Atômica – Comparação entre a HQ e filme e entrevista com Sam Hart

Atômica – A cidade mais fria – HQ de Antony Johnston, ilustrada pelo brasileiro Sam Hart chegou em terras brasileiras há pouco, pela Darkside Books, por ocasião de sua adaptação cinematográfica pelas mãos do diretor David Leitch.

Ainda desconhecido, Leitch dirigiu John Wick, mas atuou como DUBLÊ em um monte de filmes FODA, o filme também contou com a maravilhosa Charlize Theron (que já havia nos convencido em Monster e Mad Max, A Estrada da Fúria) no papel principal.

A HQ, como era de se esperar, é bem destoante do filme. Toda literatura,na verdade, tem como característica mais tempo de exposição e maturação da história para quem a recebe, portanto, o tempo da narrativa se desenrola muito mais lentamente do que a do  filme, o que por um lado, causa no leitor maior interiorização e entendimento maiores da história.

A premissa é a mesma: Lorraine Broughton, espiã do MI6 precisa ir até Berlim, no auge da Guerra Fria, bem por ocasião da queda do muro, quando a cidade estava em polvorosa, com profusão de protestos e manifestações constantes, para resgatar uma lista com nome, codinome, função e endereço de agentes atuantes na Alemanha até então.

A narrativa da HQ é mais lenta, distante, intrincada e fria do que a do filme. As ilustrações angulosas e em preto e branco, sem nuances de cinza de Sam Hart, emprestam à obra uma dureza ainda maior, o que intensificam o clima tenso da Guerra Fria, perseguição e morte.

Na graphic novel existe bastante machismo também, meio que remetendo ao clima de 30 anos atrás (como se isso tivesse mudado hoje…) mas os colegas e superiores de Lorraine a tratam com muito desdém e machismo e até mesmo a personagem, que é forte e decidida, parece bem mais passiva e fria, em nada lembra a explosiva Lorraine Broughton do filme, exímia agente e atiradora que luta em pé de igualdade, ou até mesmo ultrapassando a capacidade de muitos homens.

 

Talvez pelo fato de David Leitch ser dublê, tenha dedicado um carinho especial às cenas de ação de Atômica,  que no cinema, são de embasbacar. Diversos videos do laboratório e treinamentos aos quais a atriz se submeteu para encarnar o papel vazaram na internet, o que só aumentou o hype e expectativa de quem esperava pelo filme. E fizeram jus em sua estréia.

Arrisco dizer que desde Ripley, Sarah Connor e até mesmo sua personagem anterior, Imperator Furiosa, nunca houve uma mulher no cinema que descesse TANTA PORRADA (e levasse, igualmente) como Lorraine Broughton. Esse foi um ponto muito positivo do filme, um empoderamento grandioso, juntamente com a troca de gênero de alguns personagens e até mesmo o final, que difere da HQ.

Em suma, o filme foi uma adaptação MUITO bem feita, diria até que melhorada dos quadrinhos, a história não é uma primazia, mas as cenas de ação a rechearam muito bem e você acaba tão absorto que não vê o tempo passar. Já na HQ, ela te prende porque é lenta e cheia de meandros e você não vai entendê-la se der aquela pulada de páginas básica para adiantar a leitura.

O roteiro para o cinema foi adaptado por Kurt Johnstad, o responsável pela adaptação cinematográfica de 300 de Esparta, de Frank Miller, o que justifica muita coisa.

A fotografia, figurino e trilha sonora que remetem aos anos 80 são deliciosas e fazem do filme um banquete visual e sonoro. Portanto, Atômica é um caso raro em que o filme é muito melhor que a obra que o originou. Vale a leitura para colecionadores e aficcionados.

Conversamos com Sam Hart, o lustrador da HQ sobre essa incrível adaptação e em quem ele se inspirou para desenvolver os traços da protagonista:

– Conte um pouco sobre sua carreira nas HQs, formação, principais trabalhos, só para dar um panorama para nossas leitoras.

Trabalho com HQ desde 1990, quando fiz parte do fanzine Matrix. Estudei arquitetura por alguns anos na USP, participei de mais alguns fanzines como Rhino e Panacéia, e fui estudar e trabalhar na Inglaterra por dois anos. Tive aulas com David Lloyd e Dave Gibbons, e trabalhei com John Higgins. A partir de 2004 tenho duas carreiras de HQ paralelas, na Inglaterra e no Brasil. Algumas publicações que já ilustrei incluem: Front, Revista Kaos! Mundo Paralelo, O Guarani, A Flauta Mágica, Hamlet, Juiz Dredd, Tropas Estelares, Projeto Mega-Ultra Super Secreto, Rei Arthur, Robin Hood, Joana d’Arc e, ainda esse ano, Grace O’Malley.

