Nada muda para as mulheres em Blade Runner 2049

Quem nunca ouviu falar ou não sabe do que se trata Blade Runner morou em uma caverna ou foi dar um rolê em Marte nos últimos trinta anos. Blade Runner, o Caçador de Andróides, de Ridley Scott, 1982, baseado no livro “Andróides sonham com Ovelhas Elétricas”de Phillip k. Dick,foi um marco no cinema dos anos 80 e no gênero da ficção cientifica. Ainda que tenha sido editado e reeditado muitas vezes –  (Versão para cinema internacional (1982) e uma versão do diretor (1992). Em dezembro de 2007, há uma terceira versão, que é considerad definitiva e autorizada pelo diretor Ridley Scott, contendo cenas estendidas e efeitos especiais.) Em todas elas, é considerado um bastião da sci-fi.

Foi um dos definidores da cultura cyberpunk, cuja mensagem sempre questiona o papel e existência da humanidade frente a avanços tecnológicos. O visual ultra futurista do filme, trilha sonora e efeitos especiais foram algumas das tendências mais influentes da época, atingindo o próprio gênero da ficção científica no cinema, como também a  moda, design e arte em geral. Blade Runner foi o zeitgeist dos anos 80. Um clássico. Uma instituição cinematográfica. E como tal, adorada por muitos fãs, tema de muitas teses acadêmicas, livros e fanfics.

Depois de uma série de imbróglios envolvendo direitos autorais entre roteiristas, Riddley Scott, Sony e outras áreas envolvidas, ficou decidido que o diretor Dennis Villeneuve (do não menos genial A Chegada)  faria uma “continuação”do clãssico. Tão logo a notícia saiu, o vozerio da grande brincadeira de telefone-sem-fio chamada Internet ficou indignado, achando que se tratava de um “remake” e malharam o filme muito antes das filmagens se iniciarem.

Acontece que Blade Runner 2049 NÃO É um remake. E por isso mesmo ele é completamente diferente do que você espera. Ele é a continuação de uma história que ficou em suspenso e por isso mesmo, bem mais sombrio e menos dinâmico, mas muito mais denso e justo ao legado cult que seu predecessor deixou.

O ano é 2049 e a tecnologia na produção de andróides está além do que qualquer um pode imaginar. Ainda assim, restam alguns modelos antigos que precisam ser eliminados por conta de mau funcionamento, o que gera má propaganda às Industrias Wallace, mega-conglomerado que comprou as industrias Tyrell, que fabricava os andróides do primeiro filme.

Quem dirige essa nova empresa é o megalomaníaco Niander Wallace (Jared Letto) que a cada dia dá vida a modelos cada vez mais aprimorados de andróides, enquanto o novo “Blade Runner” é o policial K (Ryan Gosling) que é incumbido pela diretora da polícia de Los Angeles (Robin Wright, pra variar a única personagem feminina FORTE do filme) a resolver um caso ímpar na história da instituição que pode simplesmente ser uma catástrofe para a sociedade. O caso leva K ao policial aposentado Rick Deckard (Harrisson Ford) que, com sua história, acaba por amarrar algumas pontas soltas deixadas pelo primeiro filme.

A película ainda conta com Dave Bautista (o Drax de Guardiões da Galáxia) que se revela a cada dia,  um ótimo ator.

Vai se surpreender quem espera a ação do primeiro filme. Blade Runner 2049 tem um ritmo diferente, contemplativo, a fotografia e produção seguem o padrão do primeiro, estupendas, com grandes panorâmicas e super closes supreendentes.  Gosling interpreta um papel cheio de camadas e nuances onde uma aparente fragilidade é vislumbrada por baixo de uma carcaça fria e robótica. É bem interessante observar também o seu relacionamento com o holograma Joi (Ana de Armas) o que dá muita profundidade ao seu personagem. Fica claro que, em termos de protagonismo, K é muito melhor trabalhado do que Deckard, no primeiro filme.

O lado podre de tudo isso e que não podemos deixar de abordar é o fato de que em 2049 a mulher AINDA continua sexualizada, objetificada e relegada ao fetiche masculino. Prova disso é a própria existência de Joi, um holograma-escrava-sexual de K, das propagandas de andróides sexuais e de prostitutas nas ruas. Nesse ponto de vista, a participação feminina no elenco e história  é pobre e pífia, infelizmente ainda um legado do primeiro filme que traz a sombra de um possivel estupro, na cena de amor entre Deckard (Harrisson Ford) e Racheal (Sean Young), que dá MUITO o que pensar e discutir.

Há quem diga que o personagem de Gosling  tenha tido franca inspiração em  Josef K, protagonista dos livros, O Processo, O Castelo, entre outras obras do célebre escritor checo Franz Kafka cujas inquietações e ansiedades quanto aos rumos da sociedade eram constantemente expressas em suas narrativas. Olhando por esse lado, K parece bem kafkiano, mas tem um toque hollywoodiano de Jornada do Herói em seu personagem, talvez para deixar o filme mais palatável para as novas gerações.

O papel de Jared Letto tá uma preguiça imensa e é mais uma vez, Jared Letto interpretando ele mesmo, afetadíssimo. Aliás, se formos comparar vilões, a sequência perde FEIO para o incrível Roy Batty de Rutger Hauer do filme original. A capanga de Wallace, a androide Luv também é um ponto fraco do roteiro: totalmente desnecessária e caricata.

O que acontece é que o subtexto de Blade Runner  faz de sua história uma fonte infindável de teorias e interpretações, precisaríamos de uma série de matérias para discutir todas as nuances e possibilidades que ela levanta e é isso que a torna inesquecível e tão rica.

No final Blade Runner 2049 pode não ser tão grandioso quanto o primeiro que foi realmente um marco cinematográfico, disruptivo técnica e esteticamente, mas ainda levanta questões sócio-filosóficas interessantes e relevantes que valem a pena ser analisadas.

E sim, é recheado de referências ao primeiro filme e ainda apresenta um trunfo em efeitos especiais que vai deixar muita gente boquiaberta com tamanha perfeição.

Eu senti, DE VERDADE a falta da trilha-sonora incorruptível de Vangelis. Dessa vez ela ficou ao encargo do nâo menos competente Hans Zimmer  e do novato Benjamin Wallfish que tem no curriculo IT, Dunkirk e Hidden Figures.

O papel da ficção científica é expressar e projetar anseios, comportamentos e visões de nossa sociedade para um provável (ou não) futuro. É questionar nossas atitudes atuais e imaginar suas consequências futuras. E isso, a franquia Blade Runner continua fazendo com maestria, PRINCIPALMENTE no que tange ao papel das mulheres em nossa sociedade no futuro. É melhor a gente matutar bastante nessa questão e mudar isso o quanto antes.


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Gabriela Franco

Jornalista especializada em cultura pop, produtora, cineasta e mãe da Sophia e da Valentina Criadora do MinasNerds.