“Legião”: romance policial ou terror? Continuação de “O Exorcista” vai te perturbar

Há mais de 40 anos, “O Exorcista” arrepiou até o último fio de cabelo de quem foi ao cinema assistir ao terror estrelado por Linda Blair, Ellen Burstyn e Jason Miller. De lá para cá, a fórmula foi usada e reutilizada diversas vezes e, ainda assim, o longa continuou firme como grande representante do gênero. E é por isso que, quem gosta do tema, vai encontrar no livro “Legião”, um excelente reencontro com o clima sombrio do filme de 1974, inspirado na obra literária.

Em “Legião”, o autor William Peter Blatty traz a continuação direta de “O Exorcista” e até resgata acontecimentos e personagens da história  anterior antes de mergulhar novamente no sobrenatural. A história começa uma década depois do exorcismo de Regan MacNeil, quando o detetive William F. Kinderman decide investigar uma série de assassinatos macabros, entre os quais a crucificação de uma criança. Todos esses crimes têm uma assinatura especial que parecem apontar para um serial killer – o único problema é que ele já estava morto há anos.

Romance policial

Narrado predominantemente em terceira pessoa a partir do ponto de vista de Kinderman, “Legião” deve agradar leitores de romances policiais. Com toque religioso e sobrenatural, as investigações passam também pela moral e pelas crenças do detetive, o que o torna um personagem com grande capacidade de questionar e de gerar questionamento.

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Assim, olhando para este personagem – e não para os demônios- como protagonista da história, conseguimos encontrar uma veia dramática que usa o terror como apoio para levantar questões filosóficas, fé e propósitos de vida – é com eles, inclusive, que o protagonista vai se debater ao longo da trama.

Terror “sutil” e angustiante

Em “O Exorcista”, as imagens da garota torcendo o pescoço, levitando, se movimentando de forma inexplicável eram recursos para chocar, neste livro é tudo mais “humano” – o que, às vezes, é ainda mais assustador do que qualquer entidade espiritual.

Assim, o longo da história, a sensação de angústia também é crescente – quanto mais o mistério parece estar próximo de ser solucionado, mais embaçados e sinistros os acontecimentos vão ficando.

Fé x ceticismo

A dupla que nunca falta em histórias de terror sobrenatural bem, não faltou por aqui também. Mas se apresenta de uma forma diferente. Junto com o detetive Kinderman está o padre Dyer (que conhecemos em “O Exorcista”), que também está com sua fé na humanidade abalada. É entre os dois que surgem a maior parte das questões relacionada à vida e morte, bondade, existência de Deus, entre outros assuntos que já fazem parte desse subgênero do terror.

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Durante a investigação, o detetive esbarra com características que assassino em série Geminiano costumava deixar, o que dificulta qualquer evidência de que tenha havido algum acontecimento sobrenatural. Daí surge também um dos pontos altos dos livros, que são os conceitos teológicos.

William Peter Blatty era um católico fervoroso e utilizou seu conhecimento para incluir algumas teorias de base da religião, que ajudam a guiar o protagonista a seguir um caminho – que é muito lógico e convincente – unindo a “matemática” concreta de uma investigação criminal às lacunas preenchidas por teorias sobre tudo aquilo que não conseguimos explicar.

“Legião” vai deixar o leitor alerta em todos os momentos, levantando questionamentos inerentes à natureza humana, desafiando a descrença e estimulando o leitor a entrar nessa investigação junto com o detetive.

Design

No que diz respeito à qualidade gráfica, a editora mais uma vez acerta em cheio. O primor na edição é inquestionável e vai agradar quem aprecia a arte mórbida – e recheada de xilogravuras de encher os olhos e que só complementam a imersão já garantida por Blatty.

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“LEGIÃO”, WILLIAM PETER BLATTY (ED. 2017)
Tradução:  Eduardo Alves
Editora: DarkSide Books

Este livro foi cedido pela editora para resenha.
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Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Aline Pereira

Mestre Pokémon e jornalista. Amante do cinema (e da pipoca com manteiga), compro camiseta de super-herói na seção infantil e nas horas de tédio tento mover objetos com o poder da mente // twitter @alineperr