Jogo Perigoso e as consequências do que não é dito

 

Esta resenha de Jogo Perigoso contém spoilers e conteúdo sobre abuso sexual infantil, estupro e violência.

Antes de qualquer coisa, preciso alertar que Jogo Perigoso (Gerald’s Game) é uma história muito difícil de ser assistida por qualquer mulher. Mesmo pra mim é muito difícil escrever sobre ela, porque toca em questões que todas nós passamos como pertencentes ao gênero oprimido socialmente, que recebe desde o nascimento incontáveis formas de violência, de violação e de repressão. Mas, por mais que seja difícil, são questões que precisam ser expostas para que haja alguma forma de mudança na realidade. E as mudanças têm que ser pra ontem.

Que Stephen King é um gênio do terror psicológico não há dúvidas, mas posso garantir que em Gerald’s Game ele dá a medida certa do terror que significa ser mulher. Especialmente se considerarmos o começo da história, um misto de romance água com açúcar e o que a gente imagina que seja o “felizes para sempre” das princesas Disney. Um casal vai para uma casinha no meio do nada, com sabor de chocolate, a fim de passarem um final de semana a sós. A mocinha faz algo que o príncipe não concorda, mas ele a ama de qualquer jeito, os dois se abraçam e fica tudo bem. Bem a aparência de um relacionamento feliz, certo? Mais ou menos.

Descobrimos que eles foram para o campo com a intenção de apimentar a relação e o mocinho parece muito mais saidinho agora. Ele a algema na cama – com algemas de verdade, é claro – porque as de mentira quebram fácil (segundo ele). Já penso eu que pra topar uma coisa assim tem que haver muita confiança no parceiro, mas eles são casados há muitos anos e são muito felizes, então tá tudo bem. Só que não. O que o excita não são as algemas, mas a violência, a demonstração de poder, a submissão. É aí que nossa mocinha se agita e diz não, sai da cena criada por ele e impõem seu lugar.

Mas o pior está por vir. Sim, ainda dá pra piorar. O cara tem um ataque cardíaco e morre, deixando a própria esposa algemada na cama, sem conseguir se soltar e sem nenhuma possibilidade de pedir ajudar. É aquele momento em que te faltam até palavras pra descrever. O desespero, o sentimento de impotência, a vontade de entrar na tela e soltar aquela mulher. Mas calma, que ainda fica pior. Um cachorro entra pela porta aberta da casa e começa a comer o corpo do marido no chão do quarto. Ela então tem um colapso nervoso e passa a enxergar e a interagir com uma versão do marido e uma dela mesma, antes do incidente.

É como se a mente dela projetasse essas figuras como uma forma de defesa. Ao conversar com eles ela se distrai, consegue pensar em maneiras de sobreviver e passa a analisar a própria trajetória de vida. Ela se pega a pensar: o que na minha vida me trouxe até esse momento? Somos então enviados a diversas memórias, como os pequenos sinais dados pelo marido de sua violência, ignorados por ela. As piadas, as pequenas violências durante o sexo, as ausências e os adultérios. Todos deixados em segundo plano por uma crença de que ele era uma boa pessoa pra ela.

Então vamos mais longe ainda, conhecer uma menina pré-adolescente que tinha acabado de virar mocinha, experimentando a sensação de usar uma roupa mais adulta. E um pai, que diante dessa novidade não se controla e acaba se masturbando com a filha no colo. A menina, ainda sem saber nada dessas coisas da vida, chora e se desespera. Agarra-se na fala do pai, que a convence de que é melhor guardar esse segredo para sempre, para o próprio bem dela. E lá no fundo de um poço, dentro dela mesma, ela enterra esse segredo. E assim ele permanece, como uma ferida infeccionada, sem desaparecer, mas sem deixar de doer.

E nós começamos a perceber que mesmo lá no fundo, esse acontecimento ainda molda quem ela é e como ela se relaciona com o mundo: sem conseguir confiar em ninguém e se relacionando com quem ela já sabe que não presta, pra não se surpreender. Mas o fato é que ela consegue se libertar, não somente das algemas, mas também de toda opressão simbólica do machismo que caía sobre ela. Claro que isso é feito com muita dor, com muitas perdas, com muito sofrimento. Ela chega a cortar a própria mão com um caco de vidro pra se soltar, numa cena tão visceral que é possível sentir a própria mão sendo arrancada. Mas mais do que o sangue em si, acho incrível o que isso representa.

Ela então decide não se calar mais. Não sofrer mais com aquilo que nunca foi dito, mas compartilhar a sua história e ajudar outras pessoas a também se libertarem. As cicatrizes do passado irão ficar gravadas pra sempre, mas como um lembrete de que ela passou por isso e ela sobreviveu. A certeza da morte (seja por desidratação, seja por um cara louco que chegou a encontra-la na casa) fez com que ela percebesse que a pior morte era abrir mão de si mesma. Não importa se um abuso ou uma violência é real ou psicológica, isso nunca deve fazer com que você esqueça quem você é e o que você pode fazer. Isso mesmo, você que está lendo esse textão e chegou até aqui: não desista. Você é muito mais forte do que imagina.


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Bianca Ferreira

Psicóloga, mestranda em psicanálise e dona da Bianqueria.