– Como foi a abordagem da editora para que você desenhasse a obra? Eles já conheciam seu trabalho?

Quem me convidou foi o escritor Antony Johnston. Ele já conhecia meu trabalho fazia alguns anos, de convenções de HQ que freqüentamos na Inglaterra, e achou que eu poderia fazer jus ao estilo noir que ele queria na arte.

– Como foi trabalhar com Johnston? A história já veio fechada dele ou da editora ou vocês desenvolveram juntos?

Ele já tinha escrito a história e desenvolvido a personalidade e histórico dos personagens. Eu fiz alguns rascunhos dos personagens principais, baseados na minha vó e outras pessoas da família, e logo comecei a desenhar a HQ. Mesmo sendo a primeira vez trabalhando juntos, ilustrar a HQ foi tranqüilo, o roteiro do Antony é claro e eficiente.

– Como chegou ao traço final de Atômica? Já tinha alguma coisa em mente quando começou a trabalhar na obra?

O Antony pediu para que fosse em preto e branco, sem cor ou até texturas em cinza, para colaborar com a visão inicial dos personagens, de que o mundo é dividido claramente entre nós e eles, bons e maus. Minha contribuição na narrativa visual, alem do traço, foi na diagramação, mantendo o formato dos quadros quase constante ao longo da HQ, como um storyboard de cinema.

-A inspiração vem de todos os lados, o que te inspirou durante a produção da obra? quais foram suas referências, não só gráficas, mais em termos de cinema, música, clima?

Adoro a arte de dois desenhistas já falecidos de HQ que trabalhavam com chiaroscuro, a divisão de luzes e sombra, de maneira fantástica: Alex Toth e Bernie Krigstein. Também fui assistir alguns seriados antigos de espionagem e vi novamente Cidadão Kane. Eu estava ouvindo música de cantoras como Asa, Nneka e Sharon Jones, não pensando especificamente em uma trilha sonora para o quadrinho – mas acho que isso foi uma sacada genial do filme usar músicas dos anos 80, gostaria de ter pensado nisso  😉

-Nos fale sobre Lorraine. Alguma figura feminina em especial te inspirou em criá-la? Como você enxerga o empoderamento feminino na cultura pop de uma forma geral e o quanto isso vem mudando o mercado?

O Antony criou a Lorraine e, assim como muitas outras protagonistas de HQs dele, ela é forte, independente e ativa. Não sabemos muito sobre ela no começo da história – não tem recordatórios dizendo “A Lorraine nasceu em tal cidade, antes de trabalhar para o MI-6 ela fazia X…” – então há muito espaço para nos surpreendermos com as atitudes dela ao longo da história. Visualmente, o Antony só pediu que ela tivesse cabelo escuro (irônico, considerando a mudança no nome do filme) e usasse sobretudo. A personalidade da Lorraine me lembrou minha vó, que passou pela época da 2a Guerra e Guerra Fria, e achei que seria uma homenagem bacana. Ela faleceu faz mais de uma década, foi uma boa razão para remexer em antigas fotos e histórias da família.

Minha mãe foi feminista nos anos 60 e 70 e acho que todos, homens, mulheres e crianças, só tem a ganhar com mais exemplos, tanto na ficção quanto na vida real, de mulheres fortes e presentes. Tenho uma filha pequena, e outra a caminho, e acho ótimo que tem a Lorraine, a Mulher-Maravilha, a Thor mulher, a Mulher Esquilo, a Buffy etc, para servirem de modelos de protagonismo (afinal, somos todos protagonistas da nossa história), assim como eu tive Superman, Batman, Constantine e muitos outros.

O mercado muda aos poucos, o público aos poucos, sempre vão ter alguns criadores a frente do seu tempo, sempre vai ter uma parcela do público que quer que tudo fique igual era na sua infância… Avançamos, aos trancos e barrancos.

Sam Hart está com um projeto novo no Catarse, onde você pode adquirir artes de The Coldest City! Para apoiar, acesse! – https://catarse.me/sketchbook2018

Atômica – A cidade mais fria – 
Darkside Books – capa dura
R$ 43,00

Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Gabriela Franco

Jornalista especializada em cultura pop, produtora, cineasta e mãe da Sophia e da Valentina

Criadora do MinasNerds.