma quadrinista em um evento público. Como era de se esperar, nada aconteceu a ele e a artista acabou sendo exposta e questionada sobre sua denúncia. O coletivo literário Literatura Mútua, sob a batuta da Talita Guimarães, foi o único grupo que se manifestou com uma nota de repúdio ao ocorrido e a partir daí, criou um formulário para descobrir quem são as quadrinistas do estado, no intuito de realizar ações que trouxessem mais visibilidade aos seus trabalhos. O link permanente pode ser conferido aqui.

Em parceria com o pesquisador de quadrinhos Márcio Rodrigues, que também tem sido questionado quanto ao seu posicionamento em favor das mulheres, Talita tem se esforçado para realizar eventos presenciais com as artistas, como o que ocorreu durante a feira literária Flaema.

O resultado dessa iniciativa, que começou em abril,  pode ser conferido na imagem abaixo e nas impressões de Jeane sobre este que promete ser o primeiro de muitos encontros:

 

“É importante destacar que o campo dos quadrinhos na ilha não é posse de ninguém para aqueles que se reivindicam como detentores do discurso autorizado sobre HQ´s. Com respeito àquelas e àquelas que estão há mais tempo na ativa, é sempre bom lembrar que as coisas são dinâmicas entre agentes e sujeitos. Dito isto, vamos nos colocar no ano de 2017, por favor. O tempo presente é o espaço da diversidade e de vozes mais plurais e democráticas. É o momento das mulheres serem ouvidas e consumidas em sua produção, afinal, a partir de múltiplas experiências e subjetividades, nós temos muito o que dizer e estamos em plenas condições de disputar, além dos espaços de produção, também o público consumidor de HQ´s. Outro ponto a destacar se trata do recorrente discurso meritocrático sobre a presença das mulheres nas HQs. Não são poucos os que reproduzem as infelizes falas – que ignoram veementemente os elementos que alimentam a exclusão histórica das mulheres dos espaços de produção. O que está por trás desse discurso é o provável receio de dividir os espaços com produções femininas desafiadoras e questionadoras do próprio status quo morno e machista que domina a cena quadrinística da ilha. Infelizmente, algumas HQs maranhenses que obtiveram certa expressividade são marcados por olhares masculinos e grotescos com figurações notadamente misóginas e cruéis em relação às mulheres. Temos absoluta convicção que a cultura maranhense deve ser representada de outros modos e a inserção das mulheres na cena traz, além da possibilidade delas serem produtoras de suas histórias e narradoras de si mesmas, um contraponto necessário às representações machistas e simbolicamente violentas de determinadas HQs locais.

Em contextos patriarcais, não é novidade que a produção feminina costuma ser invisibilizada e apagada em detrimento da produção masculina (medíocre?). O aparente silêncio das mulheres quadrinistas maranhenses é a prova do quanto os feitores da cena local pouco se interessam por seus trabalhos. Mas lamento muito lhes informar: elas existem. Elas resistem. Elas produzem em diferentes linguagens, estilos e influências, o que demarca a rica diversidade de seus temas e múltiplos processos criativos. O cardápio apresentado por Adriana Beautywitch, Ingrid Garcia, Gabi Sousa e Laísa Couto é diverso e vai da charge à ilustração, dos quadrinhos de super heróis e biográficos à produção de mangás, com algumas produzindo eventos nerds e se arriscando em outros campos, como o da literatura fantástica. Repertório não lhes falta. O que falta é palco, é visibilidade. É leitor e leitora mais abrangentes. E por parte dos colegas quadrinistas homens falta autocrítica para perceber o quanto eles são responsáveis pelo apagamento da produção das garotas e pela criação de ambientes hostis à presença feminina. Se a cena de HQs de São Luís do Maranhão não se “feminizar” de imediato e buscar mudar, corre-se o risco da manutenção do pacto monolítico com o passado através da predominância de uma cena puramente masculina e machista. A roda de conversa com mulheres quadrinistas da ilha mostrou que as mulheres de várias gerações estão chegando para essa mudança e para tomar o que é delas: oportunidades de publicação, público cativo e reconhecimento.”

Sobre as artistas (Via Literatura Mútua)

“Esse encontro, que resulta do levantamento das mulheres quadrinistas feito pelo LM, vem atender a uma demanda por identificação das mulheres que roteirizam, desenham e pesquisam HQ’s em São Luís. O meio é aparentemente masculino porque as quadrinistas maranhenses ou residentes aqui, que existem em um número expressivo também, infelizmente tendem a ser ignoradas ou desconhecidas. Ao identificá-las e trazê-las pra roda esperamos contribuir para a visibilidade dessas artistas e para o incentivo a uma maior exposição e discussão da produção feminina na cena local”, explica a jornalista Talita Guimarães, responsável pela mediação e apresentação dos dados levantados.” (Via Facebook da Lietratura Mútua)

ADRIANA BEAUTYWITCH – Maranhense (1983) é professora, desenhista e roteirista. Com uma produção que passeia entre Shonen e Shoujo, seus mangás se interessam por ficção científica e ocultismo. Responsável pela publicação da revista em quadrinhos Shadows, com circulação em ambiente escolar, Adriana colaborou para a edição da Otaku World, primeira revista voltada para o mundo Otaku em São Luís, e Tanuki Estúdio, que circulou na UFMA entre 2006 e 2008. Entre suas influências destacam-se Masakazu Katsura, Tolkien, Lobato, Togashi e Miyazaki.

INGRID GARCIA – Natural de São Luís-MA (1995), é jornalista e desenhista. Pesquisadora da área de comunicação interessada em Histórias em Quadrinhos.

GABI SOUSA – Natural de São Luís (1989) é designer, desenhista e roteirista. Seus gêneros preferidos são ficção científica, ação e romance com interesse por interações entre mangá e histórias em quadrinhos e o impacto de movimentos sociais nas HQ’s. Entre suas principais influências estão Alan Moore, Dave Gibbons, Hiroya Oku e Hiroaki Samura.

LAÍSA COUTO – Natural de São Luís (1987), é graduada em Design de Moda, especialista em Artes Visuais e estudante de Arquitetura e Urbanismo. Teve seu primeiro romance de fantasia, Lagoena – O Portal dos Desejos, publicado em 2014 pela Editora Draco, bem como os contos Clair de Lune e O inverno das rosas. Foi colunista do site Leitor Cabuloso e Escolhendo Livros. É clubista e fotógrafa no Clube do Livro Maranhão. Atualmente reúne poesias quebradas na coletânea Estrela Morta ao Amanhecer no Wattpad, além de outras histórias com finais perdidos. E publica suas ilustrações no perfil instagram.com/ceudenanquim.

* Jeane Melo é Pernambucana, professora de História do IFMA Campus Alcântara, feminista e leitora de HQs.

 


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Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial – ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.